A Dimensão Espiritual da Guerra no Irã: Ormuz, Zoroastrismo e as Raízes Místicas do Conflito
A guerra no Irã continua a dominar as manchetes. Todo mundo fala do Estreito de Ormuz: geopolítica, petróleo, bloqueios, mísseis, análises estratégicas. Mas, no meio de tanto debate técnico, perdemos de vista o fundamento espiritual e místico por trás do conflito.
Ormuz não é apenas um nome geográfico. Ele carrega um peso cósmico que remonta a textos antigos como o Talmud e a Cabala.
Para compreender o verdadeiro significado dessa guerra, é preciso mergulhar no Zoroastrismo — a religião que moldou o Império Persa por milênios — e nas profundas conexões que ele mantém com o Judaísmo.
De onde vem o nome “Ormuz”?
O Estreito de Ormuz recebeu seu nome em
homenagem a Ahura Mazda (pronunciado de formas variadas como Hormuz ou Ormuz),
a principal divindade do Zoroastrismo, o deus da bondade, da luz e da criação.
Conhecer o Zoroastrismo é essencial para entender o significado cósmico do que
está acontecendo hoje no Irã.
Embora hoje existam apenas cerca de 120
mil zoroastristas praticantes no mundo, há 1.500 anos essa era a religião
oficial do Império Persa — desde os Aquemênidas, há 2.500 anos, até os
Sassânidas, época em que o Talmud foi redigido. O que quase destruiu o
Zoroastrismo foi a conquista árabe-muçulmana. Quando os muçulmanos invadiram e
colonizaram o Irã, impuseram o Islã. Os iranianos, porém, não são árabes. São
um povo de etnia própria, descendente dos antigos arianos (a própria palavra
“Irã” tem a mesma raiz que “ariano”). A maioria hoje é muçulmana, mas o Islã é
uma religião árabe trazida pelos conquistadores. Muitos zoroastristas foram
perseguidos e fugiram para a Índia, onde deram origem à comunidade dos Parsees
— entre eles, o mais famoso foi Freddie Mercury.
A luta de identidade no Irã de hoje
No Irã atual, há uma guerra interna
profunda: o que é o “verdadeiro Irã”? Um país muçulmano ou uma nação com rica
herança pré-islâmica zoroastriana? Existe um conflito entre a identidade antiga
— indo-europeia, ariana, zoroastriana — e a identidade imposta pelo
colonialismo árabe-islâmico. Isso se reflete na política: os apoiadores do
antigo Xá (expulso em 1979) tendem a ser mais seculares e buscam reviver
símbolos zoroastrianos, inclusive no pavilhão nacional. Os aiatolás removeram
esses símbolos. São duas energias opostas: a muçulmana versus a persa antiga.
O que é o Zoroastrismo e suas
semelhanças com o Judaísmo
O Zoroastrismo foi fundado por Zoroastro
(também chamado Zarathustra ou Zartosht). Pouco se sabe de concreto sobre ele —
muita lenda. Algumas tradições o colocam na época de Abraão; outras, por volta
de 1000 a.C. ou no século VI a.C.
Sua crença central é dualista: existe
Ahura Mazda, o deus bom e criador da luz, cujo símbolo é o fogo (daí os
“templos do fogo”). Seu arqui-inimigo é Ahriman (ou Angra Mainyu), o deus do
mal. Originalmente mais politeísta (com yazatas — bons espíritos — e daevas —
demônios), o Zoroastrismo foi se tornando mais monoteísta ao longo do tempo,
influenciado pelo Judaísmo, Cristianismo e até pelo Islã que o perseguiu.
O ensino central é o “caminho triplo”:
bons pensamentos, boas palavras e boas ações. Isso tem paralelos claros com o
Judaísmo. O profeta Miquéias (Tanakh) resume o que Deus quer: “praticar a
justiça, amar a bondade e andar humildemente com Deus”. A Mishná (Pirkei Avot)
afirma que o mundo se sustenta em três coisas: Torah, serviço divino e atos de
bondade. Há também semelhanças com o Hinduísmo (textos védicos e Avesta).
Segundo a tradição, Abraão enviou seus outros filhos para o oriente com
“presentes espirituais”, o que pode explicar a origem de várias tradições
orientais.
Quem veio primeiro: Judaísmo ou
Zoroastrismo?
Não existe evidência histórica ou
arqueológica de Zoroastrismo antes do século VI a.C. Jerusalém foi destruída em
586 a.C. (exílio babilônico). Setenta anos depois, Ciro, o Grande, conquistou a
Babilônia e permitiu que os judeus voltassem e reconstruíssem o Templo (é
mencionado no Tanakh como “Koresh”, chamado por Isaías de “Ungido de Deus”).
Ciro, porém, não era zoroastrista — invocava Marduk, deus babilônico.
O Zoroastrismo só se torna claro no
reinado de Artaxerxes (filho de Xerxes), que é o “Achashverosh” do Livro de
Ester (Purim). Ou seja: depois do exílio, depois da história de Mordechai e
Ester. Nessa época, o Império Persa tinha intenso contato com o Judaísmo.
Sinagogas surgiram no exílio (sem Templo). Os templos de fogo zoroastristas
parecem inspirados nesse modelo de “pequenos templos” de oração.
O símbolo principal do Zoroastrismo é o
Faravahar — um disco solar alado com figura humana. Esse símbolo já existia
antes, usado por assírios e egípcios. Na própria Judéia, o selo do rei Ezequias
(contemporâneo de Isaías) traz um disco solar alado, sem a figura humana, para
evitar idolatria. Tudo indica que o Judaísmo veio primeiro e o Zoroastrismo se
inspirou nele, misturando elementos judaicos com crenças antigas arianas/pagãs
para unificar o vasto império.
A própria história de Zoroastro parece
modelada na de Abraão: questiona a idolatria desde jovem, recebe revelação aos
30 anos, tem três esposas, planta uma árvore sagrada vinda do paraíso
(semelhante à “eshel” de Abraão).
Diferenças fundamentais
O Judaísmo não é dualista. Existe um só
Deus. “Eu formo a luz e crio as trevas, faço a paz e crio o mal — Eu, o Senhor,
faço todas estas coisas” (Isaías 45). Satanás não é um deus rival, mas apenas o
acusador celestial, sob controle divino. “Escuta, Israel, o Senhor é nosso
Deus, o Senhor é Um.”
Tanto no Zoroastrismo quanto no Judaísmo
tradicional antigo, o inferno não é eterno. No Zoroastrismo, no final dos dias
Ahura Mazda triunfará sobre Ahriman. Todos ressuscitarão. As almas pecadoras
passarão por purificação (fogo ou metal derretido) e, depois, o inferno
cessará, o mal será destruído e todas as almas serão retificadas.
No Judaísmo tradicional (Torah e
Mishná), o Gehinom dura no máximo 12 meses (Mishná Eduyot 2:10). O Zohar fala
em seis meses de fogo e seis de água. Depois, as almas vão para o Gan Eden. O
conceito de inferno eterno entrou em algumas correntes judaicas posteriores por
influência cristã e islâmica. Textos antigos não o conhecem.
Por que o inferno não pode ser eterno?
Se justos no Paraíso souberem que alguém sofre para sempre, o Paraíso será
imperfeito. Os justos não sentem prazer no sofrimento alheio. Abraão intercede
por Sodoma. Moisés diz: “Se vais apagar este povo, apaga-me também”. Deus
repreende Elias por falar mal de Israel. Deus é bom e compassivo. Um pecado
finito não pode merecer punição infinita. Deus sabia de antemão o que cada um
faria. No mundo vindouro, tudo será visto como para o bem.
Hormuz e Ahriman no Talmud
Tanto Hormuz quanto Ahriman aparecem no
Talmud. Em Sanhedrin, um mago zoroastrista diz a um rabino: “Do umbigo para
cima é a parte de Hormuz (boa, espiritual). Do umbigo para baixo é a parte de
Ahriman (má, material)”. O rabino responde: “Então como Hormuz permite que
Ahriman passe a urina? O corpo é um só, feito por um só Deus”. Rashi comenta de
forma surpreendente: identifica Ahura Mazda com o Santo Bendito e Ahriman como
um demônio, filho de Lilith.
Ashmedai, o rei dos demônios do Talmud
(história com Salomão), vem do persa Aeshma Daeva, um dos principais daevas
zoroastristas. Segundo Gershom Scholem, Ashmedai é o anjo guardião de Ismael —
ou seja, do mundo islâmico.
A dimensão cósmica do conflito atual
O conflito no Irã pode ser visto em
camadas espirituais:
- Superfície: óleo, estreito de Ormuz, armas nucleares.
- Mais fundo: luta entre a antiga identidade persa/zoroastriana (Hormuz/Ahura Mazda) e o Islã (Ashmedai).
- Mais profundo ainda: batalha cósmica entre luz e trevas, bem e mal.
O selo de Ezequias e o Faravahar
reforçam que muitos elementos simbólicos “zoroastristas” já existiam na cultura
judaica. Durante o período talmúdico (Império Sassânida), houve influência
mútua entre judeus e persas.
O que fazer espiritualmente?
O Ramchal (Rabino Moshe Chaim Luzzatto)
tem um discurso profundo sobre como retificar as forças de Hormuz e Ahriman —
as “guerras ao contrário” que precisamos travar para purificar essas energias.
O conflito no Estreito de Ormuz não é só sobre petróleo ou geopolítica. É uma
batalha cósmica que ecoa desde os tempos do Talmud e do Império Persa.
Compreender essa dimensão espiritual nos ajuda a ver além das manchetes e a
rezar, estudar e agir com a consciência de que a verdadeira vitória é a da luz
sobre as trevas, do bem sobre o mal, do Um Deus sobre todas as divisões.

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