Capítulo XII - A maldição dos Zhoukoudians
Leona segue rumo à caverna procurando desviar-se do rancho; não quer ser vista por ninguém. Ao chegar diante da entrada, acaba surpreendida pelos espeleologistas que preparam os equipamentos de segurança. Ela e seus novos companheiros ocultam-se atrás de algumas pedras, esperando para ver se eles saem do local.
— São apenas alguns humanos indefesos. Matamos os três e entramos?
— Ficou maluco? São meus amigos! Como seu nome pode ser Coração de Lobo se você não tem coração? —os dois começam a rir.
— Ganhei esse nome depois que arranquei o coração de um Lobo corrompido pela Destruição! —faz um gesto com as mãos—. Arranquei-lhe o coração com minhas próprias garras.
Continuam ocultos pela neve, esperando uma oportunidade para entrar; Leona não acreditando na história:
— Que horror! Isso não pode ser verdade! —ela observa algo distante, ao mesmo tempo duvidando do Lobo.
— O que você está vendo? —Lixo Selvagem está preocupado.
— Não é nada grave, simplesmente estão todos subindo o monte para entrar na caverna —Leona questiona—. E agora, o que faremos?
— Vamos deixar para entrar durante a noite —aponta o dedo à Leona—. Você vai com eles e tenta evitar que entrem na tumba. Há uma maldição que cairá sobre quem viole a tumba. Dizem que todos os espíritos dos fósseis despertarão para tragar a alma de quem entre no salão onde os Zhoukoudians estão fossilizados.
— E vocês querem que eu entre neste lugar? Estão loucos? Apesar de que tudo isso é muito surrealista —está indignada.
— Mas você é diferente! A Águia das Montanhas nunca erra.
Leona ouve Coração de Lobo e lembra-se do que ocorreu em seu sonho. Arregala os olhos, voltando-se para eles e dizendo:
— Então aquela visão foi real! —está surpresa com a revelação.
— O que foi real? —Lixo Selvagem pergunta curioso.
— Eu tive um sonho onde uma águia mostrava-me algo horrível. Ela dizia que seu nome era Águia das Montanhas e mostrou uma vila de Lobos sendo destruída. Algo que aconteceu há milhares de anos.
— Não foi um sonho, Leona! Foi uma projeção espiritual. E se você viu algo do passado, então pode ter sido uma retrocognição, ou seja, recordara fatos vividos em vidas passadas —Coração de Lobo orienta Leona.
— Siga com os humanos e procure localizar exatamente onde está a entrada da tumba. Quando retorne com seus amigos, entraremos. A escuridão da noite nos ocultará.
Leona deixa os Lobos para trás, indo encontrar-se com o grupo. Phil foi o primeiro a vê-la chegando, cumprimentando-a com carinho. Chuan-Chuan pediu que se mantivesse por perto e anotasse todos os detalhes em seu computador de mão.
Miguel entrou primeiro, seguido por Julie e Simon. Andrew, Chuan-Chuan e Jordi foram os próximos. Havia um declive acentuado logo no início da caverna. Stephany e Lisa tiveram alguma dificuldade para superar a primeira fase, dando muito trabalho para Alberto que era o encarregado de fazer a segurança nesta etapa. Lu-Xinzhi acenava distante, desejando sucesso a todos:
— Sorte para todos!
Chuan-Chuan tinha problemas para ajustar a chama da lanterna de seu capacete. Saía demasiado carbureto, problema rapidamente solucionado por Jordi. Caminharam dois quilômetros entre pedras e aquele túnel parecia não ter fim. Phil analisava a composição das rochas e dizia estar pessimista, afirmando que em aquele tipo de rocha não era comum encontrar fósseis. Entretanto, a partir de uns dois mil e quinhentos metros começamos a notar uma alteração na umidade, temperatura e coloração das rochas, e Phil passou a afirmar que ali sim que poderiam encontrar algo. Chuan-Chuan olhava para todos com otimismo, ficando extremamente feliz quando Simon chegou em um pequeno salão e tocou em um esqueleto fossilizado no teto. Certamente tratava-se de algo nunca visto por nenhum paleontólogo.
Estava bastante mesclado com a rocha, a uns dois metros e meio de altura. Fomos logo tratando de catalogar o descobrimento, tirando fotos e medindo as partes. Com dois metros e quarenta centímetros dos pés ao peito, suas costelas e a coluna vertebral eram exageradamente grossas para serem de um humano, mesmo ancestral. Sua cabeça não estava visível, apenas podia-se ver o corpo e os membros. Phil retirou umas amostras, colocando-as em um tubo de ensaio. Misturou com alguns materiais químicos e disse:
— Não pode ser! —olhava para um equipamento da universidade—. O fóssil tem menos de dois mil anos.
— Isso não tem nenhuma lógica!
— Mas Chuan, este equipamento é muito preciso.
— Não é possível que este ancestral tenha menos de dois mil anos. Julgando pela formação óssea, creio que poderíamos estar olhando para o mais antigo ancestral jamais encontrado.
— Exceto se esse esqueleto fossilizado não se tratasse de um humano. —Andrew lança um questionamento.
— Isso é fácil de analisar.
Phil recolheu outra amostra e fez um teste utilizando um pequeno aparelho. Conectou com seu computador portátil e pronto.
— Impressionante! Isto é incrível! —seus olhos brilhavam—. O DNA é humano, mas os cromossomos estão modificados. Nunca vi nada igual!
— Muito bem, pessoal! Podemos estar impressionados com esse achado, mas precisamos continuar. Talvez encontremos as respostas mais adentro — Stephany estava inquieta.
— Sugiro retornar com algumas amostras e enviar um relatório para a universidade em Oxford —segurava uma máscara de oxigênio—. Somos muitos aqui e creio que estamos colocando nossas vidas em perigo.
— Lisa tem toda razão! —Leona usa isso como a desculpa perfeita para retirar a todos daquele perigoso lugar—. Aqui quase não há oxigênio e somos muitos respirando o mesmo ar.
— Eu sei que estamos em um local de risco, mas não pretendo parar agora. Escolheremos alguns que retornarão para entrar em contato com a universidade —eles sabem que estão a poucos metros de algo incrível—. Julie, Simon, Lisa e Stephany, vocês devem retornar com um dos espeleologistas. Pode ser com Alberto —olhou para todos—. Mais alguém quer voltar?
Ninguém contestou e Alberto acompanhou o grupo em direção à saída. Leona começou a imaginar que essas informações, uma vez chegando em Oxford, poderiam cair em mãos erradas, especialmente nas mãos da agência de pesquisas na qual Marcela esteve metida no passado.
Phil resolveu continuar ali analisando o esqueleto e Chuan-Chuan designou a Jordi a tarefa de ajudar a ele no que fosse necessário. Os dois ficaram ali trabalhando por algum tempo, Jordi pareceu escutar algo movendo-se e levou um tremendo susto.
— Que estranho! Tive a nítida impressão de ver o fóssil movendo os braços — risos.
Seguimos adiante, uns setecentos metros e, de acordo com os cálculos de Miguel, estávamos a uns trezentos metros de desnível. Foi quando nos deparamos com um lindo salão de pedras coloridas, com um pouco mais de duzentos metros de largura, não acredito que fosse muito mais do que isso. Era majestoso, mas incrível mesmo foi descobrir que ali estava algo muito lindo. Caminhamos alguns metros e Miguel gritou de felicidade ao ver suas pernas entrando na água:
— Vejam isso! É um lençol freático.
— A água é tão cristalina que não consigo vê-la. —Andrew tenta alcançá-la com as mãos.
Miguel lança uma pedra ao lago subterrâneo; as ondas refletindo nossas luzes.
— É lindo! —Leona está impressionada.
— Olha ali em cima! —Miguel visualiza uma entrada na parede.
— O acesso parece difícil, mas podemos tentar —Chuan pegou o cilindro de oxigênio, procurou lugar para sentar-se e descansou por alguns minutos com a máscara no rosto.
— Você não se sente bem? —Miguel parece preocupado com a organizadora da expedição —. Talvez devêssemos retornar.
— Não! —Andrew estava nitidamente entusiasmado—. Deixaremos Chuan-Chuan aqui descansando com Leona enquanto tentamos alcançar a passagem subindo pelas rachaduras na parede.
— De forma alguma perderei isso! —vociferou Leona em tom amistoso—. Fica você aqui enquanto eu tento chegar do outro lado —risos.
— Muito bem! Afinal devemos ser cavalheiros, não é? E não acredito que seja muito perigoso, porque se cair da parede, no máximo levará um bom banho nesse lindo lago.
Miguel foi primeiro, facilmente superando o obstáculo. Caminhou pelas paredes segurando nas frestas até chegar do outro lado a uns noventa metros de distância. Leona seguiu o mesmo caminho e faltando uns poucos metros para chegar onde estava o espeleologista, começou a sentir-se estranha; algo não estava bem. Leona pareceu ter deixado seu corpo cair livremente em direção ao lago, ao mesmo tempo ouvindo lúgubres vozes a recitar desconhecidas palavras em dialeto chinês. Miguel viu Leona afundando no lago e desaparecendo. Era meio ilógico porque deveria ser possível ver seu corpo dentro da água, afinal a água era de uma transparência sem igual. O certo é que ele iluminava a área e não via absolutamente nada. Era uma queda de vinte metros e ele não pensou duas vezes, saltando em busca da jovem.
Nada! Não havia corpo, não havia nada.
— Não pode ser! Aqui não é tão fundo assim. Talvez ela esteja presa em alguma greta. —mergulhou novamente, ainda otimista.
Passados mais de dez minutos Miguel resolveu sair; a água estava muito fria.
— Não posso mais! Esta água está congelando meus ossos.
— Não posso acreditar! Leona, onde está você? —Chuan-Chuan gritou histérica; ecos no salão.
— Aqui!
Leona surge da água como se estivesse saindo de um mergulho. Tosse cuspindo água e estendendo seus braços para que Andrew pudesse retirá-la da água. Miguel estava todo molhado e tremendo muito. Aproximou-se do grupo dizendo:
— É hora de retornar.
Veio a noite e todos reuniram-se na sala; a lareira estava muito concorrida. Miguel era o chefe da equipe de segurança e relatava todo o ocorrido, enquanto todos ouviam em silêncio. Leona pediu a palavra para relembrar que o melhor era ter dado ouvidos à Lisa, retornando todos ao rancho. Ao final estavam todos, paleontólogos, arqueólogos e espeleologistas, brigando entre si, cada um tentando jogar a culpa no outro. Chuan-Chuan resolve tomar a palavra:
— Eu sou a chefe da equipe e assumo o erro. Deveríamos ter parado no lago e diante deste novo obstáculo, deveríamos haver retornado para analisar a situação. Amanhã prepararemos tudo para que não ocorra os mesmos erros de hoje —muda de assunto—. Simon, você conseguiu enviar os dados a Londres?
— Consegui! Parece que ficaram muito entusiasmados, porque estão enviando uma equipe de investigadores especialistas no assunto. Disseram que são americanos, franceses e ingleses. Uma agência internacional que pesquisa algo semelhante ao que encontramos.
— Não pode ser verdade! —Chuan ficou irada—. Nós somos os especialistas!
— Será que é o que eu estou pensando que é? —Phil percebe a trama.
— Exatamente isso, Phil. Uma intervenção do governo. O que acabamos de encontrar deve ser algo muito especial. Algo que querem guardar com muito segredo —Andrew demonstra que também tem cérebro.
— Vamos parar com divagações. Vocês acham que eles poderiam enviar homens do governo aqui, somente porque encontramos um fóssil? —parece querer centrar a reunião—. Por que não voltamos a discutir o que realmente interessa, ou seja, tratar de organizar tudo para amanhã?
— É verdade Chuan-Chuan, temos muito trabalho acumulado para amanhã. Seria melhor utilizar nossas últimas horas antes de dormir, para colocar em dia nossos relatórios —Julie apóia seu namorado.
— Muito bem, sigamos com isso —ela concorda, deixando no ar a sua preocupação. Leona permanecendo calada.
Mais três horas de discussão, cansados, um a um os cientistas retiram-se para seus aposentos. A chefe permanece fazendo seus últimos apontamentos. Leona observa prestativa, ajuda com um maldito programa de computador.
— Esse programa parece ser bom, mas tem cada canseira que me dá nos nervos!
— Calma Leona. Já estamos acabando.
— Chuan! —chama a atenção querendo dizer algo íntimo—. Terei que afastar-me do grupo para resolver problemas pessoais e não sei quanto tempo tardarei. Talvez um dia ou mais, o certo é que não posso adiar o inevitável.
— De que se trata Leona? Por acaso é algo relacionado com o que descobrimos hoje?
— Não! —responde assustada, logo dissimulando—. Quero dizer...
— Seja o que for é melhor que não me esconda nada.
— Chuan, eu não posso dizer nada agora. Contudo não quero abandonar o grupo sem avisar nada a ninguém. Respeito muito seu trabalho e sei que se existe alguma paleontóloga nesse mundo que merece meu respeito, essa paleontóloga é você.
— Bom, se é algo tão importante então siga em frente. Espero que seja algo que realmente mereça o esforço e que isso não prejudique sua especialização. A universidade está investindo muito em você.
Leona despede-se de Chuan-Chuan, abandonando o rancho. Coração de Lobo e Lixo Selvagem aguardavam do lado de fora, ocultos na noite.
— Por que demorou tanto? Não podemos perder tanto tempo!
— Fica calmo, Lixo. Ainda temos tempo para levá-la com segurança.
— Como assim com segurança? —Leona assusta-se.
— Não vai demorar muito para que este lugar esteja infestado pelos soldados enviados por Montanha de Fogo. Foi ele quem enviou aqueles impuros e não creio que enviaria somente dois. Precisamos ser rápidos, afinal ainda temos um longo percurso dentro da caverna. Caso apareça algum lacaio, eu e Lixo Selvagem estamos preparados para defendê-la.
— Por que não entramos direto ao centro da caverna, através do mundo espiritual?
— Ha, ha, ha! Não é tão simples quanto parece, Leona —Lixo Selvagem em gargalhadas.
— Infelizmente não pode ser assim. Esse local é um santuário. E a caverna é um portal que une o mundo dos espíritos com a energia telúrica.
— Eu sei! —Leona recorda de algo ocorrido.
— Sabe? —Lixo Selvagem, espantado questiona.
Caminham pela floresta, pisoteando a neve. Lixo Selvagem segue um pouco atrás, observando a retaguarda.
— Há um lago dentro dessa caverna e caí dentro dele acidentalmente. Por alguns instantes fui arremessada para outro lugar. Foi incrível porque ali estava meu pai, em uma tribo indígena no Amazonas. Estava tratando alguns índios feridos e meu pai havia salvado duas crianças que pareciam muito amedrontadas. Ele não estava na forma humana e não sei o porquê, mas o certo é que os índios não temiam a ele. Então o chefe da tribo aproximou-se e disse algo do tipo «Nossos filhos foram salvos por um deus! Temos uma dívida de gratidão.».
— Somos essas duas crianças, Leona!
— Eu sei! Agora sei a verdade!
Comentários
Postar um comentário