Capítulo III - O Mistério da Águia das Montanhas
Sou Richard Brid, um nome elegante e esquecido. Lobo Urbano; sempre gostei da vida nas cidades e dos entretenimentos tecnológicos que os humanos desenvolvem. A máquina fascina-me, os computadores alucinam-me. Ouço vozes reprovadoras de alguns anciões de minha tribo no que diz respeito a meu modo de vida, entretanto tenho uma única certeza: a de que para destruir uma coisa, antes se faz necessário entendê-la.
Empresário bem sucedido na Europa; sempre fui convocado para resolver questões difíceis que eram levantadas nas grandes assembléias de minha tribo, levadas a cabo em grandes centros como Londres, Paris, Madrid, Milão, Berlim ou Istambul. Contudo, faz algum tempo na Bélgica, quando descansava em um Haras de um industrial amigo meu, percebi que meu destino era resolver questões delicadas, não importando a tribo.
Era uma manhã radiante e eu estava montado no puro sangue mais adorado por seu criador, o meu amigo Jack. Escarlate era muito inteligente e seu pêlo reluzia sobre a luz solar. O estábulo estava logo em frente e preparava-me para desmontar, depois de uma longa cavalgada pelo bosque, que mesmo estando no final do outono, encontrava-se verde e florido.
— Richard! Quero apresentar-lhe a um grande amigo —Jack aproximou-se, acompanhado de um homem aparentemente sisudo e respeitável.
Levava barba longa e branca, sendo que abaixo do nariz e da boca ainda preservava o ruivo que antes devia predominar. Sua bengala cheia de adornos e a roupa xadrez eram tão peculiares que me levava a pensar que aquele homem que se aproximava, bem que podia ser um escocês.
Desmontei, entregando Escarlate a um jovem responsável por limpar e tratar os cavalos. Jack sorriu e foi logo tratando de apresentar seu amigo.
— Richard —acenou ainda distante—, venha aqui um instante, quero apresentar uma pessoa muito importante —Richard aproximou-se, ao mesmo tempo retirando suas luvas de couro—. Este é Smith Bunlop, um veterinário a quem tenho apreço especial.
— É sempre um prazer conhecer os inusitados amigos de Jack! —o velho sorriu e Jack também.
— Concordo contigo, este é um amigo muito inusitado —risos—. Ele pertence à tribo Garras de Fogo e é tio de Átila, o rei da Bavária.
— Então este é o famoso Richard Brid! Estou aqui para entregar-lhe uma missão muito importante, para que realize em Paris —Richard apenas sorriu, impressionado.
Seguimos rumo a casa de campo de Jack e enquanto ele preparava alguns aperitivos, Bunlop expôs o que realmente queria comigo. Após colocar-me informado sobre todos os aspectos da missão a mim confiada, fui convocado a participar em um conclave para autorizarem minha ajuda nesta importante investigação.
— Então tenho que participar deste conclave para oficializar a união de nossas tribos nesta importante missão.
— Sem dúvida. E se celebrará daqui uma semana em Viena. Exatamente três luas depois que solicitamos ajuda em uma assembléia tribal.
— Mas esta missão parece ser tão simples. Por que tanto cuidado? E por que um conclave?
— Porque a solução desse caso poderá evitar uma guerra tribal na Bavária —o velho deixa a xícara de chá sobre a mesa e levanta-se com ajuda da bengala. Não consegue ocultar sua tristeza—. Somos poucos, Richard. Lutar contra a Destruição é quase uma guerra perdida. Uma guerra entre nós mesmos deixaria nosso mundo ainda pior. Está claro que tudo isso faz parte de uma perigosa conspiração e sei que você é o Lobo mais indicado para solucionar esse caso.
— Richard! —Jack entra na sala e deposita sobre a mesa uma bandeja cheia de aperitivos—. Realizaram uma assembléia e os sábios anciões elegeram a ti para essa missão. Na verdade —olhos de Lobos, observando um ao outro—eles elegeram sua irmã.
— Em sério! Mas Leona ainda é um filhote adormecido.
— Por isso estamos contatando contigo —Jack olha bem nos olhos de seu amigo Richard—. Caberá a ti realizar o prelúdio de Leona.
— Ora, vamos Jack! O que você está escondendo? Abre o jogo!
— Sua irmã não é uma Loba como outra qualquer. Ela tem um poder nunca encontrado em qualquer outro de nós. Eu, Jack e os outros anciões acreditamos que ela é portadora da chave de um grande mistério.
— Que mistério?
— O Mistério da Águia das Montanhas!
Richard deixa sua xícara cair ao solo e levanta-se repentinamente, sendo invadido por uma energia luminosa que sai vibrando de dentro de seu corpo, gerando ondas azuis e rosadas. Flocos de luzes verdes desprendem-se de seu corpo parecendo causar muita dor. O corpo de Richard transforma-se em um lobo anômalo, ao mesmo tempo em que os anciões afastam-se mudando de forma. "Uivos de um grande lobo; cântico ritual." Richard está visivelmente hipnotizado, segundos depois sentindo a energia lançando seu corpo contra o chão. Suas garras estilhaçam a mesa e ajoelhado observa o fenômeno desaparecendo. Acabou.
— Acabo de estar na Floresta Amazônica! —volta para a forma humana e senta-se no sofá, aparentando estar atordoado—. O Totem do Rio Amazonas, ou seja, o Boto Cor-de-Rosa, levou-me pelo mundo dos espíritos e mostrou-me o destino de minha irmã.
Os anciões demonstram admiração, satisfeitos por tal revelação:
— Que a energia da Terra ilumine seu caminho!
Bunlop mudou sua forma para um lobo e caminhou lentamente em direção a um grande espelho que decorava a parede da sala. Richard não prestou atenção na cena, mais preocupado com sua dor de cabeça. Jack não deu muita importância no fato de Bunlop ir embora atravessando o espelho, indo acudir o amigo que parecia estressado. Richard havia sido transportado à outra dimensão, onde um lindo golfinho de água doce, um espírito da natureza, havia conduzido sua alma em uma viajem extrafísica e revelado o que a Terra havia reservado à sua irmã.
Eu estava submerso no meio do Rio Amazonas, mas não me afogava, afinal era uma viajem espiritual. Era um mundo lindo, iluminado; peixes e plantas inimagináveis. Encontrava-me só, mesmo com tantos cardumes transpassando minha aura. Então apareceu um golfinho, mas não era um golfinho normal. Parecia feliz e circulava meu corpo como se estivesse querendo dizer-me algo. Segurei em sua barbatana e aumentou sua velocidade, por caminhos que jamais havia imaginado, seguindo sereno em direção ao coração da Terra. Era algo singular, uma sensação de extremo estado vibracional, algo que me fez ver o tamanho do poder que havia sido reservado à minha irmã.
Durante seis semanas dediquei todo o meu tempo pesquisando informações. Jornais antigos, revistas, noticiários televisivos, internet e conversando com vários Lobos da tribo Garras de Fogo que por ventura pudessem ajudar-me na busca em que eu estava obstinado. Queria estar por dentro de tudo, mesmo ainda pendente da realização do conclave.
Lindas montanhas austríacas, árvores verdes e o cheiro da natureza por todos os lados. Um castelo maravilhoso como todas as centenárias obras austríacas, e o fato de estar um pouco afastado de Viena deixava tudo ainda mais misterioso. Fui conduzido pelo interior deste castelo, acompanhado por quatro Lobos de minha tribo, sempre descendo inacabáveis escadarias. Descíamos tanto que pensei que chegaríamos no inferno. Afinal chegamos a um salão de festas e ali estavam eles; dezenas de sábios senhores, de diversas tribos européias. Era um grande salão e estava iluminado por exagerados candelabros; mui adornados. Nas paredes podia-se ver inúmeros quadros que contavam histórias de tempos de guerra. O piso era negro e reflexivo, todo trabalhado em relevos de símbolos tribais.
Logo avistei Sombra de Sepultura, meu velho mestre, tratando logo de aproximar-me. Seus olhos brilharam, assim como os meus. Um abraço forte. Sombra estava muito contente em rever-me e começou a contar suas últimas aventuras no mundo dos espíritos.
Havia dois anciões de aparência indígena, com olhares desconfiados, parecendo investigar-me a cada instante. Em verdade parecia que todos queriam lançar seus olhares em direção ao elegido, o que me deixava ligeiramente incômodo. Sombra sorria muito ao relembrar como conseguiu capturar um punhado de Elementais do Fogo e aprisioná-los em uma velha lamparina de querosene. «Escutem isso! —espanta a todos —Agora, sempre que me encontro perdido na escuridão do Caos, basta usar a lamparina para avistar o caminho —gargalhadas não faltaram —Eles sempre dizem a verdade! Acreditem! Nunca faltaram comigo, isso é!—. O mestre segurou meu braço e foi logo afastando-nos do grupo, dava ares de que queria falar algo importante.
— Richard, venha aqui um instante.
Suas gargalhadas ficaram atrás, esboçando uma face agora lúgubre. Falando baixo, apertando os olhos como se quisesse demonstrar que temia algo, começou a liberar sua preocupação:
— Montanha de Fogo não tem nada de tonto, muito pelo contrário, acredito que ele está planejando algo grande. Isso tudo está cheirando a própria Destruição e a partir do momento que você aceite essa missão, sua vida e a vida de sua irmã estarão seriamente ameaçadas. Ainda não consegui penetrar nos meandros dessa conspiração e é exatamente por isso que temo por suas vidas. Estou com as mãos atadas nessa história e por esta razão não vou estar aqui para ajudá-lo.
— Temo que isso seja-me demasiado complicado, mas não se preocupe comigo e com Leona —uma pausa—. Estaremos bem!
— Que a Terra ilumine seus poderes, na hora da luta!
Em bom tom, a voz de Portador do Aviso, o mais sábio dos anciões da tribo dos Lobos Urbanos, começou a ecoar por todo o salão. Pairando solitários, espíritos em forma de lobos surgiam através do reflexo do solo completamente negro, lentamente caminhando e circulando por entre peludas patas de Lobos. Suas energias eram visivelmente sugadas pelos Lobos ali presentes e pouco a pouco desapareciam exaustos. Portador do Aviso comandou todo o conclave, e juntos confirmaram a Richard como sendo o responsável em levar a cabo a missão.
Já em solo francês, iniciando minha aproximação ao objetivo maior, passeava passivamente pelas ruas parisienses. Como o jornaleiro parecia muito simpático, resolvi aproximar-me da banca de revistas, perguntando com tranquilidade:
— Por favor, por acaso aqui não existe algum jornal especializado em casos de policia? —o senhor, que aparentava ter uns setenta anos, fixou-lhe o olhar parecendo surpreendido com a pergunta—. Entende o que estou falando? Tipo assassinatos, sequestros, violência em geral...
— Que disse? —o velho balançou a cabeça como se quisera despertar, tirou o cachimbo da boca ainda parecendo pensar—. Acho que aquele ali pode satisfazer seus desejos —assinalou um jornal titulado “O Caos” —. Tem até a matéria sobre os misteriosos assassinatos que estão ocorrendo nas luas cheias. Entretanto tenha cautela, afinal esse jornal é muito sensacionalista.
— Não se preocupe, sou extremamente crítico para essas coisas.
Armazenei todas as informações em meu computador portátil e tracei estratégias, convencido da proximidade do objetivo. Segui à Londres e tratei logo de tomar as providências necessárias para resolver duas coisas de uma vez só.
Sem perder tempo, procurei encontrar um velho amigo que vivia em um pacato bairro londrino, confiando a ele uma importante missão.
Sua casa estava mal iluminada, contudo eu tinha a certeza de que o encontraria ali. Apertei a campainha e logo a porta se abriu:
— John! Há quanto tempo! —ele ainda preservava toda sua aparência delgada e sana. Levava um cavanhaque bem aparado e seu sorriso sincero de sempre.
— Richard, meu velho amigo! Sabia que voltaria a vê-lo.
Sentamo-nos próximo à lareira e John serviu um precioso whisky. Parecia viver em solitário.
— John, eu sei que você gostaria de passar toda essa noite relembrando nossos velhos tempos, entretanto eu acho que vou ficar devendo-lhe mais essa.
— Vamos Richard, se existe um Lobo ocupado nesse mundo, ele está aqui na minha frente agora.
Richard sorriu muito, descordando da afirmação.
— Preciso que você ajude-me com um filhote perdido. Temos que fazer seu prelúdio o mais rápido possível, antes que os lacaios da Destruição consigam descobrir sua localização.
— E posso saber onde ele está?
— Na verdade não é bem “ele” e sim “ela”. Vive aqui mesmo em Londres e... Estamos falando de minha irmã.
— Refere-se a Leona? Está louco? Londres está repleta destes malditos corrompidos. Surpreendo-me em saber que ela ainda não tenha sido seduzida pelos lacaios da Destruição.
— Tenho um plano para que ela ajude-me em uma missão muito importante, e no final pretendo contar-lhe toda a verdade. O fato de ainda não saber de nada, ajudará bastante.
— E por que pensa isso?
— Porque ela saberá esconder sua verdadeira energia, adormecida dentro de si.
— Tudo bem! Pode contar comigo. Mas quero seguir tudo isso de perto. Não permitirei que sua irmã seja molestada por nenhum asqueroso lacaio.
John levanta-se caminhando em direção a um canto da sala. Mete a mão atrás de um quadro que ocupava toda a parede e pega um molho de chaves. Tardou alguns segundos procurando entre grandes e negras chaves de metal, presas por um velho e retorcido anel que reluzia como prata. Richard permaneceu em silêncio, esperando o desfecho daquela cena.
— Aqui está! —escolheu uma chave dourada com símbolos tribais gravados com prata no metal.
Seguiu ao centro da sala pedindo para Richard ajudá-lo a arrastar sua mesa. Embaixo da mesa havia um imenso tapete verde que rapidamente enrolou como pôde, deixando ver uma pequena porta de madeira, destas que geralmente escondem um escuro porão, tratando logo de abri-la usando sua chave dourada. Ao contrário de dar acesso a um porão, apenas viam um chão de pedras escuras e aparentemente bastante sólidas.
— Mas que diabos é isso John?—fixava o olhar em uma imensa pegada de lobo, esculpida nas pedras.
— Foi um tempo de dúvidas Richard. Um tempo em que não confiávamos em ninguém. Então construímos este vínculo espiritual para orientar a todos os Lobos que necessitem esclarecer qualquer coisa sobre suas vidas.
Lentamente aproximou sua mão direita à profunda marca no solo. Evidentemente não coincidia com o formato da pegada, que era maior e parecia feita por um monstro. Mas à medida que se aproximava ocorria uma lenta metamorfose e quando tocou a pegada, sua mão encaixava-se perfeitamente. Ao redor de sua mão o solo de pedra tornou-se iluminado em vermelho vivo, parecendo que abaixo da sala havia um vulcão cuspindo lava. Imediatamente o solo começou a descer como se toda a sala fosse um imenso elevador. As paredes da sala pouco a pouco se distanciavam enquanto desciam uns treze metros, chão adentro.
— John, John, John! O que você andou fazendo esses anos todos? —o piso deteve-se e atrás deles podia-se contemplar um imenso portal de prata com duas imensas portas de madeira prateada. Richard olhou atrás e pela primeira vez na vida pareceu estar arrepiado de emoção.
— Mas esse não seria o Templo do Totem Prateado?
— Exatamente isso Richard! Eu sou o Guardião do Templo do Totem Prateado!
— Parece trancado —tenta abrir com um empurrão—. E não tem nenhuma fechadura. Como entraremos?
— Richard, não seja tolo —risos—. Precisamos de um bom motivo para entrar ali. Eu mesmo não posso entrar.
— Você acredita que tem algo para mim ali dentro?
— Para você eu não garanto, mas acredito que para Leona sim.
John abriu a gaveta de uma escrivaninha que desceu junto com o resto dos móveis que estavam na sala. Pegou uma caneta tinteiro, uma folha de pergaminho e escreveu com letras grandes «LEONA BRID». Curvou-se para passar o pergaminho por baixo da porta, sendo interrompido por Richard.
— Espera! Quero tentar primeiro —Richard pegou outro pergaminho e escreveu seu nome, também com letras grandes «RICHARD BRID»—. Não posso perder esta oportunidade.
— Não vou impedi-lo, mas advirto que poderá sofrer uma desilusão.
Richard não deu ouvidos e foi logo passando o pergaminho por baixo da porta. Tardou alguns segundos; tempo suficiente para John resolver sentar-se no sofá.
— E agora?
— Ter paciência é o segredo. Algumas vezes demora um pouco.
Richard ouviu um sopro, como um vento sinuoso, era o papel que voltava por baixo da porta.
— Não me diga que não lhe avisei!
John passou o pergaminho de Leona por baixo da porta que imediatamente abriu-se. Era uma sala não muito grande, completamente vazia, exceto por uma caixa estreita e comprida que estava bem ao centro, junto ao pergaminho de Leona Brid. Os dois aproximaram-se e John pegou o papel e a caixa, dizendo:
— Este presente pertence a Leona Brid!
A neve torrente cai como um milagre, avisando que não é boa idéia voar. Parecia um sonho, afinal durante duas semanas o efeito estufa insistiu em aquecer o inverno europeu. Mesmo assim liguei para meus assessores e pedi uma reserva no próximo vôo à Paris, na certeza de ter atingido, com êxito, os meus objetivos aqui em Londres.
O avião sobe, meio tísico. Durante a viagem aproveitarei para ler as últimas notícias do “Le Monde”.
Um mês antes de ir à Londres, havia passado uma semana na Cidade Luz, investigando a possibilidade de meu suspeito estar refugiado em um apartamento próximo a um albergue chamado “La Mie de Pain” (Migalha de Pão). Os motivos pelos quais desprendi tanto interesse por este lugar em especial eram no mínimo curiosos. Mês passado, segundo boatos da vizinhança, moradores teriam escutado uivos e barulho de pancadaria, algo que pareceu ter sido aterrorizante. Era uma noite de lua cheia e no dia seguinte uma mulher foi encontrada esquartejada nos fundos do edifício. A notícia parece que chegou a ser publicada nos jornais, difusa entre tantos outros casos da página policial. Claro que qualquer Lobo poderia qualificar isto como um ato de loucura, talvez por estar estressado, ou quem sabe se havia perdido o controle de sua fúria por encontrar-se amotinado a mais de um mês. O certo era que essa mulher era alguém muito importante.
Hospedei-me no Hotel Alexander, onde em outra oportunidade havia conhecido uma encantadora e jovem recepcionista de olhos azuis.
— Boa tarde, Srta. Sofia!
— Boa tarde Sr. Brid! —não conseguiu evitar seu cuidadoso olhar interessado, mesmo consultando as reservas no computador—. O Senhor tem uma reserva para a suíte sete mil e três —ele sempre hospedava na mesma suíte.
Sofia pega as chaves, entregando-as ao carregador de malas que esperava logo atrás, com as malas de Richard em suas mãos:
— Por favor, leve as malas do Sr. Brid à suíte sete mil e três.
— Sim, Senhorita!
Richard seguiu o cavalheiro das malas, despedindo-se de Sofia com um sorriso amigo.
— Muito obrigado! Até logo!
— Foi todo um prazer! —risos.
Após um digno jantar no restaurante da Torre Eiffel, dirigi-me à casa do suspeito. Percebi alguns grupos de nigerianos caminhando pelas ruas, prostitutas e até mesmo um cachorro perdido, entretanto o bairro não chegava a ser uma periferia parisiense. Parei lentamente nas proximidades do prédio, colocando-me a espiar.
Não passou muito tempo e logo percebi a aproximação de uma — em minha opinião — linda senhorita de cabelos ruivos, olhos castanhos, pele branca e toda protegida por seu casaco que deveria ter custado vidas de belos roedores peludos. Seria normal essa linda francesa estar passeando pela cidade, mesmo despontando a madrugada. Entretanto ela parou no meio da calçada gelada, olhou rumo ao prédio que eu suspeitava ser onde Raio de Fogo se amotinara e ali ficou por mais de cinco minutos. Às vezes temos que ver cada paranóia! Cocei várias vezes o meu peito peludo, não devido a pulgas ou coisas semelhantes, mas porque havia muita impaciência. Não acontecia nada no prédio e a maluca dava mostras de sofreguidão. Depois que ela encostou-se em um muro bem na esquina de uma rua estreita e escura, pondo-se a esperar, percebi que estava cansada de ficar em pé e até mesmo um pouco irritada. Mais dez minutos esperando e nada. A verdade é que eu não poderia sobreviver àquela noite sem levar um belo susto.
Saindo das sombras, uma grande mão estendeu-se rápida e decidida, tapando a boca da impaciente ruivinha. Um homem alto a agarrou por trás, parecendo querer molestá-la. Saí do carro na rapidez que você deve estar imaginando, sendo contido por um tombo monumental. Não havia neve e sim uma fina camada de gelo. Na queda tive tempo de olhar à frente e ver um belo casal se abraçando. Ainda no chão ouvi o diálogo que a eles parecia ser muito divertido:
— Pierre, seu besta! Quase me mata de susto!
— Maria, como você pode ser tão distraída! Meu amor!
Eram duas horas da manhã e a neve ainda não havia começado a cair na capital francesa. O aquecedor de meu jaguar não me decepcionou e não suportando esperar o infeliz retornar ao seu apartamento, resolvi pagar para ver. Abri meu computador e entrei no sistema de informática do prédio, adicionando meu nome na lista de visitas de uma moradora chamada Sofia. A visita seria às duas horas da manhã. Olhei no relógio e ironizei:
— Que cabeça de vento! Estou atrasado para minha visita a uma amiga francesa.
Sai do carro, agora lento, harmonizando meu terno com a capa. Naturalmente identifiquei-me ao porteiro, frisando que queria fazer uma surpresa para Sofia. São nesses momentos que gosto de utilizar minha lábia; ele caiu! — Dentro da portaria uma televisão reproduz imagens de uma rede de notícias européia. Um meteorologista alerta: «Não há muito que dizer, somente o que fazer. Decisões sérias e urgentes devem ser tomadas por toda a sociedade. Reduzir as emissões de gases tóxicos ou sofrer as graves consequências que, desde já, estão ocorrendo no mundo e principalmente nas grandes cidades. Este calor repentino foi só um aviso, fenômenos piores virão!»—.
Em passo acelerado subi ao apartamento de minha pseudo-amiga francesa. O interfone tocou; atendi. Simulei voz de mulher, convencendo ao porteiro de que já havia recebido a visita e que estava tudo bem —os Lobos possuem muitos poderes sobrenaturais—. A jovem não notou minha curta estadia. Ligeiro, segui rumo ao objetivo primordial.
Furtivo e procurando não ser visto por ninguém, cheguei ao apartamento do suspeito. Era uma porta de aço, daquelas corta-fogo, o que dificultaria um pouco as coisas. A fechadura também era especial, com chave de quatro códigos. Gastei alguns minutos para destrancar dita porta, utilizando umas chaves mestras e muita técnica; adentrei sem fazer alarde. Não precisei fazer muito esforço para encontrar a prova que me faltava. — Com as janelas completamente lacradas por suas persianas, o ambiente somente podia ser visto acendendo alguns desbotados abajures de cor púrpura, ocultos em meio a espalhadas caixas de papelão que dificultavam o acesso. Sobre a mesa havia vários recortes de jornais com notícias sobre o assassinato da mulher. Todos os espelhos do apartamento encontravam-se estilhaçados e perigosamente espalhados pelos cantos. As paredes que antes deveriam estar decoradas com um lindo papel verde, agora estavam profundamente arranhadas pelas garras de um presumível lobo-solitário que eu tanto procurava. — Abandonei o local.
Leona abre o embrulho
Pensei em todas as possibilidades. Talvez estivéssemos diante de uma bomba ou, se não fosse nada de importante, poderia ser um presente de um admirador secreto que tivesse nos seguido até o bar do rock. Entretanto queríamos acreditar que fosse algo mais sério, algo que acabasse definitivamente com tanto sofrimento vivenciado por mim nestes últimos quinze dias.
Sem delicadezas abri o embrulho envolto em um papel azul marinho. Caso fosse a primeira hipótese não estaríamos mais ali! — Era uma caixa de madeira leve, com um metro e vinte de comprimento e uns quinze centímetros de altura e largura. — Com a mesma rapidez que a abri, fechei-a! O local não era propício para tal revelação!
— Ora, Leona; vamos lá! Diz logo o que tem aí dentro, vai!
— Vamos dar o fora daqui; e temos que ser rápidas!
— Mas por que? Eu não estou entendendo! O que está acontecendo Leona?
— Vamos dar o fora daqui! —afastou a bebida, tratando de ir sacando o dinheiro da bolsa—. Rápido, vamos!
As duas pagaram a conta e desapareceram.
Agora estamos no apartamento de Marcela. Trancamos as portas e de relance tive a certeza de que as cortinas estavam fechadas. — Marcela estava um pouco afastada da cena e parecia cautelosa. — Coloquei a caixa sobre a cama e abri o meu destino.
Toda adornada em prata e cravejada de diamantes; era tão linda quanto pesada. No punho havia um desenho tribal com dois riscos paralelos cortados por outros perpendiculares. Dentro ainda havia uma chave de armários de ferroviária, desses que se coloca uma moeda para trancar.
— Essa deve ser a espada mais linda que já vi em toda minha vida!
— Eu sei, Marcela! E ela me levará ao encontro de meu irmão.
Achei então uma carta e, sem medo, li com muita atenção.
Querida irmã:
Afastar de nossa família foi uma decisão difícil. Logo nos veremos novamente, e quando isto acontecer, devolverei seu colar de prata que levei comigo em minha nova vida.
O motivo que me levou a procurá-la e envolvê-la nesta missão é demasiadamente complicado e talvez inexplicável. Levaríamos dias conversando e quando terminássemos, fatalmente não haveria mais tempo para fazer o que deveria ser feito.
Preciso de você, como nunca precisei antes! Tenho certeza que posso contar com sua ajuda!
Leona! Não posso dizer exatamente o que deve fazer porque os espelhos têm olhos e ouvidos. Espero que isto seja o suficiente, pois confio em sua inteligência. Segure seu pássaro com firmeza e diga que fará um voto: “Uma vida por energia, minha vida por toda energia dos inimigos mortos”. Para sua segurança, faça tudo sozinha e não confie em ninguém.
Beba champanhe francês, na origem!
Richard Brid
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