Filosofando com Alice Bailey... Os doze Trabalhos de Hércules. A Captura das Éguas Devoradoras de Homens de Diomedes..

Filosofando com Alice Bailey... Os doze Trabalhos de Hércules. 

A Captura das Éguas Devoradoras de Homens de Diomedes.

Por Lúcio José Patrocínio Filho:.


É senso comum, especialmente no meio religioso, interpretar o sendeiro como um caminho de sofrimento, misérias, abnegações e sacrifícios inacabáveis, afinal, o que me foi contado é que para alcançar uma dada glória espiritual, o caminho deve ser de puro sofrimento. Mas esse não é mais que um caminho, o caminho do raio, aquele no qual o aspirante navega sem rumo, pelos sendeiros da Árvore da Vida, em movimento abrupto e desgovernado, ora da direita para a esquerda, ora de bombordo a estibordo, ora avança e ora retrocede, ora levanta e ora cai, de extremo a extremo, envergando-se pela escuridão de uma noite que é só minha, sem uma lanterna na proa, tal e como o balanço do mastro de um veleiro sob a tempestade e sobre as ondas, sem lucidez alguma e sem o conhecimento das coisas da alma. A espada flamejante simboliza claramente esse movimento típico de um aprendiz de feiticeiro, com uma iluminação dada por sua simbologia, que orienta o viajante a escapar da inércia da dualidade, quanto antes seja-lhe possível; é navegar por águas mais tranquilas e manter um caminho reto, consciente de que sou eu mesmo quem deve criar essas águas e decidir meu caminho, velejando com maestria e sobre as águas, com um azimute tomado em direção à luz do oriente e como um peixe que transcende para observar-se desde fora desse aquário oceânico que representa nosso mundo fenomênico. 
Tortuoso caminho no princípio, cada um inicia seu próprio bereshit, transmutando-se em maravilhas desde seu interior, sua Bet [ב], expelindo tudo o que é bom e também o malvado; é o caminho do raio, aquele fogo cintilante, que logo atroa, mas que pronto deve afunilar-se, tal e como vemos na forma da espada flamejante, abandonando o pêndulo dos tolos e aprumando-se, sem nunca deixar de pendular, porque a imobilidade é morte.

O caminho do sofrimento pode ser percorrido por aqueles que ainda estão presos pelas leis mais densas, como a lei da dualidade ou enredados nas raízes da Qliphoth, mas os lúcidos disfrutam de uma liberdade que os posiciona degraus acima, onde o sofrimento já não é opção evolutiva. Quanto maior o conhecimento, maior a amplitude de minhas escolhas e maior será minha independência e compromisso, quanto maior o meu poder, maiores serão as tentações para utilizá-lo para fins egoístas, quanto mais luz, maior será o castigo por abusar dessa luz; e essa gula pela iluminação, de não ser transcendida, de não ser convertida em caridade e misericórdia, desatará a soberba e cegará a alma do incauto, tal e como cegam-se os olhos daqueles que ao sair da caverna, olham diretamente para o sol do meio dia. Quanto mais sábio, mais fácil será o converter-se em demônio, caso caia. O pecado que é perdoável, quando cometido por uma criança, não o será, quando perpetrado pelo homem livre. Cada um cria seu próprio paraíso, assim como o próprio inferno; e o sofrimento consiste nisso, portanto devo ter cuidado com o que crio em minha mente. O adorador de sombras é como um escravo, que sofre por toda uma vida, acorrentado, observando sombras no fundo da caverna de Platão. ¿Como poderíamos forçá-lo a sair das trevas e ainda querer que de pronto acostume-se com a luz da fogueira? E ainda mais insensato seria levá-lo para fora e querer que seus olhos, de súbito, acostumem-se com a luz do sol no exterior da caverna. É como uma espécie de iniciação, onde o escravo alcançará uma dada liberdade e não tolerará um retorno à escuridão, não mais conseguirá saciar-se a mente e a alma, apenas com as sombras projetadas no fundo da caverna, pois agora ele é Hércules, o encarnado e ainda não aperfeiçoado filho de D’us, o qual, com determinação, toma o controle de sua natureza inferior e voluntariamente a sujeita à disciplina no sendeiro do iniciado, no intuito de alcançar um dado estado de autoconsciência ou divindade, no qual o homem conhece plenamente a si mesmo, algo como se em todos os momentos de sua vida fosse possível estar observando-se constantemente no espelho e enxergando não só os aspectos de sua natureza inferior, mas também os de sua natureza superior, permitindo que a vontade da alma ou seja, a vontade do Criador, prevaleça sobre sua natureza inferior. É um processo de expansão da alma, como se de súbito seu ser se tornasse do tamanho de uma galáxia, e enquanto se expande torna-se mais perceptível ao indivíduo e reforça a conexão com sua natureza inferior, permitindo-lhe ampliar a percepção de si mesmo e entrar em harmonia com tudo o que lhe rodeia; e de súbito, tudo torna-se lindo, como uma metafísica do belo. É algo como um alquimista, o qual dissolve as impurezas para encontrar o ouro verdadeiro; ou um pedreiro, o qual lapida uma pedra bruta para conseguir dar-lhe uma forma cúbica, para assim poder utilizá-la na construção do templo. É a realização da tão citada Grande Obra, aqui representada pelos doze trabalhos de Hércules.

Quando observo a natureza, percebo que suas formas não foram concebidas ao acaso, mas sim obedecem um padrão cósmico e universal, uma proporção áurea, um fluxo de energias invisíveis que não pertencem ao mundo dos fenômenos, mas que nele exerce influência. Tudo o que podemos tocar neste mundo está repleto de simbologia divina, de energias que revelam uma realidade interior e espiritual. É a razão pela qual posso afirmar que as pessoas que vivem em meio à natureza estão mais conectadas com o mundo espiritual, como uma simbiose entre o exterior e o interior, o mesmo intercâmbio de energias vivenciado por Hércules. Ele sabia que seu corpo simbolizava a natureza material e também era consciente de que dentro desse corpo ele teria que expressar sua energia espiritual, sua divindade oculta e realizar os doze trabalhos de tal forma que ao final teria uma montanha de egos ao seu lado, contudo seria ele o comandante sobre todos eles e não o contrário. 

“Eu sou o Eu sou”. Esse é o mantra hermético que desperta o iniciado e o impele a encontrar a inteligência do símbolo, que ao fim e ao cabo é ele mesmo refletido nesse símbolo que por si só nada contém. Por meio do autoconhecimento o iniciado descobre que a divindade cósmica e universal é a mesma que se manifesta dentro de si mesmo e esta descoberta só será possível por meio da lucidez alcançada com a realização dos trabalhos, uma lucidez que o permitirá tornar-se uma espécie de espectador de si mesmo, um observador ou aquele que percebe as manifestações, tanto microcósmicas, quanto macrocósmicas e utiliza essa percepção para elevar-se e para elevar o mundo fenomênico. É como o Nível utilizado pelos construtores para medir a inclinação de uma edificação, de um lado tem-se os hábitos, atentando para que se identifique com a matéria e do outro lado está a alma, deixando-o livre para escolher seu caminho, e o mais interessante é que a alma sempre esteve ali a seu lado, ele só não a percebia, pois era incapaz de compreendê-la. Hércules realizou os trabalhos e com isso descobriu o brilho e o esplendor de sua alma. Conduzido pela glória de Hera, empreendeu os doze trabalhos como um adepto que busca a verdade, enquanto caminha pelo sendeiro do meio, sem deixar-se desviar pelas forças da natureza, até que finalmente desprendeu-se da mãe-matéria para responder ao amor do pai-espírito, alcançando assim o esplendor e sendo levado com os deuses.

Matéria, ilusão e sabedoria. Estas são as três serpentes que podem ser igualadas às três colunas da Arte Real (Força, Beleza e Sabedoria); aos três princípios da Alquimia (Enxofre, Sal e Mercúrio); aos três Gunas da filosofia de Samkhya (Atividade, Passividade e Equilíbrio); às três letras mãe do alfabeto hebraico (Shin, Mem e Alef); que por sua vez correspondem aos três elementos aristotélicos (Fogo, Água e Ar); aos três principais Nadis da Yoga (Ida, Pingala e Sushumna); ao símbolo hermético do Caduceu com as duas serpentes simbolizando as colunas da misericórdia e da severidade e tendo ao centro a coluna do meio; às três forças cabalísticas (OD, OB e AUR)[1], que simbolizam o fogo da Magia Branca, o fogo da Magia Negra e a Luz equilibrada do meio-dia, assim como são representadas as três formas do Kundalini ou Luz Astral; à natureza física, emocional e mental do homem. Logo há uma quarta coluna. ¡Oh meu D’us, que horror! Sim, há uma quarta coluna! Todos sabemos que para que uma construção seja perfeita são necessárias quatro colunas, mas esta última é de natureza espiritual e está localizada na mais profunda escuridão e por isso não a vemos, mas a Cidade Celestial, com sua simbologia cúbica, relembra-nos a todo instante de sua existência e verdade. Hércules sabia que para alcançar a serpente da sabedoria, primeiro precisaria matar as serpentes da matéria e da ilusão, e para isso teria que iluminar seus pensamentos, aprendendo a utilizar sua mente, tomando o controle de suas emoções e preparando seu corpo para albergar adequadamente sua alma. Dito isso, fica clara a necessidade de uma construção equilibrada, como se de um triângulo equilátero tratasse; corpo, razão e emoção equilibrados na construção da cidade quadrangular para albergar a alma. 

As éguas devoradoras de homens colocaram em xeque o poder do pensamento de Hércules. Todo pensamento gera um sentimento, todo sentimento gera uma emoção, toda emoção gera uma energia e essa energia afeta o exterior e o interior, o inferior e o superior, gerando ações e reações que se convertem em hábitos e que por sua vez tornam-se movimentos cíclicos, que geram mais pensamentos equivocados, verdadeiras éguas que devoram e aprisionam a mente, alterando nossos destinos. Hércules sabia que a glória não estava apenas em controlar seus pensamentos, mas sim em ensinar a todos como fazê-lo, pois todos realizam o trabalho de domar suas próprias éguas, controlar seus pensamentos, seus desejos. Por isso a parábola utiliza uma égua e não um cavalo, porque o trabalho consiste em compreender como funciona esse aspecto cabalístico-feminino da mente, pois está ligado à maldade, à inveja, à ira, ao egoísmo, tal e como faz a lua ao receber toda a luz do sol e refletir apenas uma ínfima porção de todo o esplendor para iluminar as trevas aqui na Terra. O trabalho consistia em um treinamento mental para que Hércules aprendesse a utilizar sua espada a serviço da alma, porque uma mente perturbada não consegue controlar suas palavras. Quando se está com a cabeça sendo devorada por dentro, por pensamentos enlouquecidos e emocionados, o primeiro que se perde é o controle da língua; esta é a verdadeira espada bíblica, tal e como o presente de Mercúrio a Hércules, uma espada, como símbolo da mente que se divide em duas partes pela espada de Mercúrio, que ilumina a mente e intermedia entre a alma e a personalidade. 

Jean Baptiste Marie Pierre - Diomedes King of Thrace Killed by Hercules and Devoured by his own Horses, 1752
Jean Baptiste Marie Pierre
Diomedes King of Thrace Killed by Hercules and Devoured by his own Horses, 1752.



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© Lúcio José Patrocínio Filho.

  [1] . Aur, do hebraico אור, que significa “luz”, é uma das três formas do fogo na filosofia mágica. É simbolizado pela luz do sol no plano físico e pela luz espiritual ou iluminação no plano espiritual. É representada como a mais elevada forma de luz que equilibra as outras duas formas de luz, denominadas OB e OD, as quais são respectivamente negativa e positiva, morte ou vida, magias negra ou branca. Ocasionalmente pode ser soletrada “or” ou “aor”. (Greer, John Michael. The New Encyclopedia of the Occult. St. Paul. MN. Llewellyn Worldwide. 2005. p. 51).

. Ob, do hebraico אֵט, que significa “bruxo”, é uma das três formas do fogo na filosofia mágica. É associado com o magnetismo e a eletricidade no plano físico, com o negativo e a forma magnética do fogo sutil no plano espiritual. Algumas fontes associam esse fogo como a magia negra, necromância e morte. (ibid, p. 337).

. Od, do hebraico אוּר, que significa “fogo”, é uma das três formas do fogo na filosofia mágica. É associado com o fogo ordinário do plano físico e com o positivo, forma elétrica do fogo sutil no plano espiritual. Algumas fontes associam essa forma com o fogo da magia branca, cura e vida. (ibid, p. 339-340. Riland, George.The New Steinerbooks Dictionary of Paranormal.

Bibliografia:

A. Bailey, AliceOs 12 trabalhos de Hércules.
_O ocultismo do livro de Jó.

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