Segredos do Êxodo [2]. A Cidade do Ouro e da Luz.

Segredos do Êxodo [2]. 

A Cidade do Ouro e da Luz 

Por Sabbah, Roger.

Tradução: Lúcio José Patrocínio Filho:.

Publicação autorizada pelo escritor.


ÍNDICE


No Egito de 1350 a.C. existiu uma “cidade do ouro e da luz”. Aquetaton, a capital do império Egípcio, foi considerada a cidade mais bonita do mundo. Era a cidade sagrada de Aquenáton e sua rainha Nefertiti, uma cidade de palácios, templos e obeliscos cobertos de ouro que se perdiam no horizonte. Tinha jardins luxuosos e uma longa avenida real que se estendia por quatro quilômetros. Uma ponte real cruzava essa avenida. A arte, a beleza e o refinamento de Aquetaton refletia o esplendor da civilização egípcia. As mulheres mais bonitas do Egito, assim como várias princesas Canaanitas, Fenícias, Hititas, Midianitas, Núbias e Babilônicas foram convidadas a habitar esse paraíso na terra.


Havia bairros inteiros de becos, onde todas as classes de pessoas esfregavam-se os ombros: sacerdotes, empresários, vinicultores e padeiros, que haviam vindo de todos os cantos do mundo conhecido. Havia também um grande grupo de artesãos, artistas e intelectuais: escultores, gravadores, ourives, pintores, pedreiros, embalsamadores médicos, arquitetos, empreiteiros, topógrafos, escribas e contadores. Haviam muitas pessoas empregadas para cuidar dos palácios reais e dos templos do deus Áton. Toda essa população participou das atividades da cidade sagrada, na qual abundava a vida.


Todas essas pessoas haviam recebido do Faraó o imenso privilégio de migrar com suas famílias para viver nesta cidade sagrada, a Cidade Santa do Deus Áton. Por ordem do Faraó, eles converteram-se à nova religião, o novo culto do deus único, ao monoteísmo. Aqueles que encontraram favor aos olhos do faraó Aquenáton ou da rainha Nefertiti aguardavam a imensa honra de serem enterrados na necrópole situada na periferia da cidade, dentro do território sagrado de Aquetaton.



A cidade foi delimitada por estelas da fronteira, e pela segunda vez na história egípcia, Aquenáton havia estabelecido uma diferença entre uma região designada como "sagrada" e o resto do Egito. Sua primeira tentativa foi construir um local sagrado no centro do santuário do deus Amon em Karnak, com templos semelhantes aos que ele mais tarde construiu em Aquetaton. O problema era que o Deus Único, Áton, estaria na companhia do Rei dos Deuses, Amon. Naquele primeiro momento em seu reinado, o faraó apresentou seu primeiro nome real, Amenófis IV (que significa "Amon está em paz"), mais tarde conhecido em grego como Amenófis IV. No quinto ano de seu reinado, ele mudou seu nome para Aquenáton ("a graça, a luz, usada por Áton").


Do ponto de vista do antigo politeísmo, Aquenáton era um herege. Ele abandonou os deuses de seu pai Amenófis III e abraçou o conceito da existência de um Deus único, Áton. Áton foi visto como o deus criador do universo, e foi representado pelo disco solar, o qual estendeu seus raios sobre todas as criaturas terrestres.


Amenófis III construiu uma cidade chamada Malkata, a qual contém o palácio real e os edifícios administrativos. Imitando seu pai, Aquenáton decidiu construir uma nova capital para o Egito, desde a qual dirigiria os assuntos de estado. Na nova ordem, o clero politeísta de Amon seria excluído do poder. Aquenáton abandonou a terra sagrada de Karnak, o centro religioso da antiga religião do Egito, e estabeleceu sua nova "Terra Santa", Aquetaton. Estava localizada na margem oeste do Nilo, a meio caminho entre Memphis, ao norte e Tebas, ao sul, em um local mais tarde chamado de Tell el-Amarna.


O faraó proclamou que ele havia sido levado à essa nova região pelo próprio deus Áton, com a promessa eterna de vida e prosperidade para ele e seus descendentes. Quando Aquenáton chegou ao local, ele fez, como fez Abraão na Bíblia, um sacrifício em homenagem ao seu Deus, no próprio lugar onde mais tarde construiu o grande templo de Áton. Após esses atos, os quais foram confirmados por egiptólogos, o faraó decidiu o local de construção de sua Corte. Ele declarou que Deus havia guiado seus passos para a terra sagrada de Aquetaton para que os templos fossem construídos para sua adoração. Ele prometeu que essa terra seria a capital do Egito para sempre.


Todas as riquezas do país fluíram para Aquetaton. A comida sagrada foi oferecida ao deus Áton antes de ser consumida. O pão consagrado e o vinho foram oferecidos em abundância. Os animais aprovados foram consagrados nos templos de Atonianos e redistribuídos em todo o país, tal e como aconteceu séculos mais tarde no Templo de Salomão.


Aquenáton instituiu orações da manhã e da tarde, ao nascer e ao pôr do sol, glorificando assim o surgimento e o desaparecimento do disco solar Áton. Os hinos para a glória de Deus, recitados e cantados nos templos, são a origem dos salmos e orações posteriores. Em sua capital, assim como em todo o Egito, Aquenáton foi adorado como Áton. Ele foi proclamado o "Filho de Áton", mas na mente egípcia, essa frase não excluiu que ele fosse o próprio Áton. Dentro de seu cartucho real, o nome "Áton" apareceu em tradução como "Aquele que agradou a Áton". Sua esposa também mudou seu nome original e tornou-se Nefertiti, "perfeita é a beleza de Áton". Instalado na capital, Aquenáton reinou como mestre absoluto da cidade e de todo o Egito, distribuindo tarefas e funções aos seus íntimos.


Ardentemente desejando instituir uma religião universal, o Faraó tinha templos construídos para a glória de Áton em todo o Egito. As expressões "para sempre" e "eternamente" ocorrem regularmente nos hinos. Essas proclamações e declarações foram escritas pelo próprio Aquenáton, e ensinou-as a seus discípulos e seguidores.


Se os acontecimentos se desenvolvessem conforme o planejado pelo rei e a rainha, a religião de Áton teria sido espalhada por todo o Egito desde a capital Aquetaton, o lugar sagrado da nova crença. O faraó era, acima de tudo, um professor. Ele difundiu seu conhecimento para os milhares de sacerdotes que moravam na capital. Eles tiveram a tarefa de propagar a nova religião em todo o Egito, em nome do novo deus Áton e de seu representante supremo, Aquenáton.


Aquenáton insistiu particularmente em seu papel de professor no âmbito sagrado, o que o tornou um professor espiritual. Vários textos indicam que Aquenáton conversou diariamente com seus discípulos a quem ele tentou dar a conhecer a natureza de Áton. Aquenáton também possuía o título "Aquele que vê o Grande Deus". Como sumo sacerdote da nova religião, ele era o único intermediário entre Deus e o povo, o único com o poder para apresentar a grande oferta no Templo de Áton. Mas, mesmo como sumo sacerdote, ele não poderia apresentar a grande oferta sozinho. Esse ritual exigia a presença do faraó e da sua rainha.


Esta forma primordial de monoteísmo foi a base para o que hoje é conhecido por "valores da família". A pesquisa realizada em Tell el-Amarna (Aquetaton) conta-nos muito sobre as práticas de culto nas casas das pessoas. Cada casa da cidade tinha um altar de pedra, inscrito em dois lados. Cyril Aldred descreve o seguinte: "Todas as casas desse tipo tinham um traço semelhante. Eles tinham um santuário colocado em um dos quartos principais. Tinha a forma de uma porta falsa com postes vermelhos pintados e um nicho para receber uma estela, retratando a família real envolvida em atividades de culto."


Como conexão com a história do Êxodo Bíblico, os postes vermelhos são uma lembrança do sangue dos hebreus, relatados como pintura nas portas das casas.


E passará o Eterno (Javé) para ferir os egípcios; e verá o sangue sobre a verga e sobre os dois umbrais e saltará o Eterno sobre a porta e não deixará o destruidor entrar em vossas casas, para ferir. (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer”, Êxodo 12:23).


Em sua devoção à nova religião do monoteísmo, Aquenáton apagou dos templos e dos obeliscos os nomes de Amon. Forçando ainda mais sua heresia, profanou o nome de Amon dentro do cartucho de seu pai, Amenófis III e por suprimir o nome de um deus, foi considerado pelos habitantes do Antigo Egito como um verdadeiro sacrílego. Os monoteístas bíblicos ecoam isso nas palavras de seu Deus único: "Eu apagarei completamente o nome de Amalek de debaixo do céu".


Ao remover o nome de Amon, Aquenáton estava suprimindo a existência desse deus. Ele passou a ter as estátuas e os objetos do culto paterno, quebrados. Aquenáton havia cometido um sacrilégio, ato nunca antes cometido no Antigo Egito. Na tradição bíblica, Abraão também quebrou os ídolos de seu pai.


Aquenáton era um faraó poderoso e místico. Toda a nação prostrou-se diante dele. Reis de outras terras chegaram a prestar-lhe tributo em sua capital e prestar-lhe homenagem. Ele era a Glória de Áton, e desfilou por toda a extensão da estrada real de Aquetaton, acompanhado por Nefertiti, em sua carruagem de ouro e prata, indo para o grande templo de Áton.


O faraó adorou aparecer na companhia de sua esposa na sacada do palácio. Era lá onde aparecia para as pessoas. E, tal e como fez o Moisés bíblico, levantou diante do povo as duas tábuas de pedra onde os dois cartuchos do nome de Áton estavam inscritos. As pessoas se prostraram diante do nome de Deus. Estas tábuas, inscritas em ambos lados, podem ser lidas por ambos lados. A semelhança com as tábuas bíblicas de Moisés é digna do comentário. Ambos foram arredondados no perímetro com a escrita em ambos os lados.


E virou-se, e desceu Moisés do monte, e as duas tábuas do Testemunho estavam na sua mão, tábuas que estavam escritas em seus dois lados, de ambos os lados elas estavam escritas. (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer, Êxodo 32: 15).



Como mencionado anteriormente, a nova religião enfatizou a família. Aquenáton agradeceu particularmente a companhia de suas seis filhas e sua esposa, dando às pessoas uma imagem de um casal feliz. Em muitos lares os habitantes mantiveram uma efígie da família real atendida pelo Deus Sol, Áton. A união sagrada tornou-se parte do culto da nova religião. Ele fundiu as pessoas na família real, de modo que o nascimento de um modelo social baseado na partilha de valores familiares pode ser visto nesta imagem.


Este modelo social é ainda mais visível nas casas nos arredores de Aquetaton. Cada casa foi construída ao longo do mesmo plano – um excelente exemplo de planejamento social. Havia uma sala de estar onde o culto do faraó poderia ser praticado, além de quartos, lavabos e banheiros.


Tudo estava planejado naquela incrível capital, onde era possível contemplar a Deus todos os dias. O que os habitantes não podiam saber era que simplesmente vivendo na Cidade Sagrada estavam jogando um dos maiores dramas da história egípcia, um drama com consequências para toda a humanidade há mais de três mil anos.


A maioria dos faraós foi representada em posturas evocando poder e rigor. Aquenáton é mostrado como o faraó relaxado. O escultor real o representa com pescoço alongado e olhos meditativos, uma nova visão artística para o Egito, provavelmente imposta pelo próprio Aquenáton. Nunca houve um faraó como ele, antes ou depois.


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No décimo sétimo ano de seu reinado, o faraó Aquenáton morreu e foi enterrado no túmulo real no vale (wadi) localizado na extensão do eixo do Grande Templo de Áton.


O túmulo deve ter abrigado ainda mais riquezas do que o de Tutancâmon. Deve ter contido uma arca (sem o deus Anúbis representado nele), um altar funerário, alguns "santuários" interligados entre si e as "tábuas" com o nome de Áton em dois cartuchos. O Deus dos Mortos, Osíris, certamente não teria sido representado, mas o faraó teria cruzado os braços na "posição de Osíris", segurando o cetro real na mão direita e o chicote na esquerda. A deusa Hator não teria aparecido como ela mesma, mas como a efígie de Nefertiti.


O faraó Semencaré, o sucessor de Aquenáton, reinou por apenas dois anos, em um período histórico nebuloso, antes de morrer aos vinte e cinco anos. A causa de sua morte é desconhecida. O assassinato é uma opção, particularmente com a política religiosa da época. Como ele era fiel à religião de Áton, Semencaré pode ter estado no caminho da contrarreforma que estava sendo preparada naquela época.


Na morte de Semencaré, seu meio-irmão, Tutancâmon, tinha oito anos de idade. Como era muito jovem para reinar, foi o "Divino Pai", o Sumo Sacerdote Ai, que assumiu as rédeas do reino. O pai de Ai, Yuia, teve o título de "Divino Pai" diante de seu filho. "Divino Pai" também significava "Pai de Deus" [Deus Pai – comentário da tradução]. Yuia havia sido assim homenageado pelo faraó Amenófis III, que o elevara ao Divino Pai e ao Comandante da Cavalaria (Grande Mestre da Cavalaria). Em outras palavras, Yuia era o comandante chefe dos exércitos. Yuia legou parte de suas funções a seu filho Ai. Mais tarde, quando Nefertiti, a filha de Ai, casou-se com o futuro Aquenáton, Ai tornou-se sogro do novo rei, enquanto esse também tinha o título de "Divino Pai".


Foi venerado pela população de Aquetaton. Uma escultura do período mostra-o de pé no manto do sumo sacerdote. Diante dele, os habitantes prostravam-se em adoração. O status de Ai já se havia tornado tão alto quanto o de Faraó.


O Divino Pai Ai é pouco conhecido pelos egiptólogos. Alguns nem sequer o mencionam quando falam do período amarniano ou esquecem-no quando citam os faraós da décima oitava dinastia. Outros ainda falam dele de uma maneira bastante sucinta, passando rapidamente sobre o assunto.


Ai não deixou muitos vestígios de si mesmo quando, dez anos depois, tornou-se o faraó sagrado do Egito. Ele reinou por apenas quatro anos antes de transmitir o poder ao general Horemheb. No entanto, como se revela, o Divino Pai Ai é uma figura central na história do Egito e na história bíblica do Êxodo. Ai foi o sumo sacerdote que, antes de tornar-se faraó do Egito, tomou a decisão mais importante desse período. Ele mudaria o destino não só de um império, mas também a história religiosa do mundo ocidental.

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Na morte do faraó Semencaré, Ai assumiu o governo do Egito, já que Tutancâmon ainda era jovem. Participou da coroação e logo decidiu "transferir" o novo faraó a Tebas ou a Memphis – os egiptólogos não concordam em qual cidade.


Tutancâmon foi coroado faraó e, sob a influência do Divino Pai Ai, mudou seu nome de Tutancaton para Tutancâmon. Assim, apagou o nome do Deus Único de seu nome e acrescentou o do Rei dos Deuses, Amon. Esta mudança indicou claramente a gravidade da situação político-religiosa no Egito na época. Isso significou o retorno a Amon por um faraó muito jovem para entender o que lhe foi imposto.


Tutancâmon era uma criança naturalmente obediente ao seu suposto tio-avô. Ai foi o único homem a ter sabedoria, inteligência e experiência para liderar um país que ele conhecia por dentro e por fora. A conveniente morte de Semencaré permitiu que Ai finalmente atuasse – para colocar em andamento seu plano de contrarreforma.


Não queria simplesmente destruir o trabalho de Aquenáton, mas sim destruir sua memória e reduzir seu poder espiritual a nada. A imagem do Deus-Homem, a qual Ai percebeu como prejudicial ao Egito, teve que desaparecer da terra. Os templos teriam que ser destruídos ou derrubados, sofrendo assim um destino mais dramático que o dos templos de Amon, no tempo do esplendor de Aquetaton.


Para que todos os nomes de Áton gravados nas paredes do Egito fossem obliterados, os nomes do rei e de Nefertiti também deveriam ser apagados. O deus Áton, o Deus Único, desapareceu tão rápido quanto havia chegado, um período de uma aventura solo.


Entretanto, a decisão mais importante – a que seria o ponto final na religião Áton – seria a de abandonar a cidade de Aquetaton, a cidade que havia sido a capital religiosa e política do império. Ai declarou a cidade "terra amaldiçoada", herética e impura. Foi declarada para sempre inabitável e foi apagada da memória para sempre. O abandono de Aquetaton por seus habitantes não ocorreu naturalmente e sem obstáculos.


O abandono da cidade mais bonita do mundo, o paraíso terrestre, deve ter sido extremamente traumático. Os arqueólogos e egiptólogos estão de acordo que os habitantes realmente tiraram todas as suas riquezas. A cidade não havia sido conquistada nem destruída, mas abandonada. Foi desertificada em obediência às ordens do novo poder no Egito, o Divino Pai Ai.


Alguns habitantes provavelmente partiram para Tebas ou Memphis, ou à outra parte do Egito. Os outros são o assunto da história do Êxodo.


Aquetaton tornou-se uma verdadeira cidade fantasma. Teve que aguardar os reinados de Horemheb, Ramsés I, Seti I e Ramsés II para ver seus primeiros templos desmantelados, depois destruídos, transformando a cidade em um vasto campo de ruínas.


Hoje as areias completaram o trabalho de destruição, abrangendo inteiramente a planície de Amarna. Três mil anos depois, em novembro de 1714, um padre jesuíta, Claude Sicard, visitou esta região do deserto e tropeçou em uma pedra incomum. Ao aproximar-se, descobriu que tinha a aparência de uma estela de fronteira de uma cidade antiga abandonada. A estela representava um rei, uma rainha e uma princesa.


Era a estela de Aquetaton, a cidade que havia sido construída para durar para sempre.



À direita, o Faraó Ai

À direita, o Faraó Ai, com seu manto de pele de jaguar, em alusão ao manto bíblico de Nemrod.


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© Lúcio José Patrocínio Filho.

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