Filosofando sobre... Nemrod.

Babel


Em 1 Crônicas 1:10, Nemrod (em hebraico: נִמֹרד בן-כּוּש, Nimrõd ben Etiópia) é o filho de Cuxe, neto de Cam e bisneto de Noé, e em Gênesis 10:8 comprova seu poder. Em Gênesis 10:9 está dito que Nemrod foi poderoso caçador diante da face do Senhor.
Jorge Elías Adoum, em seu livro “Cosmogênese”, deixou cair algumas migalhas de pão pelo caminho, indicando como entender os significados da palavra “Nemrod” e sua simbologia enquanto objeto de transcendência. Assim disse:
“Enquanto isso, os reis pastores ou Hicsos, que vinham da Arábia com seu exército, conquistaram a Ásia Menor, “mas nunca puderam submeter os Celtas ou antigas colônias brancas, as quais preferiram exiliar-se ou expatriar-se, a sofrer o domínio ioniano”. Uns penetraram no deserto e converteram-se em errantes “badhones ou beduínos”, enquanto outros passaram ao Egito e à Etiópia. Moisés deu à essa massa humana cruel e déspota, o nome de Nemrod, que significa o reino do adversário de Jeová ou a encarnação terrenal de Satã.”
Neste trecho Adoum revela o caráter rebelde dos Nemrod, que preferem viver uma vida nômade, a serem subjugados. O termo “beduíno” ganha força como símbolo de rebeldia, de um povo que não se submete às leis de nenhuma nação e vive uma vida nômade, livre, ou de um povo que foge de algo ruim, algo como uma maldição. O pecado de Cam – o de ver a nudez de seu pai – caiu como uma maldição à sua linhagem e quiçá por isso Nemrod legou essa maldição que o impulsionou a atos de rebeldia e de busca pela liberdade, pois tal maldição estava ligada a conceitos de escravidão.
Em seu livro, “O Gêneses reconstruído”, Adoum revela que a rebeldia de Nemrod concede-lhe um poder; e esse poder é alimentado pelo desejo de liberdade:
“8- E Cuxe engendrou a Nemrod; este começou a ser poderoso na terra.” “9- E foi forçudo caçador diante do senhor. Pelo qual saiu o provérbio: Forçudo caçador diante do senhor como Nemrod.”
Em seu livro, “O Povo das Mil e Uma Noites”, Adoum expõe as controvérsias sobre a formação dos árabes pré-históricos do primeiro período e, finalmente, expõe a trajetória até Babel, nas falas de Ibn Khaldun:
““Essa raça tinha reis e reinos na Ilha Arábica”; “...os Malique dominaram a Mesopotâmia”; “Denominavam-se Aad-Aram, mas quando estes extinguiram-se, chamaram-se Zamud Aram, e em seguida, Nemrod Aram”. Quando estes desapareceram, foram chamados de “Os demais filhos de Aram Aranan”.”
Adoum afirmou então que “os árabes pré-históricos descendentes de Aram ficaram conhecidos como Arameus e não mais como Malique, e foram os filhos de Lud que dominaram Babel”.
Em seu artigo, “Saberes translatícios”, Javier Alvarado disse que, “seguindo o relato bíblico, Josefo explica que o Dilúvio sucedeu quando os homens estavam “poderosamente dominados pelo prazer dos vícios”; e que “a atitude soberbia da humanidade e do rei Nemrod levou a “enfrentar-se a D’us”, se desejasse voltar a inundar a terra”, pois segundo dizia aos seus, “edificaria uma torre mais alta do que poderiam subir as águas””. Nemrod converte-se então em um símbolo do impulso interior pela busca da liberdade, mas exagera ao pretender libertar-se de D’us ou seja, “o homem busca sua liberdade a todo instante, mas sempre será escravo de D’us”, e essa é a premissa a qual Nemrod dispõe-se a derrubar, afirmando poder ser livre até mesmo do Criador ao ousar construir a Torre de Babel para escapar dos castigos de D’us – dos dilúvios.
Assíria é o país de Nemrod, equivalente a “Baco”, deus dos bebedores, aquele que levava o copo e estava sentado sobre uma pipa, e de seus ombros pendia-lhe uma pele de leopardo, a qual utilizava como acessório ritualístico nos Mistérios. Em um ensaio etimológico, Blavatsky afirma que “Nemrod (da raiz nimr), significa salpicado, o que em algumas passagens bíblicas, como em Apocalipse 19:13, sugere como sendo salpicado de sangue. Nemrod é o “esforçado caçador” assírio dos tempos do faraó Sesostris, mas segundo Heródoto não era este seu nome verdadeiro, mas sim uma corrupção grega do nome Senurset, que o nome Nemrod assemelhava-se foneticamente com a última parte do nome Senusret, e que a interpretação hebraica pode ser uma corrupção da egípcia, ainda assim, Sesostris já é uma corrupção grega. O sacerdote egípcio Mâneton de Sebenitos, que viveu durante a era ptolemaica, séc. III a.C., descreve que Sesostris consultou o oráculo:
– Diga-me, ¡Oh poderoso no fogo! ¿Quem antes de mim, subjugou todas as coisas e quem as subjugará depois de mim?
E o oráculo respondeu:
– Primeiro D’us; logo o Verbo, e depois o Espírito.”
Blavatsky segue, dizendo que “evidencia assim o motivo do ódio com que desde os inícios os teólogos cristãos apontaram aos teurgos e pagãos, pois todos os seus dogmas derivam das antigas religiões e da escola neoplatônica, a tal ponto que por séculos persistiu nessa tecla a crítica. Não houvessem sido esquecidas de súbito as antigas crenças, certamente seria impossível conceder à religião cristã o caráter de nova Lei revelada pelo Pai, mediante o Filho e ao influxo do Espírito Santo.” Em outras palavras, Blavatsky afirma que a trindade não é fruto do advento de Cristo, mas sim um conceito que já estava presente nas antigas religiões anteriores ao cristianismo, portanto Nemrod estava caído em soberbia e, por mais que buscasse uma dada libertação divina, nunca a alcançaria.
Ainda flertando com Blavatsky, ainda que muitos filósofos posicionem seus escritos na estante das teologias ultrapassadas ou superadas, ela disse que “o dilúvio aparece relatado no Mahabharata (um clássico épico indiano, escrito em sânscrito e considerado o texto sagrado mais relevante no hinduísmo), nos Puranas e no Satapatha Brahmana (um dos Brahmanas posteriores), pelo que é possível que Moisés, ou quem fosse o autor do Pentateuco, tenha-se aproveitado destas tradições para compor suas alegorias, parafraseando-as de propósito, acrescentando a narração caldeia de Beroso. Portanto o Nemrod bíblico seria o rei Daytha do Mahabharata, aquele que lança maldições contra a tempestade e ameaça conquistar o céu com seus poderosos guerreiros, atraindo sobre a linhagem humana a cólera de Brahma, quem, como disse o texto, “resolveu-se então a infligir tão terrível castigo a suas criaturas, que servisse de escarneamento aos sobreviventes e à sua linhagem”.” Ou seja que, baseando-se nestes estudos e em muitos outros, muito do que está escrito na bíblia, nada mais é que um reescrever de histórias anteriores, adaptações de histórias provindas de outras culturas e religiões, e que de uma maneira ou outra acabaram sendo aproveitadas e reformuladas para serem melhor entendidas em um dado momento histórico.
Blavatsky continua descrevendo o que sabe sobre Nemrod, ao afirmar em seu livro, titulado Isis sem Véu, que: “esta doutrina cabalística está mais definitivamente exposta no “O Livro de Yashar”” – mais precisamente no capítulo Sem –, onde explica o destino dado à túnica de pele:
24 E as vestimentas de pele, as quais o Todo-poderoso fez a Adão e à sua esposa, quando saíram do jardim, foram dadas a Cuxe. 25 Porque depois da morte de Adão e sua esposa, as vestimentas foram dadas a Enoch, o filho de Jarede, e quando Enoch foi levado ao alto a Elohim, deu tais vestimentas a Matusalém, seu filho. 26 E na morte de Matusalém, Noé as tomou e as trouxe dentro da arca, e permaneceram com ele até que saíram da arca. 27 E em sua saída, Cam roubou as vestimentas de Noé, seu pai, e levou-as e escondeu-as de seus irmãos. 28 E quando Cam teve seu primogênito Cuxe, deu-lhe as vestimentas em segredo, e permaneceram com Cuxe muitos dias.
Acrescentando o dito pela autora, no “O Livro de Yashar”, no capítulo Nemrod, segue explicando que:
“29 E Cuxe também escondeu de seus filhos e irmãos as vestimentas de pele, e quando Cuxe teve a Nemrod, deu-lhe as vestimentas por seu amor por ele, e Nemrod cresceu e quando completou 20 anos ele colocou as vestimentas de pele. 30 E Nemrod fortaleceu-se quando colocou tais vestimentas, e o Todo-poderoso deu-lhe poder e fortaleza, e ele era um caçador poderoso na terra, sim, ele era um caçador poderoso no campo, e ele caçava os animais e edificava altares, e oferecia sobre eles os animais diante de YAHWEH. 31 E Nemrod fortaleceu-se, e ele levantou-se dentre seus irmãos, e ele lutou as batalhas de seus irmãos contra todos os seus inimigos ao redor. 32 E YAHWEH entregou todos os inimigos de seus irmãos em suas mãos, e o Todo-poderoso prosperou-lhe de tempo em tempo em suas batalhas, e ele reinou sobre a terra. 33 Portanto, fez-se costume nesses dias, quando um homem guiava aqueles que ele havia treinado para a batalha, ele dizia-lhes: Como o Todo-poderoso fez a Nemrod, o qual era caçador poderoso sobre a terra, e o qual tinha êxito nas batalhas que prevaleciam contra seus irmãos, e ele libertava-os das mãos de seus inimigos, que o Todo-poderoso fortaleça-nos e libere-nos neste dia...”
Blavatsky explica que “como Noé e seus filhos salvaram-se do dilúvio, conclui-se que o primeiro pertencia à uma raça espiritual antediluviana, escolhido entre todos os homens por sua pureza, enquanto que seus descendentes foram pós-diluvianos. As vestimentas de pele que Noé levou na arca em segredo, foram transmitidas a Nemrod, momento em que a matéria contaminou sua natureza espiritual.” Tal pele de Leopardo representa então um fetiche, um objeto com uma dada energia espiritual guardada em seu interior, um poder que não deveria ter sobrevivido ao dilúvio, e que graças aos defeitos de Noé, por guardá-la na arca, e de Cam, por roubá-la – perceba-se que em ambos casos são fruto do ego –, acabou transmitida a Nemrod, o qual desfrutou de um poder pré-diluviano.
Em seu livro titulado “A Cabala”, Papus disse que: “para Moisés, a perda da unidade primordial e o desmembramento da Sabedoria patriarcal estão indicados sob o nome de divisão das línguas e da Era de Nemrod”. Desse poder herdado de seus antepassados resultou a ousadia de Nemrod em construir a Torre de Babel para escapar dos castigos divinos, finalmente culminando na ira de D’us.
Aquele que busca no conhecimento a verdade, edifica em si mesmo seu Templo interno. Contudo, caso acabe vestindo-se o manto de pele de leopardo, o manto de Adão, fará de seu Templo uma Babel, e todo o seu conhecimento fragmentar-se-á como um diamante ao cair sobre uma pedra, convertendo-o em um louco. Realizar a Grande Obra permite dar forma ao Templo interior, para que nele ocorra a expansão da alma e assim possa receber as carícias das energias divinas. Ousar avançar-se sobre este poder é como desafiar o Criador, e as consequências estão explicadas na parábola de Babel. ∆
Bibliografia:
ALVARADO PLANAS, JAVIER, UNED, Artigo da GLOSSAE. European Journal of Legal History 10 (2013): Saberes translaticios: la leyenda de las dos columnas prediluviales.
AUTOR DESCONHECIDO, O Livro de Yasher.
ADOUM, JORGE, Cosmogêneses. — O Gêneses reconstruído. — O Povo das Mil e Uma Noites.
LOUREIRO NEVES, ORLANDO, Dicionário do nome das coisas, 2003.
PETROVNA Blavatsky, Helena - Isis sin velo, 1877.

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