Capítulo VI - Os lobos-solitários aproximam-se
Aço e engenharia alemã, negro pérola como tom, detalhes em verde pastel e letras pardas brigando com o vento forte e cortante. Rompe a madrugada e a neve, seguro e fumegante; captando as luzes das cidades iluminadas. Vai! Conquiste o mundo físico, refletido no espelho cristalino que conduz ao extrafísico. Viajes por florestas e cidades sombrias, e ainda sem ver o caminho, toca a trombeta do aviso. Vai! Conduze lordes e príncipes, e sem esquecer dos mendigos, vai habitar a clausura. Vai! Monstruoso e ao mesmo tempo belo, que os loucos veneram, vai de encontro a ti mesmo, lendário e singelo. Por montanhas e abismos a locomotiva deixa Istambul, com destino a Paris.
Dentro do trem há espaço de sobra, as cabinas da primeira classe estão vagas e as demais classes são capazes de instilar solidão nos olhos dos bilheteiros que por ali transitam. O silêncio sufoca; o som cálido dos vagões... Paranóia.
Logo adiante, notória e demasiada, a fumaça de charutos cubanos parece não incomodar aos tradicionais seguidores do hábito pigarro.
Ternos pretos, encobertos por sobretudos macabros, talvez fosse necessário um monstro para enfrentar dois homens de tal porte e vigor. Longos cabelos loiros, encobertos por chapéus discretos e elegantes, malas de executivos e sapatos de couro. O bilheteiro passa, olha rapidamente e ironiza:
— Isso é gente finíssima! —sorri.
Ambos não trocam uma única palavra. Alguém que se sentasse ao lado, nunca pensaria que ambos se conheciam ou que estariam no mesmo ramo de negócios.
Um deles levanta-se e caminha em direção a outro vagão, enquanto o outro não toma o mínimo de conhecimento. Entrando no banheiro, seu primeiro ato foi passar sabonete no vidro do espelho. Neste instante um libanês inesperado entra em cena, percebendo a bagunça. Logo, tagarelando em língua árabe, o velho ruivo põe-se a reclamar da sujeira que o desconhecido estava a fazer:
— Onde você quer chegar com este desrespeito? Deste tamanho e agindo como um vadio! —passa água no espelho, ainda reclamando—. Tenho vontade de fazê-lo limpar esta bagunça —Mordida de Sangue afasta-se assustado, não entendendo a arrogância do bilheteiro libanês—. Olha só que sujeira! —ele dirige-se ao passageiro, dando as costas ao espelho—. Vamos, dê o fora daqui, antes que eu...
Nunca tolerei insulto de ninguém, muito menos de um humano insignificante. Um Lobo Garra de Fogo mais furioso já teria degolado este sujeito. Bom, pelo menos um susto ele levou.
Um lacaio ameaçou sair pelo reflexo do espelho, atraído pelo conflito e pelo cheiro de fúria. Não passava de um psicótico após morte que provavelmente recebeu poderes para servir à Destruição, mas Mordida de Sangue rapidamente mudou forma, sacando sua adaga árabe e armando um golpe para aniquilar o maldito que ali chegara.
— Este lugar está fedendo a Destruição!
— Sobre que diabos você está falando? —o revisor de bilhetes usou um tom arrogante e asqueroso.
Seu semblante desfigurou-se. Não chegou a transformar-se completamente em um homem-lobo, contudo sua aparência era algo inexplicável, horrível. Aquele libanês, desaforado, aparentemente um tipo duro, empalideceu petrificado e desmaiou caindo ao chão. A adaga do desconhecido passou bem perto de sua cabeça e atingiu as garras do monstro desavisado, que fugiu liberando estranhos e agudos bramidos. — O golpe arrebentou o espelho, deixando estilhaços sobre o corpo do tripulante em vertigem. Mordida de Sangue abandonou o banheiro, retornando à sua cabina. Alguns curiosos seguiram em direção ao local aonde ocorriam os sons de pancadaria. Calmamente, na forma humana, o estranho passou pelos vagões como se não soubesse o que havia acontecido. O trem aproximava-se de Munique.
Oito de fevereiro
Madrugada sombria em Munique. Neve e poucas pessoas perambulando pelas sombras. O apito avisa que é hora de descer. Botas negras tocam o centenário concreto gélido da estação de trem. Seus toques fazendo estalos no vento frio. Solitário som, conversando consigo mesmo pelos quatro cantos da grande e desabitada estação da Bavária. Rostos frios, não fossem as barbas; rostos frios com olhos vermelhos. Uivos telúricos, e eles ouvem.
Em sentido contrário, altivo, um homem bem vestido aproxima-se brandamente; suas mãos protegidas por luvas negras. Mordida de Sangue percebe a aproximação. Deposita sua mochila no chão e acende um charuto cubano. Seu companheiro, Garra de Vento, sempre desconfiado, mantém suas mãos escondidas nos bolsos de sua capa amarrotada. Sua face permanece humana; as mãos transformadas em monstruosas garras.
Uma locomotiva aproxima-se lentamente, contudo rápida o bastante para quebrar o sinistro silêncio; e pára. O desconhecido, sem tirar os olhos dos dois, chega bem perto; tão perto que Garra de Vento acreditava poder acabar com ele ali mesmo. Começa a cair muita neve e a ventania dá ares de querer iniciar uma nevasca. Parece que a Terra pressente o conflito e tenta dar seu aviso. Mordida de Sangue é um Lobo nascido em lua crescente e com experiência ele usa seu poder de visão sensível, possibilitando sentir qualquer hostilidade presente. Contudo não percebe a presença de nenhuma criatura maligna. Em baixo tom, olhando cabisbaixo para todos os lados, sussurra a seu amigo de posto superior:
— Consegue sentir algum bastardo? —disfarça a fala com uma tosse seguida de pigarro; a fumaça de seu charuto encorpando-se sobre o ambiente sombrio, o apito de uma locomotiva, mesmo que longínquo, avisando que ainda estão no mundo físico—.
— Nenhum! —afirma Garra de Vento—. Acho que está sozinho —não tirava os olhos do desconhecido que finalmente chega—.
— Vocês não são Garras de Fogo? —voz grossa e calma, atirando o toco de charuto e depositando suas botas sobre ele. Qualquer pessoa estranharia aquela fumaça de cor fortemente esverdeada, contudo, para os três ali presentes, estava claro que aquele charuto tratava-se de um objeto com um espírito aprisionado. E também parecia claro que o velho estava literalmente tragando dito espírito, porque a fumaça bailava no ar, e com densidade, criava formas de rostos, que mesmo em silêncio expressavam profunda dor—.
— Pergunta errada, na hora errada! —Mordida não quer intimidades.
— É... —Garra de Vento direciona o olhar para ambos—. O que está procurando? Velhinho!
— Garras de Fogo... —ironiza—. Sempre mal educados.
Garra de Vento enfurece-se, tenta conter-se, mas acaba transformando-se. Seu rosto demonstra traços de deformações e o velho prossegue sereno em sua abordagem:
— Calma! Sou Sombra de Sepultura, um despojado Lobo Urbano, ancião por excelência, que viaja solitário de um Lugar Sagrado a outro —o velho desprende uma tímida tosse de um senhor de idade—. Só perguntei porque achei muito estranho encontrar Garras de Fogo fumando —mantém o olhar fixo—. Pertencendo à tribo Garras de Fogo, não seriam vocês, totalmente selvagens?
Mordida de Sangue responde seco, objetivando a conversa:
— Somos lobos-solitários e ainda acho que é melhor ser um solitário do que ser um escravo da Ordem, como são vocês, malditos Lobos Urbanos; mas isto não vem ao caso! —a neve continua pujante—. Afinal você é o enviado para conduzir-nos ao refúgio de Raio de Fogo, não é? —o diálogo perde o tom amistoso.
O velho perde o sorriso que até então esculpia sua face. Sério, responde:
— Sou! —justifica a sua irresponsável atitude—. Mas saibam que somente os conduzirei pela dimensão extrafísica, até o encalço do que procuram, porque devo muitos favores a seu rei, Jukes Montanha de Fogo —seu tom de voz liberando pinceladas de ódio—. Caso contrário não estaria aqui neste momento, por que mesmo com toda a minha experiência de lua crescente, estou velho demais para percorrer veredas. Além disso, Richard Brid é meu pupilo e sei que é ele quem está cuidando deste caso.
— Richard não sabe o risco que está passando —Mordida de Sangue expressa ódio no olhar—. Greg é poderosíssimo; e possui algo que pertence ao nosso rei de Istambul.
Sombra de Sepultura escuta as palavras de Mordida de Sangue e fica espantado com tal revelação. Intrigado, questiona:
— Como assim? O que vocês estão querendo não é julgá-lo por traição tribal? Fui informado que se tratava de um atentado contra dois de seus irmãos de Tribo.
— Também! —disse Garra de Vento, demonstrando impaciência—. Mas isso já não lhe diz respeito. Apenas faça o que pediu Montanha de Fogo. Conduza-nos pelos Lugares Sagrados da Europa, em busca do perverso Greg Raio de Fogo.
— Uma última pergunta —Sombra de Sepultura ainda tem questões não resolvidas em sua mente—. Vocês estão dizendo que são lobos-solitários, não é? Então por que querem ajudar ao Rei Jukes?
— Considera-se um sábio e ainda não entendeu? Ao resolvermos este caso, nossa tribo das matas de Istambul nos aceitará de volta, então não mais seremos lobos-solitários. Fomos expulsos sim; no passado. Mas as florestas da Turquia estão quase extintas e nossa tribo está esvaindo-se aos poucos. Eles precisam de mais aliados para combater a Destruição.
O velho calou-se. Deu as costas aos dois, acendendo um charuto e caminhando com a ajuda de uma bengala branca e adornada com detalhes tribais.
— Vou guiá-los, apenas isto —com voz cansada conclui, ao mesmo tempo em que penetra no mundo dos espíritos através da superfície reflexiva de uma lâmina d’água congelada no meio da estação—. Mas vou logo avisando! Feito isto eu desaparecerei e não quero mais saber de droga nenhuma de Garras de Fogo ou pagamento de favores. Minha vida está no fim e é hora de recolher-me à algum lugar distante, onde eu possa encontrar-me com o verdadeiro espírito da Terra.
O velho atravessa a película, transformando-se em corpo de homem e cabeça de lobo e pilheriando como um rabugento. Palavras humanas gradualmente tornam-se rosnados de um diálogo lupino, em língua Lobo. Os dois lobos-solitários transformam-se para a forma original de sua raça, a lobo, e caminhando como lobos seguem o velho em direção ao desconhecido. Suas roupas e bagagens são absorvidas por seus corpos no momento da metamorfose. O local torna-se um deserto, restando apenas lentas brumas e a fumaça do charuto do velho dissipando-se no ar, iluminadas por tímidas luzes de centenárias luminárias da estação.
Rei Jukes Montanha de Fogo; enclausurado e tísico...
Agora posso sentir o lado mais obscuro de minha alma. Vivo enclausurado e tísico; foi uma escolha pessoal. Obscuridade, entropia, maldições, sou consciente de que vendi minha alma aos deuses da Destruição. Transformei meu reino em um mundo adjeto, hostil e sombrio. Sinto-me sendo devorado por vermes; pouco a pouco consumido por uma sinistra energia. Contudo esta dor transforma-se em uma energia de assustadora magnitude, um poder conferido a mim para dominar todas as tribos de Lobos e com todos os Lobos sob meu comando, declarar guerra ao Caos —falando sozinho, Jukes desabafa para si mesmo, sentado em seu trono no salão de honra de um castelo antes ocupado por defensores da Terra.
Não demoraram em descobrir meus terríveis planos, entretanto fui mais rápido que qualquer sábio poderia imaginar. Dizem que fui corrompido pela Destruição, mas tenho um poder que jamais entenderão, um poder que utilizo para eliminar qualquer obstáculo que porventura apareça em meu caminho.
Primeiro há sido o príncipe Greg. Tentou destronar-me com táticas ingênuas, mas logo solucionei com uma conspiração feita sob medida para ele arrepender-se pelo resto da vida —gargalhadas ecoando pelo salão de um castelo vazio e sem vida—. Agora aparecem boatos de que um arauto será enviado pela Terra para interromper o avanço da Destruição e quero deixar claro que primeiro terá que passar sobre meus restos mortais —irritado levanta-se, fechando os punhos para esmurrar uma das metálicas armaduras medievais que decoram o local. Não são armaduras de homens, e sim moldadas para corpos de Lobos—.
A tribo Garras de Fogo havia sido avisada sobre a decadência do reinado da Turquia e estavam conscientes da necessidade de intervir para libertá-los das garras da Destruição, a quem foram entregues graças ao Rei Jukes Montanha de Fogo que foi seduzido por energias geradas por espíritos psicóticos. Enviaram o príncipe Greg, mas quase perdeu sua vida e a de seus guerreiros em um enfrentamento contra os lacaios de Jukes.
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