Capítulo IV - A adaga de vidro
02 de fevereiro
Marcela ficou indignada, não acreditando em tanta bobagem:
— Você não vai cair neste trote, vai? Isso tudo é besteira! Nós temos que terminar os estudos ainda esse ano!
— Amiga! —cruzam os olhares—. Não sei se é tudo mentira ou não! Tudo o que sei é que pegarei o próximo avião à Paris e ninguém me impedirá! —ela está obstinada, decidida.
— Escute-me, amiga: se você for, ficarei com muita raiva; mas te perdoarei! Deduzo que irá sozinha, mas prometa-me que fará contato comigo, porque se não eu juro que te mato!
— Tudo bem! —as duas abraçaram-se—. Eu te adoro!
Leona pegou a espada, colocando-a embaixo de sua capa. Um pouco assustada, pensando estar sendo vigiada, entrou no dodge e seguiu rapidamente rumo a um galpão abandonado, na periferia da capital inglesa. Usou a própria espada para forçar a porta de aço, que rompeu com facilidade. Quando estava bem no centro do ambiente vazio e umbroso, abriu uma caixa de sapatos e pegou com cuidado uma pombinha cinza. Segurou-a firme e disse:
— Uma vida por energia, minha vida por toda energia dos inimigos mortos!
Ela esperou um pouco em silêncio. Nada aconteceu! Nervosa e sentindo-se patética, soltou a pombinha e ajoelhou-se pegando a espada. Irada, bateu-a no chão várias vezes, ao mesmo tempo repetindo as palavras ironicamente.
— Que otária sou! Um voto —pilheriou—, uma vida por energia, minha vida por toda energia dos inimigos mortos! Que lindo!
Ainda ajoelhada, abaixou a cabeça expressando uma forte vontade de chorar. Como por um encanto, a espada grudou em suas mãos liberando centelhas e raios. Dos raios formou-se um espírito guerreiro, com armadura dourada e uma espada medieval. De corpo curvado, todo relampejante e cercado por uma luz eletrizante, começou a caminhar lentamente, arrastando a ponta de sua espada no solo e circulando Leona. O guerreiro mantinha os olhos fixos na jovem, enquanto ensinava todas as técnicas de combate com a adaga de vidro.
Era um ambiente mágico; névoas fluorescentes em tons verdes ionizados. Algumas vezes era o próprio guerreiro que lutava contra Leona, outras vezes criava ilusões em forma de monstros negros para enfrentá-la. Sempre acompanhado de relâmpagos que subiam as paredes até o telhado de metal, um vento sombrio eriçava o cabelo de uma assustada senhorita. Golpes de espadas, movimentos perfeitos ao defender e atacar grandes espíritos. Um a um Leona foi eliminando aqueles monstros que mais pareciam hologramas, e a cada momento tornava-se mais difícil. Eram como fases.
Vários esqueletos com cabeças de Lobos, armados com longas lanças de prata, atacam Leona por todos os lados. O espírito guerreiro entra em seu corpo, e juntos iniciam velozes movimentos rodopiando a espada. Podia-se ver seu corpo semitransparente mesclado com o de Leona, ajudando-la a fazer aqueles complicados e eficazes movimentos a eliminar a todos aqueles esqueletos em uma fração de segundos, tempo em que Leona apenas podia gritar.
Era assustador, grande e voraz; levava quatro espadas e possuía mãos para isso. Leona sempre gostou de mitologia, e podia jurar que aquilo era um minotauro, apenas não entendia o porquê daqueles quatro braços. Parecia furioso, abrindo e fechando peludos braços, enfrentando suas próprias espadas e movimentando-se como se fosse conhecedor de artes marciais. Dotado de uma enorme cabeça taurina, com quatro amarelados e pontiagudos chifres, impunha substancial respeito ao mugir ferozmente como um touro enlouquecido. Leona, assustada, apenas teve tempo para abaixar-se, deixando um comentário:
― Não poderíamos deixar isso para outro dia?
― Infelizmente não? ― responde sério e ainda dentro de Leona.
O minotauro aproximou-se rapidamente, atacando com todas as espadas de uma vez. Leona apenas ajoelhou-se colocando a espada sobre a cabeça para deter aquele fulminante ataque. Fez de tudo para tentar ferir ao espírito ali materializado, esquivando e atacando de todas as formas. Mesmo o guerreiro parecia surpreso com tal oponente, algumas vezes expressando impaciência. Leona já não suportava tanta emoção e decidiu usar um pouco de criatividade ao esquivar das espadas e rolar ao chão, ao mesmo tempo cortando as pernas do minotauro em um golpe de espada de tirar o fôlego; parou de corpo curvado segurando a espada para trás, apoiada no chão com a outra mão para frente. O minotauro caia ao chão levantando poeira, e por primeira vez podia-se ver um brilho eletrizante nos olhos da guerreira.
Leona parecia hipnotizada, exausta, e o espírito apenas disse umas poucas palavras antes de desaparecer entre suas próprias névoas:
— Ensinei-lhe tudo o que sei, agora faça a sua parte. Juntos viveremos em simbiose!
— Mas... —ela ainda tem dúvidas.
Leona estava tão perplexa quanto confusa. Suada, cansada, caiu em si dando falta da adaga. Olhou para todos os lados e não a viu. Foi quando percebeu que sua calça jeans estava rasgada do lado direito, do tornozelo à virilha. Olhou então sua perna e viu uma grande tatuagem bege de uma adaga, liberando em seguida um grito avassalador, pelo susto levado. Ficou sem entender por alguns segundos e, apalpando, imaginando estar pegando no objeto com o espírito guerreiro aprisionado, a tatuagem tomou volume e rapidamente transformou-se em adaga, liberando faíscas ao tocar sua ponta no chão.
Dois dias depois, em Paris...
O Boeing pousa fácil, a neve cai feroz. Leona pega sua bagagem de mão, indo direto ao ponto de táxi. Olhou para o taxista escorado na porta do carro e quase não estranhou o fato dele ser uma “drag queen”.
— Por favor, leve-me até a estação ferroviária central!
Leona não queria perder nem um minuto, indo direto ao único elo de ligação que tinha em mãos: a chave de um bagageiro.
Durante todo o percurso ela sentiu sensações estranhas, como se todas as pessoas estivessem observando-a. Realmente em todas as ruas que o táxi passava, havia sempre uma pessoa direcionando-lhe o olhar. A energia espiritual é fascinante!
Chegando na estação, mesmo sufocada pela ansiedade, seguiu com naturalidade rumo aos armários de bagagem. Havia uma filmagem do que parecia ser um comercial sobre como ajudar aos turistas a usar os bagageiros ou como os golpistas assaltam os que usam os bagageiros. Esperou com uma paciência que certamente já não tinha, até que a coisa toda acabasse e todos fossem embora. Sozinha, finalmente utilizou a chave para abrir o bagageiro. Parecia incrível, mas aqueles momentos de suspense pareciam rotina para nossa corajosa personagem.
Leona pegou a única coisa que achou dentro do bagageiro e desapareceu do local. Mais tarde, ao chegar a um hotel no centro de Paris, pediu uma suíte e exigiu que não fosse incomodada, alegando estar muito cansada. Quando na suíte, fechou as cortinas e abriu o envelope.
Após decorar o escrito Leona colocou fogo na carta e decidiu comprar um mapa da Cidade Luz. Parecia que tinha um plano traçado em sua mente. No dia seguinte ela encontrou o apartamento de Raio de Fogo, iniciando uma investigação para saber como, onde e quando arrancar a informação que desejava saber.
Leona:
Presumo que esteja lendo estas informações em um local seguro. Antes de qualquer coisa quero agradecer por ter atendido meu pedido de socorro.
Sua missão parecerá muito simples, talvez até fácil demais. Mas não se engane quanto ao grau de dificuldade que ela representa. Desde o momento em que você apoderou desta carta, sua vida passou a ser tão valiosa quanto sensível. Agora você tornou-se ao mesmo tempo a caça e o caçador.
Pertenço a uma organização onde nos denominamos Lobos. Por enquanto não interessa o que ela significa, apenas faça o que achar que deve fazer. Há um Lobo alemão que se separou da organização e descobrimos que está em Paris. Jamais permita que saiba o que você sabe. Ele fez algo muito errado e precisa pagar pelo que fez. Contudo ainda não temos provas suficientes para condená-lo e é exatamente nesse ponto que você entra. Ele mora em um prédio próximo a um albergue chamado “La Mie de Pain”. Seu nome é Greg, mas nós o chamamos de Raio de Fogo. A única coisa que quero de você é que descubra se em algum momento de sua vida, deixou de salvar a vida de um Lobo para salvar a humanos. Nós sabemos o que ele fez e você nos dará uma prova disso.
Irmã, para sua segurança não haverá mais contato entre nós.
Nos veremos na Torre Eiffel, dia dez, portanto você terá tempo suficiente para atingir seu objetivo.
Richard Brid
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