Capítulo VIII - A Ashling prepara uma emboscada
Madrugada de muita neve; o vento gelado perseguindo almas. O Boeing conduz nossa arqueóloga e pousa com dificuldade, minutos antes do aeroporto ser fechado devido às péssimas condições atmosféricas. Leona segue rápida; seus pensamentos fixados em Marcela:
— Cristo! Como estará Marcela? —entre a multidão, faces investigativas direcionam-lhe o olhar.
A arqueóloga percebe algo, ainda pensativa. Parece estar sendo seguida:
— Talvez seja melhor ir em metrô. Com tanta gente por perto, dificilmente serei atacada. Não vejo a hora de chegar ao hotel. Amanhã bem cedo tomarei o café da manhã com Marcela. Quero chegar o mais rápido possível ao local do encontro —um choque em sua mente—. Ai! —deteve-se, apoiando-se no corrimão da escadaria da estação—. Richard não disse a hora do encontro! —segue adiante, conturbada.
Alguns segundos de espera e lá estava o metrô. Soou o apito e as portas abriram-se. Leona entrou, não procurando pousadeiro. Aguardando perto da porta, percebeu a entrada de um suspeito no vagão logo atrás. Comentou para si mesma:
— Esse cara tem que voltar para a escola de espionagem. Não sabe nem disfarçar.
Leona saiu do vagão e colocou-se a caminhar rumo a outro vagão logo à frente. O estranho saiu apressado, andando em sua direção. Novamente soou o apito, avisando que as portas fecharão. Ela entrou correndo, o estranho repetindo seu gesto no vagão detrás. Brumas. Portas fechadas, e o metrô começa a andar; Leona acenando do lado de fora e despedindo-se do desconhecido.
Uma hora da madrugada e Leona chega ao Hotel.
— Por favor, dê-me a chave do dois mil e dois.
O recepcionista sorpreende-se, confere seus registros e diz:
— Senhorita! Não estará enganada?
— Como assim?
— Não há ninguém na suíte dois mil e dois!
— Acontece que minha amiga e eu... Hospedamos nele na madrugada do dia oito. Inclusive, se quiser conferir, você verá que ela estará lá, e por certo, caso eu ainda não esteja maluca, estará até dormindo.
Ele faz gestos com as mãos, como se não houvesse lógica. Pega o interfone, espera tocar algumas vezes e desliga.
— Perdão senhorita, mas acho que está redondamente enganada!
Ela não quer discutir.
— Tudo bem! Então quero hospedar-me nessa suíte —expressa impaciência—. Está vazia, não está?
— Sim senhorita, está! Vou providenciar seu registro.
Entrou no quarto, infantilmente acreditando que o recepcionista estivesse enganado. Trancou a porta e foi logo descobrindo que nada havia dentro. Marcela sumira sem deixar vestígios e no banheiro não havia um mísero estilhaço de vidro. Estava tudo límpido!
— Mas não é possível! Como isso pôde acontecer? —tudo vêm à sua cabeça—. Só pode ser maluquice minha —sentou-se no canto da banheira—. Não aguento mais esta paranóia! Onde está você, Richard?
Palavras desesperadas, esquecidas no banheiro. Uivos distantes ecoam em seu subconsciente. Silenciosas lágrimas e a Cidade Luz brilha, linda como nunca! Bem perto, tão perto, repousa a Torre Eiffel com ar de desafio final.
Leona molha o sabonete, esfregando-o no vidro do espelho. Depois de um banho quente, dormiu.
Nevasca e mais nevasca, desabando sobre a madrugada. A que parecia ser uma incansável arqueóloga carioca, rende-se a umas boas horas de sono profundo. Espíritos portadores de grande quantidade de energia espiritual, pairam no ar e circulam sinuosamente os objetos do quarto, os lustres, a cama, a adaga, sua face. Leona envolvida em um sonho nebuloso, a trazer-lhe lembranças tristes de um momento de perda; o barco a balançar sobre grandes ondas, a tempestade na noite, Richard na proa, um raio e um relâmpago. Um clarão em meio a trevas. Onde está você? Leona ouve brandas vozes sussurrando em algum lugar na escuridão:
São mistérios de falsas montanhas,
São montanhas dentro de mim mesmo.
Por um momento vejo a planície,
Em segundos vejo falsas montanhas.
Eu posso ver através do fogo;
Ver e sentir
Alguns dias de luta e glória.
Luta e glória e um retorno.
Eu posso olhar para o leste agora
E ver o espelho refletindo a luz.
Estou de volta para mim mesmo!
Caminhando através de vales,
Sinto um devaneio, mas não me arrependo.
Entre rios e brumas,
Uma montanha e outra,
São delíquios e ainda choro em prantos.
O céu derrama agora a sua cortina negra,
Sinto as luzes de leves estrelas,
Que lentamente tocam minha face cansada
E transcendem.
Nas terras altas,
Sinto o canto e a fogueira
Liberando centelhas.
São deuses errantes
Em tribos perfeitas,
São ritmos insanos de uma música ritual.
Ritual do Fogo.
Agora sinto que estou indo para o inferno,
Enquanto a lua paciente,
Aguarda por seu momento de glória.
Então para sempre seremos jovens,
Procurando a luz no desconhecido.
Todos jovens,
Caminhando por desertos e vales.
Buscando por diferentes mundos,
Diferentes luzes,
Em um único mundo;
Em si mesmo.
Dez de fevereiro
São nove horas e Leona acorda. Um banho matinal; a água estava muito quente. Calça de couro, camisa de malha negra e botas altas. Sua jaqueta, também de couro negro, realçando o brilho loiro de seus longos cabelos e combinando com seu lenço amarelo pastel, decorado com bordados ecológicos.
Azuis! Observa seus olhos no espelho manchado:
— Greg, apareça! —até parece uma insana, conversando com o espelho. Passa sabonete no espelho—.
Deixou o hotel restando-lhe apenas a singela opção de caminhar solitária pelas brancas ruas de Paris.
Leona segue reluzente rumo ao Arco do Triunfo, tentando sentir a “joie de vivre”, estampada na paisagem da capital francesa. Um instante mais e ali está ela, descendo a Avenue Champs Elysées, finalmente seguindo para o restaurante Lucas Carlton que, se não me falha a memória, fica na “Place de la Madeleine”.
Tenha a certeza de que uma senhorita elegante como Leona, mesmo não estando devidamente trajada, como sugere o ambiente parisiense, terá pedido um prato famoso como o Apicius, preparado pelo “chef” Alain Senderens, com mel, ervas e purê de frutas.
Paris, lugar onde esperamos de tudo. Do nobre ao mendigo, do prato de “salade exotique” ao sanduíche americano, do glamour da “Montagne” à noturna “Bois de Boulogne”, do “Coulommiers” ao “Comté”, do violinista no calçadão ao suicida na Torre Eiffel. Leona parece ter visto de tudo, mas a noite aproxima-se!
É impressionante como esta cidade sabe ser linda! Claro que já estive aqui em outras ocasiões, mas parece que quanto mais ela envelhece mais vida encontramos em sua alma. Cansei de perambular pela cidade e acho que é hora de enfrentar este inadiável encontro. Não sei qual será minha reação, apenas acredito estar preparada. No mínimo pretendo dar um sermão a meu irmão. Afinal de contas que irmão é esse, que joga sua querida irmã em uma gelada desta? Ah, não! Isso não vai ficar barato não!
O metrô parou. As portas se abriram e era a estação mais próxima da torre. Ela desce. Há um grande movimento de pessoas e a destemida universitária segue entre a multidão. Subindo as escadas, ao mesmo tempo em que coça o pescoço, deixa ver por alguns segundos a tatuagem da espada em suas costas. Era a mesma tatuagem que antes estava em suas pernas. Talvez sua calça de couro tenha custado cara demais para ser rasgada.
Dezenas de pessoas insistem em enfrentar o frio para ver o brilho deste grande ícone europeu. Há vendedores de bugigangas e bebidas por todos os lados, estrangeiros de todos os cantos do mundo e muito alvoroço por causa de um maníaco que insiste em caminhar pela estrutura de aço, ameaçando pular lá do alto. Bombeiros escalam a torre, na captura do infeliz. A polícia francesa cerca a área de risco usando faixas amarelas e ao mesmo tempo agentes secretos armam o bote certeiro.
Só há duas maneiras de chegar ao topo da torre. Uma delas é subindo pelas escadas, a outra é por elevadores. Leona segue rumo ao guichê, percebendo que há algum suicida dando trabalho para a polícia. Algumas pessoas estão na fila, mas não há ninguém no elevador. Com o ticket em seu poder, aproxima-se da entrada, andando calmamente. Em condições normais espera-se que o elevador adquira um certo número de pessoas, antes de começar a subir.
— Estranho! Por que será que ninguém está entrando no elevador? —Leona fica pensativa—. Olha aqueles turistas comprando bilhetes! Eles compram, mas não entram.
Não há neve caindo na Cidade Luz. Não há lua ou espíritos na extremidade.
Sua capa é negra e de um brilho metálico, parecendo estar plastificada. Suas botas, também negras, refletem as luzes da torre de tão limpas e brilhantes que estão. Seu cabelo arrepiado, negro, para trás, leva uma considerável quantidade de gel. Em sua face pálida e branca, transcende uma frieza que arrepia até aos cães pastores alemães da polícia local.
—Óculos estranhos! —espanta-se com aqueles óculos quadrados, de tamanho desfigurado e muito espelhados.
O misterioso homem, instrumentado com seus óculos de realidade virtual, inicia o que parecia ser uma análise de quarta dimensão. Ele olha para Leona e seus óculos criam imagens hologramáticas de esferas de coloração metálica, vistas só por ele à sua frente. Fixa o olhar em uma delas que se fragmenta e cobre o corpo de Leona, fazendo uma análise de raios-x em seu corpo. Ela não percebe. Fixa novamente o olhar em outras esferas flutuantes que vão, uma a uma, realizando análises de infravermelho, radioatividade, fero-hormônio, propagação de energia, ondas eletromagnéticas e alguns testes clínicos.
Em um furgão estacionado próximo à torre, cientistas pertencentes ao projeto secreto denominado “Ashling”, recebem as informações e fazem suas análises utilizando modernos computadores, ao mesmo tempo em que assistem às imagens captadas por micro câmeras, instaladas em vários pontos da torre. Com uma grande cicatriz na mão, um senhor de idade aponta para alguns dados no monitor, afirmando que aqueles resultados aumentam a possibilidade da existência de algo sobrenatural na torre. Sério, afirma veemente:
— Estamos muito perto deles agora!
O céu ainda exibe sua cortina negra. Olhos investigativos ocultam-se na profundidade da noite. Carros buzinam ao longe, abafando o som dos chutes e gemidos próximo à torre; Marcela força a porta, amarrada dentro da limusine.
Na espreita, observando os transeuntes, o agente disfarçado de motorista começa a irritar-se com os gemidos e pontapés da prisioneira. Impaciente abre a porta, imaginando encontrar uma mulher amordaçada e amarrada.
Marcela puxa o corpo do infeliz para dentro da luxuosa Mercedes. Saindo do carro, ajeita-se como pode, seguindo rapidamente rumo à grande obra de Eiffel. O louco continua lá, tentando matar-se, aparecendo para as câmeras dos noticiários locais. Marcela aproveita o tumulto para esconder-se entre a multidão, logo avistando uma cientista que participa da emboscada ali armada. Imbuída de uma coragem talvez absorvida de Leona, deposita sua mão esquerda no ombro da conhecida companheira de trabalho, ironicamente dialogando:
— Sinto muito Talassa, a Ashling terá que esperar.
— O que? —ela rapidamente gira seu rosto e as luzes da torre se transformam em vultos vertiginosos. Seus olhos verdes, focalizando a face obstinada de Marcela, seu corpo indefeso tentando reagir ao inevitável—.
Um abraço para a morte; silenciosa bala que lhe penetra as entranhas. Marcela esconde a pistola com silenciador, segurando Talassa que falece em seus braços. Um corpo indo ao chão e a multidão voltando a atenção para Marcela.
— Tenho que ser rápida!
Marcela tira o cabelo da nuca e puxa uma espécie de alfinete que estava fincado sob sua derme. Parece uma ação dolorosa. Muito apressada, troca seu identificador eletrônico com o do corpo ali estirado e corre entre faces estranhas de uma multidão cegada pela cortina noturna. Caminha decidida, desconfiando de todos. Chegando nas escadas da torre um homem forte a intercepta, segurando suas mãos e firmando-a nas grades da longa escadaria:
— Onde diabos você pensa que vai?
— Eu sou Talassa! —ela tenta ser sóbria—. Vou apenas fazer uma averiguação!
Desconfiado aciona um aparelho identificador, instantaneamente recebendo os dados da estranha.
— Tudo bem! Eu ficarei aqui embaixo, certo?
— Certo! —ele solta seus punhos—. Você pega forte cara! —massageia os punhos—.
Qual seria a mística, empecilho ou qualquer outra justificativa plausível que tornasse Richard tão distante de sua irmã? Por que o mundo dos Lobos precisa ser tão nebuloso e sombrio? —Não há respostas no mundo dos espíritos—! —Não ouse violar a lei dos Lobos—! Vozes emergem da extremidade:
— Malditos! —a Destruição ainda insiste em sua obra destruidora.
O banheiro está completamente vazio, exceto Richard que penteia seu longo cabelo liso e loiro. Leona entra no restaurante “Le Jules Verne”, sentando-se e pedindo uma bebida. O homem de óculos estranhos também procura pousadeiro. Distante, senta-se calmo pondo a observar a cena; garçons observando com olhos de Poirot. Mordida de Sangue pega o elevador da torre, circulando como um turista desavisado. Não sobe sozinho. Junto sobe outro homem com óculos estranhos.
— Mas que óculos mais estranhos! —pressente—. Este lugar está fedendo a Ordem!
Richard caminha lento; Leona cruza o olhar àquele que vem. —Há tanto o que dizer! E não há músculos dispostos a ajudar-me—. Muito pálida Leona apenas observa a aproximação de seu desaparecido irmão que senta-se.
Lágrimas! Ela toca sensivelmente sua face. Lágrimas! Um silêncio patético penetrando almas. Leona limpa as torrentes lágrimas de seu irmão e chora. Feminina voz brigando com soluços:
— Você... Você... O que está acontecendo com nossas vidas? —sem respostas—. Por que?
— A vida pode ser um pouco diferente quando se é um Lobo, Leona —sua voz é branda e acalma—. Eu sei que você deve ter milhões de coisas para dizer; coisas que estão acumuladas nesses anos todos em que estive ausente —segura a mão da irmã—. Mas antes de tudo quero que entregue-me o que havia pedido, caso você o tenha conseguido.
— Consegui! —desabafo.
— Então seja rápida, porque este lugar está fedendo a Destruição!
— Consegui muito mais do que pode imaginar, Richard! —afirma concisa, tentando sensibilizá-lo—. Consegui provar a inocência do príncipe da Bavária! Consegui acreditar que você estava vivo! Consegui seguir em frente, em momentos que pensava estar louca! Consegui encontrá-lo e não quero que desapareça mais da minha vida! —veemente, ela suplica—. Não quero mais ficar longe de você, Richard! Não quero passar nem um minuto mais da minha vida com esse sentimento de perda, arrasador, que corroeu-me durante todos esses anos! Por favor —Leona tenta tocar seu coração, contando-lhe fatos que resultam em muitas lágrimas—, você desaparece naquela noite de tempestade; em Angra. Agora percebo o porquê de papai lamentar-se tanto, no momento em que você sumia entre as ondas. Ele disse uma frase que nunca esqueci —uma pausa. Leona engole a seco e fala—. “Richard, não! Richard, ainda não é a hora!”. Foi o que papai disse!
— Eu sei! —Lágrimas—.
— Então! —gasta todo o ar dos pulmões, afirmando—. Papai era um Lobo e você estava querendo libertar-se cedo demais —olhos nos olhos—. Não estou certa?
— Sim, mas, pare de relembrar estas coisas, porque não nos ajudará em nada agora!
Marcela, cansada, alcança a plataforma do restaurante.
— Mamãe morreu três semanas depois.
Richard põe a mão na cabeça e não acredita nas palavras de sua irmã. Agora sua tristeza é latente.
— Não! Mas como... Como foi que...
Leona interrompe:
— Depressão. Nossa mãe morreu tísica e apaixonada por um filho que foi-se.
Greg penetra o mundo físico. Bem humorado e demonstrando pressa, elogia o local:
— Uau! Mas como está limpo este banheiro!
Leona interrompe o assunto e fala sobre o caso:
— Greg é inocente! Armaram uma cilada para que jamais sentasse no trono de seu pai. Não há corpos, não há julgamento! Aqueles que julgavam tê-los matado, na verdade foram enviados pelo Rei Jukes Montanha de Fogo para incriminar e afastar o príncipe de sua família —ambos ficam pensativos—. Átila foi totalmente enganado. Tudo não passou de uma complexa trama.
Mordida de Sangue caminha furioso, avistando Richard sentado à mesa. Richard sente um forte cheiro de fúria, alertando Leona e preparando para defender-se.
— Aqui tem algo errado. Cuidado!
— Morre! Seu maldito desgraçado! —Mordida de Sangue parte a mesa ao meio com suas garras monstruosas. Meio humano e meio lobo, tenta golpear seu inimigo—.
Richard, que havia levantado e esquivado, muda forma tão rapidamente que suas roupas rasgam-se antes de serem absorvidas por seu espírito. Morde as costas do Lobo com voracidade, liberando forte rosnado. Saraivadas de garras são dadas por Greg que, usando golpes galopantes, chega veloz e assustando a Richard. Ao mesmo tempo Leona havia sacado sua espada, cortando a cabeça de Mordida de Sangue com sua adaga de vidro em um movimento digno de um mestre de artes marciais. Foi uma cena muito barulhenta, entretanto, quando Leona deu seu golpe certeiro, o único som que ouviram foi o da cabeça do infeliz caindo e rolando no chão. Silêncio!
— É uma cilada! Fujam! —Marcela chega aos berros, tentando evitar o que era inevitável—.
Leona dirige a atenção à sua amiga. Olha ao outro lado e reconhece o estranho de óculos. Sua expressão é de espanto:
— Não pode ser! É Josh Evan!
— Vamos, fujam! Eles vão capturá-los —Marcela surge correndo aos berros.
Todos os garçons sacam suas pistolas, munidas com fortes tranquilizantes. Saraivas de tiros para todos os lados. Greg protege sua amada, e os três tentam correr ao banheiro. Vários projéteis atingem os Lobos e Marcela ainda consegue atirar com munição real, na tentativa de ajuda-los na fuga. Leona corre, escoltada pelos Lobos, e ao mesmo tempo ainda consegue ver Evan saindo de cena. Talvez ele não quisesse ver o que aconteceria a continuação.
— Ai! Malditos! —Marcela é atingida por vários disparos, não resiste aos fortes tranquilizantes e morre. Leona lança um olhar à sua amiga que, por última vez, cai—.
— Não! —grito longo em lamento—. Bastardos!
Baforadas úmidas no banheiro. Greg percebe que o portal ainda está sensível e ordena que todos tentem alcançar a quarta dimensão. Richard sai de si em delíquio, tropeçando em suas próprias pernas, cai. Leona tentando puxá-lo:
— Greg, ajude-me! —Leona grita desesperada.
— Vamos! Vamos! Devemos fugir e rápido!
— Não vou deixá-lo aqui, jamais!
— Não temos escolha! —por alguns segundos, ambos trocam olhares.
Greg arranca alguns projéteis que estavam fincados no corpo de Richard. Ele parece voltar a si em uma rápida regeneração:
— Rápido! —Richard liberando palavras embaralhadas. Estranhos caçadores invadindo o banheiro.
Raio de Fogo segura Leona por trás. Pegando em sua cintura ele arremessa seu corpo em direção ao portal. Formam-se ondas reflexivas no espelho e Greg salta logo em seguida. Disparos! Projéteis quebram o espelho e Leona parece ter visto seu irmão deixando o mundo físico. Estilhaços de vidro lentamente vão cobrindo o piso do banheiro; Richard Brid dá um salto de lobo, na tentativa de alcançar o portal. Tiros de tranquilizantes e munição de prata; ele grita! Uivos na escuridão.
O lorde alcança a extremidade extrafísica e não avista sua amada. Grita inutilmente, ainda desnorteado pelo efeito de fortes tranquilizantes de caçar elefantes:
— Leona! —olhos de Lobos no outro lado—. Leona, onde está você? —e fala para si—. Como pude perdê-la novamente? —vertigens.
Próximo a um Portal entre as profundezas e a extremidade, o lorde cai!
Parecia que desta vez Richard não conseguiria escapar de mais uma emboscada, dentre tantas já armadas em outros tempos pela Agência Ashling. Ele ainda levaria alguns preciosos minutos para recuperar sua consciência, excessivamente anestesiada e paralisada; mui drogado com tranquilizantes. Um valioso momento no qual seria decidido seu direito à vida ou seu dever de morrer a ser capturado. Está claro que Richard possui muitos amigos que dariam suas vidas para salvá-lo, amigos que reconhecem seu valor e a importância de seu papel como mediador entre várias tribos de Lobos. Assim mesmo, há um nome em especial, um nome que para ele significa mais que amizade ou dever tribal.
Com uma face emanando seriedade e respeito, apareceu como por encanto de algum canto daquele restaurante, com sua roupa negra e, sobretudo também negro, caminhando em direção ao banheiro e iniciando uma odiosa expressão facial ao contorcer sua boca e abrir suas narinas; estava enojado. Havia uma visível energia em forma de esfera reflexiva que era como um cristal envolvendo seu corpo e abrindo caminho entre mesas e cadeiras, logo chamando a atenção de todos os agentes que se preparavam para invadir o banheiro. Era ele, John, o Guardião do Templo do Totem Prateado. De súbito, todos os agentes apontaram-lhe suas armas, iniciando uma sequência de disparos que geraram verdadeiras nuvens de projéteis no ar, todos em sua direção. John, sem parar de caminhar, apenas moveu lentamente seus braços de um lado a outro, algo parecido com um movimento de Tai Chi Chuan, gerando uma assustadora forma de energia que brotando de seus braços expandiu-se por todo o ambiente e destruiu tudo que havia pela frente, projéteis, mesas, cadeiras, agentes e janelas. De qualquer parte de Paris foi possível ver aquela iluminada explosão energética produzindo fogo prateado na Torre Eiffel. John entrou no banheiro e ali encontrou seu amigo tentando levantar-se ainda atordoado. Ele segurou a Richard e juntos saltaram em direção ao espelho, sem olhar para trás.
— Você não estava pensando que eu deixaria você morrer assim?
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