Capítulo IX - Avenida Kürfürstendamm
É manhã! Berlim continua bela, e mesmo com tantas reformas e limpezas de terrenos antes proibidos pela cortina de ferro, a cidade ainda mantém seu frisson transcendente. Uma nova Berlim está surgindo depois da unificação. Ainda há neve nas calçadas e as pessoas começam a dar movimento à cidade. Ao longe toca algum solitário sino de igreja; sete badaladas sem parar.
— Ai, minha cabeça dói! — Leona tira o cabelo do rosto e tenta levantar-se. Está frio e o vento sopra com temperatura negativa.
Ela levanta-se. Qualquer pessoa que passasse ao lado daquela cabina de telefone vermelha, na Avenida Kürfürstendamm, certamente veria Leona deitada ali dentro, assemelhando-se a uma mendiga. Leona respira fundo e abre a porta da cabina. Inicia uma caminhada sem destino. Descendo a nobre avenida da capital alemã, a congelada arqueóloga pouco a pouco desperta-se de um sono mal dormido.
Fogo, trevas; raios saindo de espadas épicas. Homens que se tornam monstros em um piscar de olhos, forças misteriosas, que alimentam almas de Lobos e homens.
A Terra ainda resiste! Leona ainda insiste! — Onde estará você está agora, irmão? — Seus pensamentos perdendo-se entre belas vistas da unificada capital.
Leona avista uma catedral. Como sei que está descendo a Avenida Kürfürstendamm e caso eu não esteja completamente equivocado, trata-se da Catedral Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche. Ela se aproxima do grande ícone Berlinense e entra.
Linda e exuberante obra arquitetônica, na catedral estão expostas interessantes pinturas históricas, contudo não despertam o ânimo da deprimida aventureira. Leona escolhe a sétima fileira de bancos para sentar-se, pondo-se a observar o altar e a admirar uma imagem de Cristã à sua frente. Cansada, suspirando, de pálpebras caídas e movimentos lentos, olha para todos os lados, visualizando uns poucos fiéis, postos a rogar suas preces.
Traz então sua espada ao mundo físico, finca sua ponta no chão e apoia seu corpo sobre ela. Lágrimas e lágrimas em um choro saído de uma aparentemente inabalável senhorita. Em prantos, quase fora de si, inicia um recital cheio de palavras, que emergem do fundo da alma, das profundezas de seu coração; os fiéis aproximando-se e tentando consolá-la, sem saber a causa daquele choro em prantos:
Muitas cabeças e um único Deus,Muitos deuses e eu.Agora a luz da lua está viva e,Comemorando a solidão,Viverei através de desertos cinzentos.Cinzas!Não quero mais escrever nas dunas de meus Desertos solitários!Não quero fazer parte deste “nada” absoluto e,Nem mesmo quero segurar a pedra.Minhas mãos estão sujasE negras.O carvão fere minha almaE cala-se.Carvão que risca a areia brancaE bate nas portas dos loucos.Carvão e areia branca,Onde deixo minhas marcas de solidão.O ônibus está lotado,E ainda estou sozinha.O estádio está cheio,E não há ninguém gritando comigo.O reveillon está lindo,Mas comemoro sozinha.Não importa mais onde esteja,Caminhando por desertos e cidades,Eternamente solitária,Cairei no vazio.Então novamente serei uma bastardaObservando as ondas;Riscando palavras insanasEm algum lugar seco e quente de meusDesertos solitários.O carvão acabou!Em meu horizonteAgora posso ver seus olhos.Em nosso reinoPara sempre poderei sentir seu abraço.Em um futuro próximo......Próximo demais de você,Richard.Eu posso sentir!Sentir que posso tocá-lo.Sentir suas mãos sóbrias segurando as minhas,E estar certa de que não cairei no oceano.Sentir sua verdade indelével,Ao ouvir palavras lindas,Tão somente lindas,Mesmo que algumas vezes você esteja tãoDistante.Há gaivotas brancas na popa!Eu vejo um horizonte plano em algum lugar na Holanda.Horizonte que afasta-se para nunca mais voltar,Gaivotas pairando sobre a luz do luar,Estrelas insanas insistindo em acompanhar-me.Insanas que fazem-me chorar.Onde está você?
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