Capítulo X - Um ano depois...
Foi um ano muito difícil para Leona. Voltou à Londres e ali terminou suas últimas pesquisas de laboratorio. Pronto regressou à Oxford e completamente solitária concluiu o curso de arqueologia. Não conseguiu encontrar seu irmão e Greg, sua alma gêmea, jamais retornara. Por algum tempo esteve algo neurótica, pensando que quizá poderia estar sendo espionada pela agência secreta para a qual Marcela trabalhava. Foram longos dias de extremo desalento ao relembrar Marcela sendo literalmente fuzilada com munição de tranquilizantes e falecendo diante de Leona que não pôde fazer nada. Mais angústia ainda ao presenciar seu irmão, ainda que estando em forma de um gigantesco lobo, sendo atingido por disparos a queima roupa e outra vez não podendo ajudá-lo.
Leona começou a questionar a si mesma, refletindo sobre sua capacidade de adquirir poderes pertencentes ao mundo dos Lobos. Seria por ser irmã de um ser sobrenatural?
Não sei dizer se meu irmão está vivo ou morto e menos ainda sobre o paradeiro do príncipe Greg Raio de Fogo, outra lacuna não preenchida em minha mente. Tudo o que sei é que Marcela está morta. Morreu tentando salvar-me das garras daqueles cientistas sem escrúpulos. Talvez sua atitude revele um pouco de peso na consciência ou quem sabe se ela conseguiu ver a realidade no outro lado do espelho.
Arrasto comigo, lembranças tristes e impotentes de momentos de perda.
Estudando na biblioteca, de braços cruzados sobre a mesa e seu rosto apoiado sobre eles, expondo uma melancólica aparência, relembra da cena trágica ocorrida na Torre Eiffel, em uma noite fria e diabólica do passado.
Josh, aquele covarde! Não teve ao menos coragem para continuar ali e presenciar a cena ocorrida naquela noite. Bastardo! É por isso que em todo lugar onde estávamos, lá estava o maldito para espionar nossos movimentos —passa as mãos repetidamente em seu rosto, tentando espantar o sono que seus olhos esboçam. Estica as pernas por debaixo da mesa e deposita seus óculos sobre um grosso livro que leva o título de “Fósseis na Amazônia”.
Já é tarde e as poucas almas, vivas, deixam a biblioteca. Leona fecha e empilha seus livros, coloca-se os óculos e, sonolenta, caminha rumo à saída, deixando apenas os livros da biblioteca na mesa. Suas botas de pele negra, cano longo oculto pela calça jeans, fazem sons surdos ao tocar o seco piso da universidade. Caminha solitária pelos corredores sendo interrompida por uma porta abrindo ao seu lado.
— Olá Leona! Que bom encontrá-la aqui! —ela não esperava ser abordada pelo professor de Antropologia. O fato de Baldwin ser espantosamente feio não foi necessariamente o motivo, mas Leona levou um susto ao vê-lo, ajeitando seus óculos e pondo-se a ouvi-lo.
— Boa noite, Professor Baldwin!
— Muito boa noite Leona! Conversaremos caminhando. Sei que você deve estar cansada e com pressa para ir-te a casa —ela concorda, gesticulando positivamente com a cabeça—. Bom, aqui estão as revistas que você havia pedido.
— Que ótimo! Obrigada por este esforço, eu estava mesmo precisando desse material, estou certa de que não deve ter sido fácil reunir a todas elas.
— Em verdade são todas da minha coleção pessoal. Algumas são mais genéricas e outras são especializadas em antropologia. Creio que encontrará tudo o que procura —uma a uma aquele senhor de idade vai entregando as revistas e fazendo breves comentários—. Esta tem uma matéria completa sobre as mais recentes tribos descobertas na Floresta Amazônica. Deixe-me ver aqui —procura entre outras revistas—. Esta contém toda a expedição de Jacques Cousteau na Amazônia e esta outra fala um pouco sobre as tribos indígenas da América do Sul —penteia sua longa barba com os dedos—. Ah! Estes com capa amarelada são velhos relatórios de antigas expedições da universidade. Tenho a certeza de que você encontrará vários documentos importantes aqui. —ele esboça confusão—. Diga-me uma coisa Leona. O que você realmente está procurando na Amazônia? Afinal sua especialização não será na China?
— Procuro algo que ajude-me a encontrar uma pessoa.
— É algum arqueólogo desaparecido ou algo assim? —curiosidade mata.
— Desculpe-me Sr. Baldwin, mas prefiro não divulgar nada. Não quero especulações sobre minhas pesquisas. Pelo menos por enquanto, não!
Caminhando pelo estacionamento ela o agradece, despedindo-se e seguindo rumo a seu carro. Desviava-se da água deixada pela chuva e ao mesmo tempo o distante Sr. Baldwin gritava, procurando relembrá-la de um compromisso:
— Até dia dez de fevereiro, quando nos encontraremos na “aula da saudade”.
A arqueóloga, que nesse instante retirava a chave do velho dodge do bolso, vira-se de costas e escora-se no carro. Seu chaveiro cai e Leona conversa consigo mesma, abraçada em seus livros:
— Faz um ano! —silêncio soturno, olhando para o asfalto molhado e visualizando sua face refletida na poça d'água onde repousavam suas chaves—. Onde está você, Richard?
Duas semanas depois...
Um persistente pedaço de arame, agarrado no fundo do ônibus, gerava um estalido irritante ao arrastar-se contra as pedras do caminho; e eram muitas. — Não poderíamos dizer que aquele era o último modelo, contudo a universidade bem que poderia haver alugado um veículo que não carecesse repor a água do radiador a cada duas horas de viagem. Fazia um tempo frio e a chuva tornava o percurso ainda mais radical. Sentíamos desconfortáveis por tanto subir e descer montanhas e às vezes um pouco de medo pelo longo tempo de serviços prestados que aquele ônibus deveria levar em sua bagagem.
Andrew era o acadêmico mais aplicado de toda a universidade. Estava sentado logo à frente, sempre fazendo perguntas ao motorista sobre os costumes da China. Falavam alto e em chinês mandarim; o assunto parecia divertido. Lisa Parker estava em sua terceira especialização, sempre estudando antropologia. Ao lado de Stephany Janson, tagarelavam incansavelmente, relembrando as aventuras vividas em sua última expedição à Mongólia. Janson levava o pêlo loiro, muito longo, e na ocasião estava preso sob seu chapéu. As duas faziam lembrar-me de Marcela e de como nossa amizade era forte. Bem ao meio do ônibus, dormindo com o chapéu sobre o rosto, nosso guia local parecia perfeitamente acostumado com a deformidade do terreno. Lu-Xinzhi dava ares de despreocupação.
Eu não queria estar extremamente à frente, mas também não funcionaria estar bem ao fundo, afinal ali estavam Julie e Simon; o casal mais apaixonado de Oxford. Juntos analisavam um velho mapa e tentavam acompanhar nosso percurso, fazendo uso de um equipamento conhecido por GPS (Sistema de Posicionamento Global). Parecia divertido. Eu estava sentada completamente solitária, atrás de Lu e um pouco adiante de Chuan-Chuan, a paleontóloga chefe da expedição. Ela passou o percurso todo trabalhando muito. Levava um computador portátil que estava permanentemente conectado à universidade por meio de um satélite de comunicação.
Phil vive há tempos em Pequim, incansavelmente pesquisando fósseis humanos desde os anos setenta; naquele ônibus era o paleontólogo com maior autoridade no assunto. Foi especialmente indicado por Chuan-Chuan para esta expedição e estava particularmente muito contente, por tratar-se de uma oportunidade inédita. Tudo começou quando alguns camponeses caminhavam pela floresta e inesperadamente o chão cedeu, abrindo passagem para uma profunda caverna onde afirmavam haver encontrado fósseis. Incrível mesmo era a descrição que faziam desses fósseis, afirmando parecerem com um misto entre homem e animais caninos. Phil estava junto à chefe da expedição e também levava seu portátil.
Miguel, Jordi e Alberto eram espeleologistas espanhóis e a universidade conferiu a eles a missão de dar segurança à toda equipe. Acredito que também estavam incumbidos do mapeamento de toda a caverna. Permaneciam sentados atrás de Chuan-Chuan e inspiravam confiança.
Lentamente a chuva foi transformando-se em neve fina e quanto mais subíamos as montanhas, mais neve havia no solo. A paisagem era meio desértica e eu ficava de pêlos arrepiados sempre que passávamos próximo de um despenhadeiro. O motorista resolveu parar para colocar mais água no radiador e foi um alívio, porque Lu-Xinzhi ordenou a ele que colocasse as correntes nos pneus.
Mais uma hora de estrada e estávamos todos dando mostras de cansaço. Não sei como o guia conseguia estar tão tranquilo estando dentro daquele velho ônibus e diante daquelas péssimas condições meteorológicas. Foi um incidente muito rápido e aconteceu justo em um momento onde todos estavam desapercebidos. Eu estava justo ajeitando minhas botas e creio que isso foi fundamental na proteção do meu corpo. Lu-Xinzhi deveria ser uma espécie de bruxo oriental, porque o ônibus aproximava-se à uma bifurcação e ele, mesmo dormindo, sentiu a mudança de direção e de súbito levantou-se, arremetendo seu corpo adiante e gritando assustado:
— Para a esquerda, idiota!
Evidentemente ele falou em língua nativa, mas pareceu-me que ele havia dito algo nesse sentido. Foi uma freada muito repentina, causando uma forte derrapagem na neve. O veículo saiu da pista e o motorista ainda conseguiu evitar que tombássemos no barranco. Quando o pára-choque dianteiro chocou-se contra aquele tronco caído, todos foram arremessados para frente, exceto eu por estar abaixada. Foi como um milagre, pois o tronco estava justo à beira de um precipício. Ainda foi possível ver as pedras caindo e afastando-se do alcance das luzes dos faróis dianteiros, antes do ônibus fazer um ronco estranho e voltar a traseira no chão. Nossas bagagens não couberam todas no compartimento de carga e por isso havia muito equipamento da universidade nos assentos. Com o choque estes equipamentos voaram por todos os lados.
Os espeleologistas rapidamente seguiram para a parte traseira e um deles desceu com umas cordas e equipamento de segurança, prendendo o veículo em algumas árvores. Estava claro que não seria possível descer pela porta dianteira, exceto se quisesse despencar em um vazio abissal. Um a um fomos descendo pela porta traseira e quando foi garantida a segurança começamos a retirar os equipamentos e bagagens. Era um final de tarde, contudo a neve caia deixando uma sensação noturna no ar. Montamos acampamento a uns oitenta metros do local do acidente.
Jordi estava capacitado para realizar primeiros socorros, havia dedicado alguns meses de preparação para isso. Fez pequenos curativos em Simon, Julie e Lisa; os calmantes eram para Phil. Stephany tinha ligeiros arranhões no braço, nada sérios, mas que custaram preciosos minutos de Jordi, quem fez questão de tratá-la com muito carinho; mui poético.
De alguma forma minha calça havia rasgado, ainda que eu não estivesse ferida. Lu-Xinzhi aproximou-se trazendo uma de minhas mochilas. Eu estava próxima à fogueira acendida por Miguel e Alberto, tentando aquecer uma pedra grande que levaria para dentro da minha barraca. Havia aprendido esta técnica de aquecimento com Richard.
— Procure trocar-se ou acabará congelada —jogou a mochila ao seu lado.
— Obrigada pela preocupação!
Lu não pôde evitar dar uma olhada nas pernas de Leona e também não pôde esconder sua cara de espanto ao ver aquela enorme tatuagem que decorava desde a coxa ao tornozelo da arqueóloga.
— Mas... —caiu de joelhos, apontando ao desenho—. O que é isso? —olhou bem nos olhos de Leona.
— Lu, você não tem vergonha de ficar aqui parado olhando minhas pernas?
— Desculpe-me senhorita Brid, mas eu nunca havia visto uma tatuagem tão grande em uma mulher ocidental. Tenho amigos que as possuem e são maiores que a sua, mas não em uma mulher.
— Eu sei que parece estranho, contudo mais estranho ainda é saber que essa tatuagem já salvou minha vida muitas vezes.
— Como assim? —demonstra curiosidade e espanto.
— É uma longa história. Quem sabe um dia eu possa mostrar-lhe do que esta tatuagem é capaz.
Ouve-se um chamado distante:
— Xinzhi, venha! Precisamos de ajuda para retirar o ônibus do barranco.
— Desculpe-me. A conversa está realmente interessante, mas parece que os garotos não conseguem fazer nada sem minha presença.
Leona ajudou a organizar os equipamentos e a protegê-los da neve. Foi uma madrugada muito fria, talvez a noite mais fria de sua vida. Nevou até às duas horas da madrugada e o ônibus só pôde ser retirado pela manhã.
Leona despertou-se bem cedo. Abriu sua barraca, visualizando como os homens da equipe retiravam o veículo, ajudados por camponeses nativos. Já não nevava e a paisagem era maravilhosa, com direito a majestosas montanhas a desenhar um horizonte de tirar o fôlego. Simon caminhava sonolento, e boquiaberto aproximava-se de Leona, sacando seu GPS e afirmando em voz alta:
— Estamos muito perto do sítio arqueológico. Com um pouco de sorte, com mais duas horas chegaremos ali —o vapor de seu bocejo revelando o quanto faz frio. Julie aproxima-se silenciosa; abraça-o por trás —. Amor, eu refiz os cálculos e tenho certeza de que estamos perto do local.
— Espero que este GPS esteja certo! —ela questiona—. Você não deveria estar ajudando os outros a puxar o ônibus?
— Claro que sim! Segura isto aqui, porque vou agora mesmo! —deixa com ela o equipamento eletrônico e uma pasta cheia de cartas topográficas— Beijos.
— Julie, por que você não me ajuda aqui com essas caixas? —acenou em direção a empilhadas caixas de madeira.
— Certamente, Leona! —demonstrava ser prestativa e de um carisma sem igual.
Enquanto isso, em uma cabana nos Alpes Suíços...
Grandes e maltrapilhos homens; eram dois. Frio e sombras, ainda que dançando valsas, sinistras, seguem raivosas perseguindo o vento. E correm! Estranhos sons em devaneio, de azimutes diferentes, tênues na noite. São rosnados patéticos em direção ao vazio.
Não são florestas de deuses, mesmo assim não deveriam ser tão tristes. São ermas, inóspitas trilhas de algum lugar macabro, em meio a uma infindável floresta de pinheiros. Há neve e vultos na extremidade. Visões alucinógenas entre brumas e a escuridão.
Andarilhos solitários, lamparinas em suas mãos; bastardas almas que os perseguem. Calcanhares duros e congelados. Úmidos arbustos produzindo sons surdos; estalos em galhos secos enregalados.
Insidiosa nevasca; protuberantes barbas, impregnadas de neve. Boca gélida liberando um hálito ácido ao afirmar um milagre:
— Lixo Selvagem você está vendo aquilo? —direciona seu totem a uma longínqua cabana; espessa neve que a encobre.
— Sim, eu posso ver! —alívio na fala.
— Então vamos! —parece em delírio, como se estivesse vendo uma miragem—. Mas tenha cuidado! —roucas vozes, secas, entre sibilos do vento.
Coração de Lobo, este é seu nome indígena e o honra, como todos afirmam que o é! Caminha recato, circulando a cabana. Suas pernas brigando com a neve alta, os olhos investigando as frestas das toras que compõem as paredes, os pés fazendo sulcos na neve; observando os passos do companheiro em seu ângulo de visão.
Lixo Selvagem aproxima-se da pequena varanda. O chão é de madeira, encoberto pela neve. Há uma esquecida cadeira de madeira nobre encostada no estrado e um castiçal prateado atirado aos seus pés. Degrau por degrau e eram cinco; fazendo gemer a madeira velha; cauteloso, subindo sem olhar para os pés e apertando os olhos parecendo expressar sua tensão, vai chegando cada vez mais perto daquela encardida porta de tamanho descomunal. Enferrujada maçaneta dourada, peluda mão prestes a tocá-la. Lixo Selvagem hesita por alguns instantes, com sua mão parada a poucos centímetros de seu destino, parecendo sentir que do outro lado encontrará a verdade.
Coração de Lobo limpa o vidro da janela lateral, raspando o gelo com cautela. Olhos de lobo observam o interior aparentemente vazio. A ventania torna-se ensurdecedora. Ele salta por sobre o estrado que decora a varanda, aproximando-se do bem agasalhado amigo:
— Não dá para ver ninguém lá dentro! —sussurra próximo ao amigo—. E agora, o que faremos? —franze a testa esperando respostas.
— Entramos!
Coração de Lobo lentamente vai girando a maçaneta que mais parecia uma peça de antiquário. Há um ríspido tilintar, ao fazer girar exageradas dobradiças, mui enferrujadas.
Não há luz no interior da velha cabana, mas sim um forte e predominante cheiro de incenso na sala e finalmente as luzes trêmulas de suas lamparinas invadem a penumbra, findando o mistério.
Há um lindo tapete ocre com detalhes indígenas em verde musgo nas pontas. Sobre ele medita sereno, de pálpebras caídas, com a pele surrada pelo tempo; fumaça tecelã que o envolve. Arregalados olhos dos dois, ao presenciá-lo flutuando a alguns centímetros do chão, envolto pela fumaça fina e contínua do incenso.
— Mas o que é isso? —Lixo Selvagem em arrepios—. O velho parece estar hipnotizado! —. Fala ao pé do ouvido do amigo, ainda que seus olhares continuem fixos na cena.
— Será que esse é o ancião que procuramos? —ouvem-se vozes em coro, sussurrando um cântico tribal.
— Você está ouvindo este som?
— É ele! —disse Coração de Lobo, deixando cair sua lamparina ao solo, arregalando os olhos ao sentir uma violenta energia em forma de névoa verde, que sinuosa rodopia seu corpo e invade sua mente—. É a Águia das Montanhas!
Coração de Lobo proferiu o nome do velho e nesse mesmo instante pareceu haver invocado todas as almas perdidas de todas as eras. A fumaça do incenso, que antes rondava o corpo completamente imóvel do velho, desdobrou-se em várias mechas eriçadas; e como em um ritual de magia negra, mesclou-se com a névoa verde formando imagens de espíritos indígenas e lobos, pondo-se a vagar raivosos por toda a atmosfera soturna do interior da cabana. Forte e radial o turbilhão cortante surge do nada; parece gerado pelo velho ainda imóvel. Ventania que fecha a velha porta e circulando baila com espíritos guerreiros.
— Uhrraaaa! —faces de homens e lobos.
— Auuuuh! —uivos de um metamorfo.
Energia, aquele turbilhão de almas circula raivoso e acelerava-se rápido, chegando a distorcer a imagem do velho ainda intocado; hora era verde fluorescente, hora azul. Os pés de Coração de Lobo começam a perder o contato com o chão da cabana. Desequilibrado dá um passo atrás; suas mãos mudando forma e fincando longas garras nas toras de madeira que compõem as paredes. Lixo Selvagem rodopia no ar, tocado pela energia. Seu deslocamento arranca-o do solo e, agarrado em uma rachadura no piso de madeira, acaba com o corpo suspendido no ar, movimentando-se como ondas embravecidas.
— Não poderei suportar por muito mais tempo! —Lixo Selvagem muda forma; pesadas roupas sendo absorvidas por seu espírito, dando lugar a longos pêlos de lobo.
— O que está acontecendo aqui? —a ventania é ensurdecedora.
— Coração de Lobo, estamos sendo sugados!
Em voz baixa, lábios úmidos, o velho inicia um arrepiante cântico indígena, permanecendo sereno e de olhos fechados. Vagarosamente vai levantando o tom de sua rouca voz, sendo cada vez mais agressivo em sua interpretação; penas de águias decorando seus longos cabelos. Dezenas de espíritos de Lobos indígenas, cantando a uma só voz e acompanhando o ancião em um ritual agora reconhecido por Coração de Lobo.
— Lixo Selvagem, ele sabe o que queremos! —afirma sucinto, quase gritando, agarrando-se na parede.
— O que você disse? —grita bem alto, tentando superar o barulho do vento.
— Eu disse que ele está realizando o “Ritual de Busca do Filhote Perdido”. —grita.
O rosto de Águia das Montanhas começa uma lenta e progressiva metamorfose. Longos pêlos, espessos, brotam de sua face que deforma-se para dar forma selvagem ao mais sábio Lobo ainda vivo. — Absurdamente monstruoso, ao mesmo tempo lindo; era como estar diante de um deus. E esse deus começou a falar:
— Agora vou enviá-los ao encontro de Ponte para o Passado. Ela precisa encontrar seu destino e eu sou o único que pode sentir sua energia, portanto o único que pode localizá-la.
Relampejante e assustador, surge um magnífico portal de luz no teto da sala. O brilho é inimaginável, produzindo um estridente som ameaçador que, mesclado com o cântico tribal, o barulho do vento e as palavras do velho, converte-se em algo jamais vivido pelos dois ali presentes.
— Ela deverá encontrar-se com os Zhoukoudians, ao norte de Pequim.
Os dois Lobos, demonstrando entender seus destinos, permitem-se deixar levar pelo vento, sendo arremessados em direção ao portal e desaparecendo através da luz.
Já não há luz, já não há nada na sala. Apenas há uma exuberante pena de águia pairando no ar, que lentamente pousa no chão de madeira fria.
Os Lobos, pouco a pouco estão sendo vencidos pelo poder da Destruição. Encontram-se debilitados e reduzidos em tribos divididas por conspirações internas e pela influência de energias de vibrações baixas, geradas por consciências psicóticas; servas da Destruição. As tribos menos corrompidas por estas energias são as mais respeitadas, sendo que quanto mais próximos estejam da Terra, mais evoluídos e poderosos serão. Estas tribos são formadas ao redor de um mentor espiritual que geralmente é um Lobo com total controle de suas energias e incorruptível. Elegem a ele como uma espécie de rei e iniciam uma busca por novos seguidores em troca de proteção e conhecimento. Estas tribos podem tornar-se numerosas e extremamente poderosas, lutando pela Terra durante séculos.
Os Lobos, mais conhecidos como “lobisomens” no mundo dos homens, utilizam as energias de outras dimensões para ajudá-los em uma guerra provavelmente existente desde o surgimento da terceira dimensão. Estes guerreiros espirituais, verdadeiros monstros enviados pela Terra, lentamente foram perdendo terreno para a força da Destruição. Houve época em que tribos inteiras foram seduzidas e convertidas em guerreiros negros; lacaios manipulados pela energia destruidora.
Agora a Terra elegeu outro arauto para tentar unir as tribos de Lobos. Um arauto com poderes especiais e uma consciência livre de qualquer influência energética. Águia das Montanhas foi escolhido para revelar este arauto para todo o mundo, e por sua vez elegeu a outros para que isso pudesse tornar-se realidade. Logo Leona Brid será convertida em um arauto da Terra, um arauto que durante séculos está sendo esperado por todos os sábios. Está escrito em uma lenda:
Será poderosa!
Será sábia!
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