Capítulo V - Leona entrevista um Lobo
Cinco de fevereiro
A neve parou de cair na Cidade Luz. Paris só não está mais linda por causa de um atentado a bomba; ocorrido em uma estação do metrô próximo ao Museu do Louvre. Raio de Fogo caminha pelas ruas meio ressabiado. A cidade não é seu habitat natural. Quase todos os dias ele faz sua caminhada e sempre pára em vitrines que tem televisão ligada. Ambulâncias passam a toda velocidade, o que irrita profundamente ao selvagem Lobo que não suporta sirenes. Leona acha isso estranho e começa a reparar sua predileção por um programa de entrevistas que passa sempre às dezenove horas. Foi neste momento que ela teve uma grande idéia:
— É isso! —bateu com a palma da mão em sua testa.
Comprou um gravador portátil, pregando nele um adesivo da rede de televisão que exibia o programa de entrevistas. Reparou na maneira de vestir e no corte de cabelo da maioria das jornalistas francesas e copiou cada detalhe. Colocou uma fita no gravador e fez um teste de gravação. Tudo certo!
— Claro que ele vai conceder uma entrevista à uma linda e elegante jornalista francesa! —Leona caminha pelas ruas, conversando sozinha. Parece falar de brincadeira, mas seus sentimentos demonstram que há sentido algo mais por aquele estranho homem.
Seis de fevereiro
O tempo fechou e a neve agora cai a passo. Mesmo assim Greg não abre mão de dar seu passeio que se tornara rotina.
As ruas estão vazias, entretanto lá está ele na frente da vitrine. Leona não entende o porquê e mesmo intrigada não dá muita importância, aproximando-se e naturalmente abordando-o.
— Boa noite! O Senhor é estrangeiro? —perguntou Leona, com jeito de quem o achou com cara de estrangeiro.
— Sou, por que a pergunta? —Raio de Fogo adquiriu fúria apenas pelo susto levado.
— Eu sou jornalista e estou fazendo uma matéria sobre o que os estrangeiros acham de Paris. O senhor pode conceder-me uma entrevista? —a neve aumenta a intensidade.
O lorde não quer conversa e põe-se a andar, liberando pilhérias. Leona segue atrás, insistindo na entrevista.
— Espere! Você é tão elegante, seria ótimo poder entrevistá-lo em um programa de televisão —ele não era nada elegante.
— Esquece, não estou disponível! —Greg está profundamente irritado, apresentando uma visível deformação em sua face.
Leona enxerga seu rosto e associa rapidamente com o de seu irmão. Ela já vira aquele rosto desfigurado no passado. A corajosa jornalista dá uma parada no meio da rua, pondo-se a pensar; respira fundo e insiste, sem notar que agora estão em uma rua deserta.
— Como é seu nome? —pergunta ainda meio distante.
— Greg! —responde seco e com sua voz rouca.
Os dois pararam no meio de um beco e começaram a discutir. Leona percebeu que sua estratégia fora por água abaixo, ou melhor, “por neve abaixo”. Por um segundo os dois ficaram em silêncio, parecendo tomar fôlego para mais uma bateria de troca de elogios. Leona percebeu o que seria a sua melhor oportunidade. Ambos olharam-se no fundo dos olhos e ela o abraçou velozmente, dando-lhe um pseudobeijo apaixonado; ele caiu!
— E agora, vai negar o pedido de uma mulher apaixonada? —Greg é lupino, mas não é “frutinha”.
— Acho que você está correndo um grande perigo estando comigo. Mas já que insiste!
— Adoro o perigo! —irônica e maquiavélica.
O Lobo da Bavária mais parecia um cachorrinho domado, despedindo-se de sua nova garota e marcando o dia e o local da entrevista.
— Nos veremos então amanhã as vinte e duas horas, naquele café —apontou à um restaurante na esquina.
Talvez exista algo realmente espiritual no restaurante escolhido por Greg, porque há sempre um Lobo por perto, seja marcando encontros, passando, farejando Vampiros ou apenas para tomar uns tragos em suas whiskerias alucinantes. Em meio a tantas guitarras renomadas e enfeitiçadas pelas mãos dos deuses da música, perambulam milhares de pessoas, cada uma com seu pensamento uno, desenvolvendo suas pseudoidéias e paranóias, a partir do frisson transcendente em cada objeto ali presente. O garçom cabeludo e de nariz protuberante, sempre alegre e divertido é daqueles que fazem qualquer suicida tornar-se um amante da vida. Sente-se na whiskeria e absorva grandes e filosóficos pensamentos de um barman francês, eclético e inspirador. Ande pelo bar e se for capaz, olhe nos olhos tísicos daquele drogado encostado na parede ao lado do quadro de um cantor famoso e descubra que o que está ali parado é na realidade apenas um fantasma perdido, adorador eterno de seu deus enlouquecido.
Leona voltou ao hotel e decidiu dormir cedo para estar descansada. Jantou ali mesmo no restaurante do hotel, sempre pensando naqueles lindos e assustadores olhos azuis de Greg. Parecia hipnotizada por seus próprios pensamentos.
Não demorou muito para que Leona caísse em sono profundo, logo mergulhando em um sonho de extrema realidade. Sentia-se como se estivesse caindo no vazio; seus cabelos sendo açoitados pelo vento. Caía cada vez mais rápido e aquilo parecia que não iria acabar. Não conseguia se despertar e muito menos alterar seu próprio sonho que a cada segundo dava mostras de ser mais real. Então ela começou a visualizar outro corpo caindo; era um homem e aproximava-se sereno. Estava tudo negro, não havia terra e muito menos céu, apenas reflexos de luzes esverdeadas produzidos pelo vento que se deformava ao tocar os corpos dos dois; parecendo ter vida própria. Leona estendeu seus braços em direção ao estranho homem que se aproximava, e ele a tocou demonstrando afeto. Era Greg; e eles realmente estavam ali. Olhos azuis observando um ao outro em uma simbiose hipnótica; intercâmbio de energias de uma dupla evolutiva. Greg observava Leona com amor e a permitia sentir esta energia apaixonante, ao mesmo tempo em que Leona percebia que ambos já estiveram juntos em outras vidas. Um inoportuno ruído preenche o vazio. Era o despertador avisando que já é hora de parar de sonhar.
Sete de fevereiro
A neve, todavia não havia começado. Fiz questão de dar uma passada na vitrine onde Greg costumava ir, contudo desta vez ele não compareceu, deixando-me preocupada com a veracidade de suas palavras. Talvez ele tivesse marcado o encontro apenas para livrar-se de mim ou ganhar tempo. Pode ser que ele não esteja mais na cidade e minha missão certamente terá sido um fracasso, correndo o risco de nunca encontrar meu irmão; verdadeiro motivo que me trouxe a Paris.
São nove horas e a noite está bastante fria. Leona caminha furtiva pelas ruas iluminadas e cinzas de Paris. Iluminada por deuses e pela lua a neve amontoada pelos cantos dá o tom macabro e ao mesmo tempo impressionista. Ao longe reluz o luminoso do tão famoso bar do rock, avisando que é hora de tomar certos cuidados.
Tocada pela música refinada de uma flauta gélida e tísica, Leona tira algumas moedas de sua bolsa de couro legítimo, agradecendo ao velho solitário. Seguindo em frente, contra o vento forte e lacerante, vai de encontro ao momento que desde Londres ensejava aficionada. Carros lentos e anônimos, táxis, paisagens épicas de uma pintura pastel. Velhos caminham vitoriosos apoiando o peso de suas histórias em bengalas bizarras. Olhos de Lobos aparecem atrás de infindáveis janelas, encobertos por cortinas não tão espessas quanto à lendária Cortina de Ferro. Leona cobre seu rosto com a gola longa de sua capa, adentrando no local do encontro.
Sentei em uma daquelas mesas de canto que ficam no fundo do bar. Pedi uma dose de whisky, sempre observando o único acesso ao estabelecimento. Agora são vinte e duas horas, e nada do meu “Lobo” chegar. Um barman muito encantador abordou-me, expressando um sorriso, colocando o whisky na mesa e fazendo uma pergunta gentil:
— A Senhorita deseja mais alguma coisa? —pensei comigo mesma... «Você!»
— Não obrigada! —claro que meu sorriso foi especial.
Um jovem de apenas treze anos, vestindo um macacão vermelho, camisa amarela e botas largas, veste-se rapidamente, dando descarga no vaso do banheiro. Lava em seguida suas mãos e, quando já estava do lado de fora do banheiro, sua mãe o aborda dizendo:
— Não esqueceu o seu boné lá dentro... Esqueceu? —desprende um olhar sério, mas gentil.
— É... Esqueci! —ele volta para pegá-lo e ninguém entrou no banheiro neste mesmo tempo.
O garoto volta, pega seu boné e vê um homem estranho penteando o cabelo na frente do espelho. Ele tinha certeza de que estava lá sozinho. Assustado, sai a toda pressa.
— Mamãe, tem um fantasma no banheiro!
Leona vê a mãe saindo do bar, segurando na mão de seu filho que muito resmunga. Nada do bastardo chegar. O som de Hendrix não para de tocar e diversas pessoas começam a surgir.
Minha visão parece embaçada, não sei se foi por causa da bebida ou outra coisa qualquer. Logo percebo um homem subindo as escadas que levam ao banheiro. Fiquei estarrecida porque não o vi passar por mim e faz algum tempo que cheguei. Como pôde sair do banheiro sem ter entrado nele? Greg aproximou-se sentando diante de mim sem a menor cerimônia. Desta vez ele parecia estar mais tranquilo, até pegou em minhas mãos e falou algumas palavras bonitas. Eu apenas tinha que fazer a coisa direito. O tempo foi passando e até descobrimos que tínhamos muita coisa em comum. Greg adora a vida no campo e é fiel protetor dos princípios da ecologia. Eu sempre gostei de estudar antropologia e ele adora estudar sobre a hostilidade da cultura do homem.
— O homem é engraçado —Greg joga conversa fora—, vive em um pequeno aquário e joga fezes na água, como se isso não fosse afetá-lo. Vocês são tão engraçados! —enfatiza.
— Vocês! —ela não entende.
— É... Nós, os humanos —despista sem maiores dificuldades—. Vamos começar a entrevista logo, porque não vejo a hora de sairmos daqui para divertir um pouco —todo convencido da conquista.
Leona ligou o gravador e começou a fazer uma série de perguntas, prontamente respondidas pelo Lobo à sua frente.
— O que você gosta de fazer aqui em Paris?
— Não saio muito!
— E as mulheres daqui, são realmente atraentes?
— Atraentes e sofisticadas, fazem sexo com arte e...
— O que significa para você... Não acredito!... Mesmo?... E o que você fez com ela?... —intermináveis perguntas, prontamente respondidas.
No meio da entrevista Leona instila um tom de humor em suas perguntas e furtivamente vai distraindo o lorde. Usando um toque de sensualismo, com pinceladas de psiquismo, a garota do bairro do Leblon vai criando situações embaraçosas; quando finalmente joga a pergunta fatal. Com a progressividade do diálogo, tudo leva a crer que o lobo-solitário tropeçará em suas próprias palavras. O tempo vai passando e Greg não está acostumado a alcoolizar-se. Vai bebendo doses de whisky sem se preocupar; em pouco tempo seus sentidos aguçados vão tornando-se imagens borradas.
— Em algum momento de sua vida você deixou de ajudar um Lobo para ajudar um humano?
Leona faz a pergunta sorrindo bastante, como se fosse tudo muito natural e sem importância. Greg responde sem pensar, com sua voz alterada pelos cinco litros de whisky ingeridos:
— Uma vez eu estava em Nuremberg e vi alguns Lobos caçando uns humanos que estavam acampados. Eles queriam realizar o Ritual da Carne, abrindo um fosso bem fundo no meio de um bosque virgem, invocando espíritos doentes e desossando a humanos para jogá-los dentro. No meio da caçada eu os arremessei em um despenhadeiro, mas todos nós acabamos caindo nele porque o solo estava se desprendendo —ele ri muito enquanto fala—. Os humanos se seguraram em mim e os dois Lobos também. Eu sabia que não suportaria todo aquele peso e a árvore que eu segurava-me tinha as raízes fracas e estavam soltando-se. Foi então que eu resolvi dar um empurrão nos bastardos e eles caíram lá de cima. Era muito alto!... Salvei sim os humanos, salvei! Mas não me arrependo nem um pouco, pois minha vida estava em risco! Confesso que eles ficaram totalmente horrorizados com minha aparência, saindo em disparada pela floresta.
Leona rapidamente lança outras perguntas e muda de assunto. Um garçom conversa com Raio de Fogo e neste meio tempo Leona troca a fita do gravador, escondendo a prova no bolso interno da capa. Raio de Fogo parece não estar muito bem, arremessando frases neuróticas seguidas de rosnados patéticos.
— Vamos embora daqui! —Leona apenas deseja sair de sua vida—. Eu levo você à casa.
Conta paga; a neve fina cai com suavidade. Os dois, abraçados intimamente, dirigem-se à estação do metrô, que não está longe. Logo entram em um beco, onde ao fundo há um grande luminoso. Leona tem sentidos aguçados, mesmo ainda adormecidos. Por um relance sente uma forte presença, pensando:
— Onde estará Marcela?
Marcela segue Leona...
Olhei no relógio e percebi o avanço das horas. Capturei uma flanela que há muito estava esquecida embaixo do banco, rapidamente passando-a no pára-brisa embaçado daquele velho carro do período neolítico, pois queria enxergar melhor algo que eu percebera no fim de um gueto suspeito. Não estava ali aleatoriamente, nem mesmo por razões psicóticas ou não fundamentadas. Eu possuía provas realmente concretas do que estava procurando, apenas não conseguia acreditar no fenômeno. Uma fina neve começou a cair, dificultando a observação. Por um momento tive a impressão de ter visto algo movendo, mas certifiquei de que não era nada real. Houve um estrondo estranho; vultos no crepúsculo. Eu tinha certeza de que não era paranóia minha, pois sempre tive uma boa audição. Aproximei o rosto ao pára-brisa, na tentativa de ver melhor. —o semblante de Marcela foi iluminado por um grande luminoso publicitário que estava no alto de um prédio, ao lado de uma famosa perfumaria da capital francesa.
Jamais cogitei a possibilidade de sentir tal delírio, pânico, assombro, ou qualquer outro significado possível de existir, que descreva o que vivi naquela noite fria e perene, ao mesmo tempo em que me deparei com o que eu realmente buscava há tantos anos.
Raio de Fogo, quase sóbrio devido a sua rápida regeneração, percebe os sentimentos da senhorita Brid. Leona vê a luz do grande luminoso publicitário, refletida nos olhos de Greg. Ele desperta-se! Ela olha para o fundo do beco e vê um carro estacionado. Dirige então o olhar novamente a Greg e não o encontra. Assustada, Leona saca sua espada que rasga sua calça, olhando rapidamente ao fim do beco e não acreditando na cena.
O estrondo que ouvi eram umas latas de lixo ao serem remexidas por um cão perdido. Quando já respirava aliviada, senti uma forte presença de um ser superior ao meu lado.
Marcela há anos está investigando a vida da família Brid. Desde que vira aquela espada nas mãos de Leona, concluíra que tal objeto só poderia tratar-se de uma arma sobrenatural. Seguiu então sua melhor pista indo parar em Paris, na busca por uma prova concreta da existência de Lobos. Os Lobos possuem o poder de perceber a energia das pessoas. Quando passavam próximo ao beco, Greg sentiu que estava sendo observado, e por sua característica selvagem resolveu atacar.
Que momento horripilante e inacreditável! Não havia um só músculo de meu corpo disponível a ajudar-me naquele instante de pavor. Aqueles poucos segundos me pareceram séculos; naqueles poucos segundos, senti a dor de uma espada em chamas entrando em meu ventre... Mesmo sem haver sido tocada.
Tomou forma de um homem lobo, seu pêlo reluzindo em tom vermelho grená. Raio de Fogo babava fúria! Com golpes fulminantes, partiu a lataria do carro de Marcela, indo de encontro à sua presa. Marcela gritava muito, mas sua voz lhe faltava. Raio de Fogo pegou-a pela jaqueta, atirando-a fora do carro que liberava uma forte fumaça da bateria despedaçada. Marcela bateu com a cabeça em algumas latas de lixo; vertigens!
Greg saltou sobre ela em uma fúria frenética, sendo logo interrompido por Leona, que abriu um ferimento agravado e profundo em seu ventre.
— Morre!... Seu maldito, desgraçado! —Leona o surpreendeu.
Greg, gravemente ferido, caiu no chão em metamorfose e desprendendo forte ganido. Com uma forma humana meio deformada, sacou sua adaga, saltando por sobre o carro e galhofando do golpe certeiro de sua nova inimiga mortal.
— Bastarda! —rosnou furioso o escarnecido—. Ela é o inimigo! —apontou para Marcela que estava caída ao chão—. Veremos quantos golpes dará em um segundo, pois é o que lhe resta de tempo nessa sua vida medíocre.
Espada aparando outra espada, adagas liberando centelhas, clamando por energia e morte. Raio de Fogo é infinitamente mais forte que Leona, mas o espírito guerreiro da espada de vidro persiste. Golpes fulminantes; carros sendo partidos ao meio. Quanto mais ela aguentará? Marcela não dá sinal de vida.
— Maldito! —grita—. Ela não é o inimigo! —tenta dialogar ao mesmo tempo em que esquiva.
Ao longe é percebido o som da “cavalaria”. A polícia francesa aproxima-se rápida, tirando o silêncio das ruas desertas e brancas. Leona dá um grito de pavor a cada golpe do lorde. Em um vacilo primário Greg engancha sua adaga na lataria de um carro. Corajosa, Leona aproveita para deixar mais uma marca no monstro, abrindo uma chaga em seu ombro esquerdo. Ele grita, alucinado:
— Maldita! —sua fúria é latente.
Golpes e fagulhas, uivos mortais ecoam pelas paredes dos prédios. Tiros de fuzil arrebentam carros e latas de lixo.
— Larguem suas espadas! Polícia!
Greg enxerga o momento da fuga, entrando no mundo dos espíritos através do pára-brisa espelhado de um carro esporte que passava nesse mesmo instante. O motorista, em presságio, assusta-se com o inevitável atropelamento, parando bruscamente a sua “bugatti” espartana. A neve o faz deslizar um pouco, sendo contido pelas latas de lixo. Um susto!
Leona não acreditara no que vira. Greg desaparece no reflexo do pára-brisa, que de relance parecia produzir ondas; a polícia disparando para todos os lados. Ao mesmo tempo Marcela levanta-se, começando a correr em delíquio, rumo às escadarias da estação do metrô. Sua amiga a persegue, orando para não ser atingida pelas costas.
Marcela em desespero entra em um vagão vazio e acomoda-se, sendo torturada por silenciosos segundos de espera. Ecos na estação desabitada. Cheiro de sangue.
Uma cortina toma forma na mente de Marcela. Uma paranóia causticante domina sua mente. Seu raciocínio humano não a permite acreditar nos fatos. Tudo parece ter sido um sonho ruim, mas seu sangue é real.
—Cristo! Como pude machucar-me tanto? —seu corpo estremece pálido.
Finalmente ouve-se o timbre. Leona ainda consegue entrar em um vagão logo atrás, sendo percebida por Marcela que começa a correr desesperada em sentido contrário. — Os vagões estavam vazios, salvo a presença de uns poucos velhos mendigos. — Marcela está cansada, sendo logo alcançada por Leona, que a segura veemente pela cintura e aos berros:
— Calma! Calma! Eu não quero te machucar!
— Não!... Não! —ela se debate exausta.
— Por favor, escute-me!
Marcela esquiva-se a todo custo. Mesmo sabendo o que procurava por tanto tempo, calculou mal a intensidade de pavor que um delírio poderia provocar. Passa a euforia inicial; ambas sentam-se e Marcela abraça sua amiga, liberando um choro gritante entre soluços estalantes e às vezes parecendo serem dolorosos.
Nunca imaginei a possibilidade de existirem seres tão horripilantes e hostis. Quando Richard fez referência à “Lobos” em suas cartas, pensei que se tratasse de sociedades secretas ou algum tipo de organização criminosa. Lobos existem e meu irmão é um deles. Como poderei viver minha vida, sabendo que realmente existem? Agora sei o que queria dizer Richard com aquela frase: “No espelho vejo as dunas, mas não me vejo!” Sua face desfigurada, era por estar perdendo o controle do monstro que existe dentro dele mesmo. Tudo o que quero é encontrá-lo o mais rápido possível, podendo desta forma esclarecer todas as minhas dúvidas. Em minha cabeça os fatos estão tão transparentes quanto confusos, mas há algo que devo resolver de imediato:
— Marcela! —colocou suas mãos no rosto de sua amiga—. Que diabos você faz aqui?
Respondeu ainda soluçando:
— Eu... Eu trabalho em um projeto secreto que pesquisa fenômenos sobrenaturais, e... —em silêncio, olha nos olhos de Leona Brid—. Desde sempre estou próxima de você com o propósito de localizar seu irmão! —Leona expressa desolação, balançando a cabeça em negação e continuando em silêncio—. Nossa amizade é real... Mas, nunca passei no teste para entrar na universidade inglesa. A Interpol é a responsável por todo o meu sucesso acadêmico, pois somente assim eu poderia estar sempre junto a você.
O metrô desacelera e Marcela arrepende-se profundamente.
— Desculpe-me! Sempre ouvimos histórias de Lobos e... Afinal, lendas são lendas, mas...
— Mas a verdade é que os Lobos realmente existem, e agora nós sabemos a verdade.
— Vamos fugir enquanto é tempo! —o metrô parou e as portas abriram-se.
— Não! Ainda temos que encontrar a Richard.
Elas saem do vagão, apressando caminho rumo ao banheiro de um bar da estação. Ainda confusa segura nas mãos de Leona e, apavorada, implora:
— Por Deus! Deixa isso de lado e vamos embora de Paris. Seu irmão é um ser sobrenatural e quanto mais perto estivermos dele, mais risco estaremos passando! —cruzam novamente os olhares.
Entretanto Leona está obstinada em encontrá-lo:
— Vem comigo. Você estará segura a meu lado.
Dentro do banheiro Marcela lava-se com cuidado, deixando a pia cheia de sangue. Olhando-se no espelho, cai em si e percebe que todo o ocorrido foi real. Leona permanece intocável, emanando uma energia que nunca havia sentido.
— Vamos! Necessitamos um esconderijo... pelo menos até o dia dez.
— Dia dez?
— Sim! Foi o dia marcado por Richard para encontrar-se comigo na Torre Eiffel.
— Oh não! Isso não vai acabar bem!
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