Capítulo VII - Você é o rei!
Abandonamos o metrô e seguimos rapidamente em direção à avenida mais próxima. —Marcela expressa segundos de pânico, parecendo congelar-se—. Andamos durante algum tempo procurando um hotel e mesmo com tantas circunstâncias desfavoráveis para uma escolha mais apurada, o que despenderia um tempo que no momento não dispúnhamos, acabamos por ficar no Hotel Alexander que está situado na rua Victor Hugo; um hotel três estrelas aceitável. Antes de entrarmos arrisquei um olhar ao ainda distante Arco do Triunfo, relembrando tantos momentos felizes que passei nesta cidade e agora vivíamos uma realidade completamente hostil.
Claro que não tínhamos reservas para este hotel. Estávamos um pouco fora de lugar, mal arrumadas devido aos acontecimentos da noite, contudo, com um pouco de sorte conseguimos uma suíte. Minha amiga tomou um banho e foi à cama. Procurei fazer alguns curativos em seus braços que possuíam profundos e agravados cortes; Marcela com uma bolsa de gelo na cabeça. Empreguei quase todo o material de primeiros socorros que eu havia adquirido em uma farmácia local. Dei-lhe sedativos e logo dormiu.
Enquanto eu observava a pulsação e a temperatura de minha amiga, detive-me por alguns instantes e comecei a relembrar de todo o ocorrido. Ao vislumbrar a cena onde Greg fugia de maneira miraculosa, percebi que em realidade ele seria capaz de fazê-lo novamente, sendo necessário apenas um reflexo no espelho.
Os Lobos têm uma ligação muito forte com o mundo dos espíritos. Por esse motivo conseguem estar fisicamente no mundo etéreo, fazendo o que eles chamam de “veredas” para viajar de um ponto a outro no mundo físico.
Leona entende o que poderia acontecer. Rapidamente corre ao banheiro e quebra o espelho com um cinzeiro de porcelana. Assustada, amarra o cabelo e senta-se no canto da banheira. Coloca a mão na cabeça e por alguns segundos respira aliviada. Parece anestesiada! Levanta-se e ainda no banheiro molha seu rosto na pia, lançando um olhar e percebendo a sua imagem refletida no espelho d’água que formava-se sobre tímidas ondas na banheira. De súbito, abre o tampão e bate na água, até que a banheira finalmente secou.
Oito de fevereiro. Ainda!
A manhã parisiense estava gélida, mesmo sem cair a neve que, insistente, caiu durante a madrugada. Apenas os habitantes mais tradicionais arriscam-se a passear em uma das principais áreas verdes de Paris, percorrendo “Bois de Boulogne” com seus cachorros de pêlos longos. Pessoalmente acho este hábito um pouco demasiado, pois neve e fezes de cachorro tornam-se uma combinação explosiva e nada agradável.
Agora novamente juntas, Leona e Marcela possuem uma missão nada fácil nesse mundo de monstros. Manterem-se escondidas dos Lobos será algo no mínimo ousado, ou melhor, quase impossível.
— Aonde você vai? —Marcela levanta-se assustada, ao ouvir o som da porta abrindo-se.
— Não se preocupe, apenas darei umas voltas para tentar oxigenar e iluminar minha mente. Pedi que trouxessem seu café da manhã —Leona sorri, demonstrando segurança—. Agora fique deitada e procure descansar. Logo voltarei —carinhosamente fechou a porta, despedindo-se de sua amiga.
Ainda frio, mas não há neve, ainda há sombras e Celestinos. Os espelhos ouvem sons tísicos que ecoam das mais altas montanhas. Lobos-solitários perseguem suas presas, estranhas presas em delírio. Contra o sonoro vento seu rosto peregrina, expressando coragem e solidão.
— Onde estará Richard? —Leona caminha insólita, atravessando uma das muitas pontes do Rio Sena e avistando a Catedral de Notre D’ame. Ainda não sabe o que procura, mas suas pernas, decididas a caminhar, parecem sussurrar o caminho certo.
Espadas medievais e armaduras épicas, pseudo-artefatos históricos, expostos na calçada, guardados por um antipático ancião e sua respectiva e não muito educada senhora. Seria apenas mais uma daquelas lojas de bugigangas européias, não fosse algo realmente concreto que Leona percebera em meio a tanto realismo fantástico. Uma espada, exibida bem na calçada da loja de quinquilharias, que mesmo empoeirada ainda produzia expressivos reflexos. Um objeto comum na vida de cidades como Sevilha, Toledo ou mesmo Munique, mas especial por exibir seu brasão esculpido rasgado no metal. Leona aproxima-se.
— Ora, ora! Olha só o que temos aqui —está impressionada—. É idêntica à minha adaga, apenas não há diamantes —. O que poderia tornar esta espada insignificante em relação à sua? E se fosse tão poderosa quanto a sua, talvez não estivesse ali, exposta e empoeirada.
Leona observa calada; o vento sopra gelado. Os movimentos de seus olhos não acompanham seus pensamentos; e eles voam. Ela toca, segura e a empunha. Com seu lenço branco, dá brilho e vida. O velho vendedor aproxima-se, resmungando em francês de sotaque carregado dos “arrondissements” parisienses.
— Não toque! Não ponha a mão, por favor! —toma rudemente o artefato de suas mãos, recolocando-o em um suporte de espadas. Voltando-se para mais uma bateria de insultos, silencia-se assustado ao visualizar o brasão da espada tatuado no punho direito da intrigada cliente. Engasgado pergunta—. Para que quer outra espada se já possui a sua? —há grandes e antigos espelhos dentro e fora da loja—. Aqui você não está segura! É melhor que desapareça enquanto há tempo.
A esposa do vendedor, mesmo distante, estende os braços em direção a Leona. Seus olhos parecem refletir uma enorme fogueira. Leona arregala os olhos não acreditando na cena. A anciã recita:
— Aquele que julga como mal, com o tempo verá que é a luz! —sua voz idosa, carregada de fadiga, cansada tremula—. Aquele que persegue com a prata cortante, logo tornar-se-á o rei! Supere seus sentimentos passados e lute! Mas antes saia das sombras, porque a glória unicamente será alcançada por aqueles que escolham o lado da luz. Encontre seu destino e mostre a ele o caminho correto. Vá, Lobo! Vá!
Na calçada seu corpo fraco cai. Carros passam anônimos, cortando o vento e almas. Leona olha novamente para a espada, o velho socorre sua esposa amada e a neve não significa nada. Lágrimas.
— O que quis dizer a velha com essas confusas palavras? —Leona Brid pergunta-se incansavelmente. Aproxima-se dos velhos, limpa o rosto da anciã que caiu sobre a neve—. Por favor, senhor, o que ela quis dizer? —o velho calado, abraçado não fala—. Vamos, diga-me! É um caso de vida ou morte! —seu diálogo francês é perfeito.
Um dos espelhos da calçada começa a produzir ondas, abrindo um portal espiritual entre o mundo extrafísico e o físico. Leona não percebe, continuando a encarar o amável ancião, que diz:
— Fuja enquanto pode! Posso sentir a Destruição em seu encalço. A Destruição está próxima demais da superfície e você ainda não pode perceber tal energia.
— Destruição? De que superfície está falando?
Uma magnífica luz, um abismo para a eternidade, um portal de fogo, mundos, estrelas e a escuridão. Vejo portais dando passagem para o mundo físico; vislumbro reinos distantes e espíritos. Vejo a lua iluminando a Terra, a ponte para a lua e minha alma. O mundo dos espíritos é minha essência, sua energia seduz e seus perigos são para mim um jogo de xadrez. Ah, que bom é fazer uma viagem espiritual! Foi por minha facilidade em lidar com o mundo dos espíritos que denominaram-me Sombra de Sepultura. Nós, Lobos, temos a capacidade de estar fisicamente no extrafísico. Alguns Magos dizem que em verdade somos psicóticos pós-morte, que assumimos uma realidade mental e a temos como verdade absoluta. Entretanto estão longe de chegarem onde estamos.
Sombra de Sepultura vai à frente, desbravando o desconhecido, seguido logo atrás por dois lobos solitários, caminhando lentamente sobre uma infinita ponte para a lua. Espíritos de luz passam através de seus corpos, e uma névoa insana segue sombria para o norte. Há estranhos vultos em um pseudo-céu estrelado. Às vezes podemos ver o mundo físico a formar-se em distantes e profundos abismos da Ordem. Na escuridão profunda pode estar a Destruição; e na longínqua, mas poderosa luz, temos sempre a certeza de que ali estão os Celestinos.
— Onde diabos você está levando agente, velhinho? —Mordida de Sangue não expressa a mesma paciência que tinha no início da caminhada—. Você não nos estaria enganando, estaria?
— Seja paciente! Sábio é o Lobo que ouve, sente, enxerga o perigo eminente e, calado, arma o bote certeiro!
Distante, próximo a um lugar que poderíamos denominar de périplo extrafísico, surge lentamente um portal para o mundo físico. Algumas vezes parecem estar caminhando por uma emaranhada floresta de folhas fluorescentes, que aparecem e desaparecem como por encanto. O ancião aponta o lugar e diz em voz rouca:
— Lá está Greg Raio de Fogo, entrando por aquele portal!
— Como pode saber, está tão distante e nebuloso? —Garra de Vento não acredita.
— Algum dia chegará ao nível que estou; então neste dia saberá o porque da minha certeza.
— Então sejamos rápidos porque quero arrancar-lhe o coração! —vociferou em tom cruel o vingativo Sangue.
Os dois iniciam uma corrida frenética em direção ao azimute indicado pelo velho. Em movimento acelerado, anéis de luz púrpura começam a formar um gigantesco portal. Ocultam uma verdade monstruosa e querem acabar com essa história mais rapidamente do que qualquer outra coisa nesse mundo.
— Esperem! Ainda tenho algo a dizer, antes que cometam suas loucuras —Sombra de Sepultura quer apenas livrar-se dos dois—. Façam o que quiserem, mas saibam que já cumpri com minha missão! Partirei agora e não tenho mais nenhuma obrigação com vocês —e completa, caminhando em direção às profundezas do mundo espiritual—. Que a Terra não permita que sejam capturados pelas garras da Destruição!
— O que disse? —Garra de Vento não presta a devida atenção.
Sombra de Sepultura perde densidade e desaparece na escuridão. Os dois lobos solitários seguem caminho em direção ao portal e Raio de Fogo penetra no mundo físico. Leona percebe o que já era evidente:
— Greg Raio de Fogo é o destino! Ele é o rei! —Leona começa a pensar como uma arqueóloga, investigadora de verdade—. Mas rei de onde?
Um grande uivo, um cântico de desafio; Lorde Greg Raio de Fogo aparece como por encanto, bem ao lado da irmã única de Richard Brid. Monstruoso, ameaçador, tenta levar sua inimiga ao delírio por meio de sua temível aparência. Leona levanta-se, tentando sacar sua espada; fracasso! Greg segura seus pulsos encostando-a na parede; conseguiu surpreendê-la.
— É corajosa, Leona! —sua voz é rouca e seguida de rosnados patéticos—. Mas sua coragem não vai servir de nada agora. Morra, infame!
Leona não consegue ao menos gritar perante a cena de horror em que é protagonista. Os longos pêlos de lobo reluzem em vermelho vivo e os relógios antigos da loja começam todos a tocar; sinistro som que se dilui entre finos sibilos da ventania que começa a soprar. Onde estará Richard? O lorde agarra Leona pelo pescoço e a sufoca; palidez. Definitivamente sem fôlego ela tenta sua última e inteligente cartada:
— Você é o rei! —e com o último resquício de ar que restava-lhe nos pulmões—. No outro lado, vejo você como um rei!
Greg relaxou seus músculos e ficou sem entender.
— O que você disse?
Na calçada o velho chora a perda de sua companheira. Suspiros! Em um espelho com moldura talhada em bronze, surgem os Lobos com corpos humanos e cabeças de lobos que tentarão aplicar um golpe mortal à sua caça. Novas sinfonias clamando por duelo; ou massacre. Raio de Fogo sente que ali não conseguirá defender-se. Olha para um lado e lá estão Garra de Vento e Mordida de Sangue, correndo em seu encalço. Do outro lado percebe o caminho da fuga, decidindo pular na direção de um espelho. Greg libera Leona e corre em disparada.
— Greg, não me deixe aqui! —gritando, segurou em seus ombros e implorou nervosa, revelando seu verdadeiro sentimento ao lançar-lhe um olhar apaixonado.
— Nunca deixaria você aqui!
— Eu sei! —meigo suspiro.
Greg não possui a vida toda para ensinar-lhe como fazer para entrar no mundo dos espíritos. Encontrava-se com sua cabeça em forma de lobo e precisou rapidamente realizar uma metamorfose, enquanto assistia a aproximação do inimigo. Seu corpo quase chega na forma humana. Ainda deformado, mas agora podendo falar como um humano, começou a conversar com sua pseudoinimiga:
— Imagine-se mergulhando em uma grande piscina —ele penetra o espelho, arrastando-a consigo; Leona grita muito ao atravessar o espelho, agarrada no braço do Lobo. Caindo em um abismo não físico, Raio de Fogo ainda tenta ajudá-la—. Não se solte de mim... —não deu tempo para avisá-la e Leona liberava gritos de pavor.
Leona acorda meio congelada; seu corpo coberto por uma espessa neve. Levanta-se e anda por alguns minutos, finalmente avistando uma cabana aparentemente abandonada. A nevasca é forte; bate na janela e ninguém abre. Grita por socorro, e nada. Sobe as escadas de madeira e tenta abrir a velha porta. Está escuro e encontra-se exausta. Senta-se em uma esquecida cadeira na varanda. Foi quando visualizou um castiçal caído ao solo, prontamente pondo-se a acendê-lo com seu isqueiro. Eram três velas, mas uma delas não se permitia acender. O vento tentava apagá-las, mas Leona protegia com sua mão. Força mais uma vez a porta e esta cede. Com receio, adentra na sala fria. A cabana está totalmente abandonada.
Móveis de madeira, poeira, muita teia; lareira! Trata logo de acendê-la, enquanto questiona a si mesma:
— Como pude vir parar aqui?
Caminhando pela floresta gelada, Greg sabe que está nos Alpes Suíços, na região de Jungfrau, mais precisamente próximo a uma pequena cidade chamada Jungfraujoch.
Greg Raio de Fogo cansou de tanto fugir. Em uma clareira próxima a uma cabana, repleta de toras de madeira e alguns machados de cortar lenha, olha para trás e percebe a aproximação do inimigo. Forma humana deformada, ele inicia sua transformação; sua espada refletindo o ódio da expressão de seus olhos. Ele grita, intimando a quem está em seu encalço:
— Tu, animal rastejante, cuspido das profundezas de grandes lábios de alguma genitália insana. Saia da escuridão que a ti oculta, saia das trevas e não te escondas! Aproxima-te, covarde! Quero ver minha adaga atravessando tua bizarra boca, senão minhas garras, que furiosas partirão teu ventre! —agora Garra de Vento já não consegue mais suportar tantas pilhérias. Imbuído de uma necessidade frenética de ver sangue, ele ataca—. Saia neste exato instante, pois quero ver teu sangue, logo mórbido, abandonar teu corpo! —a nevasca afasta-se e as nuvens abrem-se, dando passagem aos olhos da lua para que ela também possa presenciar o momento histórico.
Garra de Vento ataca, vendado por seu ódio fulminante. Em um golpe certeiro, Greg esquiva-se, e com a ajuda de sua espada, abre um ferimento agravado no pescoço do oponente. Com corpo musculoso e cabeça de um feroz lobo, Raio de Fogo lança suas garras nas costas de Garra de Vento que pela primeira vez, cai. Face deformada, Garra de Vento reage buscando forças das profundezas de sua alma.
Adaga beijando adaga. Lua cheia; face que brilha branda na neve. Golpes lacerantes valorizando a prata. Raio de Fogo sangra muito, mas Garra de Vento já não suporta mais o vigor de seu oponente. Em um cruzar de espadas, Raio de Fogo abre ferimentos agravados no ventre do desafiante, que pela segunda vez, cai. Arrastando suas patas na neve, desesperado, desnorteado tropeça; sua espada escapando de suas garras deformadas. De joelhos, sem reflexos, resta-lhe apenas jogar-se ao chão, rastejando em sentido contrário ao seu destino. Furioso, assassino, crava suas corrompidas garras na lenha seca. Gira seu corpo expressando profunda dor e, fora de si, desmaia. Vertigens! Ruidosamente, Greg segura com mãos de aço, o machado dilacerante. Sem piedade, certeiro, divide o crânio do oponente, que morre. O machado de cortar lenha, ainda preso ao cepo co-partícipe, sua em vermelho quente, cor da vida e morte!
Luvas negras, espoliadas, expõem suas garras impregnadas de farpas e ódio. Greg Raio de Fogo gira em torno de si e tudo o que vê são florestas de pinheiros, um riacho de pedras gélidas com água das montanhas e uma pacata cabana com sua chaminé liberando tímidas cinzas. Abandona então o machado, pegando sua adaga que, fincada no tronco morto, assistia ao trágico fim de um maldito corrompido pela Destruição.
Raio de Fogo sabe que Mordida de Sangue está em seu encalço. Gravemente ferido ele sabe que não sobreviverá por muito tempo, mesmo sendo um Lobo poderoso. Respiração ofegante, mancando, para poder caminhar com mais velocidade transforma-se em um lobo selvagem, seguindo rumo a uma cabana que no momento aparenta ser sua melhor opção de abrigo. A nevasca reinicia-se com ferocidade.
Leona consegue acender a lareira e agora tenta esquentar-se com o calor que se propaga de tímidas chamas. Com uma velha panela de ferro, tenta descongelar um pouco de neve. Raio de Fogo usa sua metamorfose. Anômalo, como um monstro desmedido, arromba a porta e defronta-se com sua derradeira ajuda:
— Por favor, ajude-me! —há mais rosnados que palavras.
Sangrando, babando, com seus pêlos retendo a neve, Greg cai no piso de madeira. Na queda sua espada perde a ligação espiritual com seu corpo, vindo parar aos pés de Leona. Ela corre em direção ao Lobo, inutilmente tentando virá-lo.
— Mas como é pesado, este infeliz! —segura então a adaga, colocando-a com dificuldade em cima da mesa e deslumbrada pela sublime beleza de uma verdadeira espada real.
Greg começa uma lenta metamorfose. Desmaiado, vai transformando-se de um monstruoso ser para homem com cabeça de lobo, depois para humano deformado, para finalmente atingir a forma humana. Leona parece conseguir transportá-lo para uma velha cama de madeira e colchão de linhagem.
Sua água descongelou e agora ferve. Com alguns trapos ela limpa os ferimentos, tirando o sangue e lavando. A noite cai! Greg acorda e a primeira coisa que vê é Leona sentada no canto da cama, parecendo dormir.
— Obrigado —ele senta-se ao seu lado.
— Que susto! —assusta-se ao vê-lo despertar tão repentinamente—. Incrível! —observa seu corpo com admiração—. Como pode curar-se tão rapidamente? Havia cortes profundos, agora só há cicatrizes superficiais.
— Não se espante! Nos cicatrizamos em um piscar de olhos! Só não estou completamente curado porque a adaga do maldito era de prata, além de conter um espírito psicótico em sua essência.
Os Lobos podem aprisionar em qualquer objeto, espíritos de diversos tipos. Isso possibilita que utilizem a energia espiritual destes espíritos para seu usufruto. Neste caso havia um espírito que em sua última encarnação foi assassinado de uma forma hedionda, com muita dor. Agora ele está morto e sua consciência ainda pensa que está sofrendo como em seus últimos momentos de vida. Garra de Vento aprisionou este espírito doente em sua espada, o que faz com que um ferimento feito com esta espada cause uma dor insuportável, algo como se estivesse revivendo o que passou com esse espírito no momento em que foi assassinado.
— Eu sei!
— Parece que você já sabe muito sobre Lobos, não é isso certo? —uma pausa.
— Você está bem? —Greg levanta-se, indo à lareira.
— Já estive melhor! —fitando-a—. Ou pior!
— Aquela senhora da casa de espelhos, quem era ela? Parecia uma vidente, profetizando sem parar, falando-me coisas estranhas. Eu fiquei bastante assustada. Suas palavras salvaram minha vida... Ela também é uma Loba?
— Não, Leona, ela não é uma Loba. Possui poderes especiais e a esse tipo de humanos denominamos Magos.
— Você sempre tem respostas para todas as minhas perguntas. Não é assim?
— Digamos que procuro manter-me informado de tudo o que acontece ao meu redor.
Sentei ao seu lado na lareira, obstinada a saber de tudo. E se ele era realmente uma vítima, ou o vilão da história, eu descobriria neste exato instante.
— Por que você não me conta tudo o que sabe? Talvez eu possa ajudá-lo; ou no mínimo entenderei melhor o que está acontecendo e procurarei não atrapalhar!
Esta parenta de Lobo não é como outra qualquer. Há algo especial nela! Não sei se estou errado ou se meu instinto é quem me trai, mas ela é realmente especial.
— Meu nome, como você já deve saber é Greg Raio de Fogo. A diferença é que há um título antes do nome, o de Lorde!
— Você é Lorde Greg Raio de Fogo?
— Sim! Mas na verdade sou um príncipe, filho do Rei Átila da Bavária. Não é nenhum rei do mundo dos homens, não! É um rei do mundo dos Lobos.
— Mas por que o caçam se você é uma majestade? Por que não procura seu pai, sua família real?
— Não posso! —expressa desolação.
— Mas, por que? —Leona demonstra mais afinidade com ele, achegando-se para conversar.
— Caí numa cilada e agora tenho que provar minha inocência. Minha tribo odeia os humanos! Afirmamos que são eles que destroem nossa mãe, Terra —Leona assusta-se—. Você já sabe da história, mas o que você não sabe é que os humanos não morreram, foi um truque para distorcerem os fatos e poder acusar-me de trair os princípios de minha tribo.
— O que eles querem com isso?
— Meu pai está muito velho.
— Entendi.
— Sem herdeiro, quem assume o trono é o Rei Jukes Montanha de Fogo de Istambul, a quem servem esses malditos que me perseguem.
— Há tantos Lobos assim?
— Somos milhares, mas fomos milhões em um passado distante! E quanto mais vamos aproximado do dia em que a Terra morrerá, menos Lobos existirão!
— Como pretende provar sua inocência?
— Você! Terá que vir comigo e contar a verdadeira história.
— E por que acreditarão em mim? —demonstra preocupação.
— Em você, certamente não! Mas acreditarão em Richard!
— Como sabe sobre Richard?
— Sei mais coisas do que você poderia imaginar.
Leona parece encantada com o outro lado de Greg. Ela aproxima-se e dá um beijo em seu rosto, dizendo:
— Acredito em você e vou ajudar-lhe! —ela muda de assunto com a mesma rapidez de seus pensamentos—. Agora acho que temos que terminar a nossa entrevista, não é?
— Bom, acho que você ainda não me fez a verdadeira pergunta chave!
— E qual seria? —ele sente seu hálito feminino.
— Faça alguma pergunta do tipo... O que você faria se estivesse sozinho com uma linda mulher em uma cabana nos Alpes Suíços?
— Mostre-me!
Um beijo seguido de abraços, dois corpos cercados por espíritos de amor. O tapete da lareira vira um verdadeiro ninho, enquanto a fogueira assiste ao momento lindo. Despidos, provam que não era falso o sentimento vivido por ambos desde o princípio.
Greg gira rapidamente seu corpo e o dela. Agora por cima, Leona movimenta-se com mais liberdade, ajudada por seu companheiro que lhe penetra a alma, proporcionando instantes de prazer. Gemidos e respiração ofegante! Paulatinamente ela vai acelerando suas excitantes posições. Greg parece estar tomado por uma fúria sexual. Sem perder sua sensibilidade, vai agressivamente beijando o perfeito corpo de uma mulher agora apaixonada. O lorde atinge o ápice! Seu corpo transforma-se repentinamente, triplicando a massa muscular e deixando ver sua espantosa cabeça de lobo. Neste exato momento, o corpo de Leona é tomado por um longo e furioso orgasmo animal. Greg a acompanha nesta viagem, liberando um profundo uivo para demonstrar tamanho prazer. Sua energia é latente!
É madrugada e a neve cai. Caminha afoito pela floresta, tentando encontrar seu companheiro, até que finalmente o acha. Sua tocha ilumina um corpo estendido sobre algumas toras encobertas de neve; a cabeça pregada no cepo, o machado confirmando a morte violenta e um sinistro uivo liberado por Mordida de Sangue, lamentando a morte de seu amigo. Expressa um poderoso e evocativo réquiem dos caídos, e o enterrará, mesmo que leve a noite toda para cavar sua tumba.
— Tive um sonho muito profundo, no qual você fazia parte.
— Não foi um sonho. Realmente estávamos ali.
— Eu sei! —Leona expressa seu sentimento com um suspiro.
— Não se preocupe, logo tudo ficará claro.
— Então é verdade que estivemos juntos em outras vidas?
— Sim! E isso é algo lindo!
— Afinal... Você é um Deus ou um demônio? —Leona deita ao seu lado, abraçando-o com amor.
— Sou apenas um Lobo que adorou ser entrevistado por uma maravilhosa mulher!
Nove de fevereiro
Saímos logo pela manhã, ensejando alcançar algum vilarejo ou algo assim. Greg insistia que deveríamos subir as montanhas, e não descê-las, como eu pensava que seria mais fácil:
— Descendo montanha abaixo nós chegaremos a Interlaken, mas é muito longe e certamente não conseguirá chegar viva. Montanha acima nós chegaremos a uma estação de esqui. Ali haverá um trem que nos conduzirá até Interlaken. É uma longa subida, mas sinto que não está distante.
— Espero que você esteja certo!
Caminhamos sobre uma grossa camada de gelo e por sorte não estava nevando. Foram cinco horas de caminhada dura pelas montanhas, até que finalmente encontramos Jungfraujoch. Não chegava a ser uma cidade, na realidade mais se parecia com um centro comercial construído dentro da montanha. Estávamos congelados! Mesmo protegidos com os grossos tapetes que encontramos na cabana. Achamos uma entrada por onde saíam os turistas. Cheguei a ver alguns tirando fotos. Entramos!
Enquanto eu tomava um chocolate quente e comia alguma coisa, Greg procurava saber informações sobre o trem que transportava os turistas àquela estação de esqui; os turistas tirando fotos de mim. Greg se aproximou e sentou-se ao meu lado na mesa da lanchonete.
— O trem parte em dez minutos. Já comprei os tickets!
— Alguma novidade?
— Disseram que ouve um desmoronamento de neve, mas acredito que os trilhos já foram liberados.
— Ouvi você conversando em francês com aquelas recepcionistas. Afinal quantas línguas você fala?
— Inglês, francês, alemão, espanhol, português, Italiano, algumas línguas sírias e alguns dialetos indígenas da Floresta Amazônica.
— Já esteve no Amazonas? —despertou sua curiosidade.
— Sim, estive lá! Foi uma época em que eu precisava estar distante de tudo; você sabe... encontrar o significado das coisas.
— E encontrou? —metáforas.
— A Terra conseguirá resistir à força destruidora e incontrolável da Destruição! Foi a resposta que encontrei naquele lugar mágico! Também descobri que ainda há muito que defender!
— Defender o que? E... —está confusa—. De quem?
O apito do trem avisa que é hora de partir. Aos poucos a pacata cidade dos Alpes Suíços vai ficando para trás.
Através de longos túneis, lentamente o trem foi descendo a montanha. Fizemos algumas baldeações até que finalmente chegamos a Interlaken. A região leva este nome devido à sua localização entre dois lagos.
Após andarmos um pouco encontramos um heliporto. Com sorte, talvez conseguíssemos voar até Genebra, onde poderíamos pegar um avião para Paris.
— Greg, eu estou com meu cartão de crédito. Que tal se nós pegássemos um avião para Paris?
— Vou tentar mais uma vez achar uma vereda extrafísica, se não tiver como, então iremos nestas máquinas voadoras do homem.
Greg e Leona Brid caminharam algumas horas pela cidade, na tentativa de encontrar um portal com estabilidade o suficiente para que conseguisse conduzi-la por uma viagem espiritual.
Interlaken estava simplesmente um luxo! Há neve nos telhados das casas, lojas enfeitadas e turistas nas ruas, preparando para subir a montanha e esquiar. Era hora do almoço quando encontramos um elegante restaurante, bem no centro da cidade. Greg pediu muita carne e eu apenas o ajudei a comer.
— Greg... —ela inicia o diálogo.
— Sim Leona.
— Você está tão diferente. Na floresta eu percebia uma paz em sua face, mas agora, parece nervoso; tenso.
— Cada Lobo tem suas peculiaridades. Depende da tribo em que nasceu, da lua que reluzia no momento do seu nascimento e da região. Minha tribo é selvagem, somos agressivos e violentos —ela arregala os olhos—. Não suportamos viver nas cidades, muito menos em grandes centros urbanos.
O tempo melhora. Após a refeição dirigiram-se ao heliporto. Leona conversa com o piloto; sua cabeça ainda nas palavras de Raio de Fogo:
— Você acha que vai ser possível voar?
— A senhorita tem muita sorte! O tempo está muito bom hoje, em vista do que estava ontem. Não se preocupem, logo estaremos em Genebra.
Movimento normal no aeroporto de Genebra. Greg ainda não desistiu de tentar achar um portal sensível o suficiente para abrir uma vereda à Paris, levando consigo sua amada garota de corpo exuberante. Ele sai apressado pela porta do banheiro dos homens, encontrando Leona e dizendo:
— Acho que achei um portal que podemos confiar!
— Mas Greg... —puxa a Leona rapidamente, não lhe permitindo questionar.
— Sejamos rápidos! —olha para todos os lados—. Não sei por quanto tempo durará!
Banheiro vazio, Greg prontamente encontra-se penetrando o braço e o tórax pelo espelho. Leona quase não demonstra, mas o pavor a domina. Reflexos de luz púrpura invadem o banheiro.
— Não Greg, espere! —sua mão parece atravessar o espelho, sendo puxada pela cintura—. Acho que não vou conseguir alcançar! —ela afirma com veemência, segurando-se na borda da pia.
— Vamos Leona, rápido! —ele grita, sentindo que não há mais tempo—. O portal está fechando cada vez mais a cada segundo que passa.
Leona não vê que seu casaco havia enganchado na torneira da pia. Não há tempo para que Greg retorne.
— Greg! Não!... Estou presa!
O portal finalmente fecha e Leona é expelida por uma forte ventania energética. Na cena Greg ainda consegue gritar:
— Vá para a torre! Vá Leona, rápido! A torre...
Leona é atirada contra a parede, caindo de joelhos. Neste momento entram dois homens de terno e gravata, falando em alemão. Leona desconfiou que pudessem estar comentando sobre drogados, desses que ficam jogados nos cantos dos banheiros públicos. Ela levantou-se com cara de poucos amigos e, desajeitada, abandonou o banheiro.
A noite cai e Leona segue rápida, na tentativa de ainda conseguir pegar um avião. Agora mais calma, aproxima-se do balcão de uma agência de viagens:
— Por favor, qual é o próximo vôo para Paris?
Educada, uma operadora foi logo tratando de informá-la:
— Sinto muito, senhorita, mas acabou de partir!
— Qual é o próximo? —Leona demonstra impaciência.
— O próximo sai às nove horas.
— Então quero uma passagem para este vôo!
— Está sozinha? —falou com uma certa intimidade feminina.
— Sim! Por que?
— A senhorita está com muita sorte, porque só há mais um bilhete para este vôo!
Enquanto Leona preparava seu retorno à Cidade Luz, dois homens bem vestidos entram no quarto de Marcela no Hotel em Paris.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Meu nome é Michael Spencer da Interpol e este é Marc Bujold, chefe do Departamento de Inteligência Sobrenatural da CIA —eles mostram os distintivos—. Sinto muito, mas vamos tirá-la da investigação.
— Você falhou! —afirma Marc, em bom francês.
Claro que não tínhamos reservas para este hotel. Estávamos um pouco fora de lugar, mal arrumadas devido aos acontecimentos da noite, contudo, com um pouco de sorte conseguimos uma suíte. Minha amiga tomou um banho e foi à cama. Procurei fazer alguns curativos em seus braços que possuíam profundos e agravados cortes; Marcela com uma bolsa de gelo na cabeça. Empreguei quase todo o material de primeiros socorros que eu havia adquirido em uma farmácia local. Dei-lhe sedativos e logo dormiu.
Enquanto eu observava a pulsação e a temperatura de minha amiga, detive-me por alguns instantes e comecei a relembrar de todo o ocorrido. Ao vislumbrar a cena onde Greg fugia de maneira miraculosa, percebi que em realidade ele seria capaz de fazê-lo novamente, sendo necessário apenas um reflexo no espelho.
Os Lobos têm uma ligação muito forte com o mundo dos espíritos. Por esse motivo conseguem estar fisicamente no mundo etéreo, fazendo o que eles chamam de “veredas” para viajar de um ponto a outro no mundo físico.
Leona entende o que poderia acontecer. Rapidamente corre ao banheiro e quebra o espelho com um cinzeiro de porcelana. Assustada, amarra o cabelo e senta-se no canto da banheira. Coloca a mão na cabeça e por alguns segundos respira aliviada. Parece anestesiada! Levanta-se e ainda no banheiro molha seu rosto na pia, lançando um olhar e percebendo a sua imagem refletida no espelho d’água que formava-se sobre tímidas ondas na banheira. De súbito, abre o tampão e bate na água, até que a banheira finalmente secou.
Oito de fevereiro. Ainda!
A manhã parisiense estava gélida, mesmo sem cair a neve que, insistente, caiu durante a madrugada. Apenas os habitantes mais tradicionais arriscam-se a passear em uma das principais áreas verdes de Paris, percorrendo “Bois de Boulogne” com seus cachorros de pêlos longos. Pessoalmente acho este hábito um pouco demasiado, pois neve e fezes de cachorro tornam-se uma combinação explosiva e nada agradável.
Agora novamente juntas, Leona e Marcela possuem uma missão nada fácil nesse mundo de monstros. Manterem-se escondidas dos Lobos será algo no mínimo ousado, ou melhor, quase impossível.
— Aonde você vai? —Marcela levanta-se assustada, ao ouvir o som da porta abrindo-se.
— Não se preocupe, apenas darei umas voltas para tentar oxigenar e iluminar minha mente. Pedi que trouxessem seu café da manhã —Leona sorri, demonstrando segurança—. Agora fique deitada e procure descansar. Logo voltarei —carinhosamente fechou a porta, despedindo-se de sua amiga.
Ainda frio, mas não há neve, ainda há sombras e Celestinos. Os espelhos ouvem sons tísicos que ecoam das mais altas montanhas. Lobos-solitários perseguem suas presas, estranhas presas em delírio. Contra o sonoro vento seu rosto peregrina, expressando coragem e solidão.
— Onde estará Richard? —Leona caminha insólita, atravessando uma das muitas pontes do Rio Sena e avistando a Catedral de Notre D’ame. Ainda não sabe o que procura, mas suas pernas, decididas a caminhar, parecem sussurrar o caminho certo.
Espadas medievais e armaduras épicas, pseudo-artefatos históricos, expostos na calçada, guardados por um antipático ancião e sua respectiva e não muito educada senhora. Seria apenas mais uma daquelas lojas de bugigangas européias, não fosse algo realmente concreto que Leona percebera em meio a tanto realismo fantástico. Uma espada, exibida bem na calçada da loja de quinquilharias, que mesmo empoeirada ainda produzia expressivos reflexos. Um objeto comum na vida de cidades como Sevilha, Toledo ou mesmo Munique, mas especial por exibir seu brasão esculpido rasgado no metal. Leona aproxima-se.
— Ora, ora! Olha só o que temos aqui —está impressionada—. É idêntica à minha adaga, apenas não há diamantes —. O que poderia tornar esta espada insignificante em relação à sua? E se fosse tão poderosa quanto a sua, talvez não estivesse ali, exposta e empoeirada.
Leona observa calada; o vento sopra gelado. Os movimentos de seus olhos não acompanham seus pensamentos; e eles voam. Ela toca, segura e a empunha. Com seu lenço branco, dá brilho e vida. O velho vendedor aproxima-se, resmungando em francês de sotaque carregado dos “arrondissements” parisienses.
— Não toque! Não ponha a mão, por favor! —toma rudemente o artefato de suas mãos, recolocando-o em um suporte de espadas. Voltando-se para mais uma bateria de insultos, silencia-se assustado ao visualizar o brasão da espada tatuado no punho direito da intrigada cliente. Engasgado pergunta—. Para que quer outra espada se já possui a sua? —há grandes e antigos espelhos dentro e fora da loja—. Aqui você não está segura! É melhor que desapareça enquanto há tempo.
A esposa do vendedor, mesmo distante, estende os braços em direção a Leona. Seus olhos parecem refletir uma enorme fogueira. Leona arregala os olhos não acreditando na cena. A anciã recita:
— Aquele que julga como mal, com o tempo verá que é a luz! —sua voz idosa, carregada de fadiga, cansada tremula—. Aquele que persegue com a prata cortante, logo tornar-se-á o rei! Supere seus sentimentos passados e lute! Mas antes saia das sombras, porque a glória unicamente será alcançada por aqueles que escolham o lado da luz. Encontre seu destino e mostre a ele o caminho correto. Vá, Lobo! Vá!
Na calçada seu corpo fraco cai. Carros passam anônimos, cortando o vento e almas. Leona olha novamente para a espada, o velho socorre sua esposa amada e a neve não significa nada. Lágrimas.
— O que quis dizer a velha com essas confusas palavras? —Leona Brid pergunta-se incansavelmente. Aproxima-se dos velhos, limpa o rosto da anciã que caiu sobre a neve—. Por favor, senhor, o que ela quis dizer? —o velho calado, abraçado não fala—. Vamos, diga-me! É um caso de vida ou morte! —seu diálogo francês é perfeito.
Um dos espelhos da calçada começa a produzir ondas, abrindo um portal espiritual entre o mundo extrafísico e o físico. Leona não percebe, continuando a encarar o amável ancião, que diz:
— Fuja enquanto pode! Posso sentir a Destruição em seu encalço. A Destruição está próxima demais da superfície e você ainda não pode perceber tal energia.
— Destruição? De que superfície está falando?
Uma magnífica luz, um abismo para a eternidade, um portal de fogo, mundos, estrelas e a escuridão. Vejo portais dando passagem para o mundo físico; vislumbro reinos distantes e espíritos. Vejo a lua iluminando a Terra, a ponte para a lua e minha alma. O mundo dos espíritos é minha essência, sua energia seduz e seus perigos são para mim um jogo de xadrez. Ah, que bom é fazer uma viagem espiritual! Foi por minha facilidade em lidar com o mundo dos espíritos que denominaram-me Sombra de Sepultura. Nós, Lobos, temos a capacidade de estar fisicamente no extrafísico. Alguns Magos dizem que em verdade somos psicóticos pós-morte, que assumimos uma realidade mental e a temos como verdade absoluta. Entretanto estão longe de chegarem onde estamos.
Sombra de Sepultura vai à frente, desbravando o desconhecido, seguido logo atrás por dois lobos solitários, caminhando lentamente sobre uma infinita ponte para a lua. Espíritos de luz passam através de seus corpos, e uma névoa insana segue sombria para o norte. Há estranhos vultos em um pseudo-céu estrelado. Às vezes podemos ver o mundo físico a formar-se em distantes e profundos abismos da Ordem. Na escuridão profunda pode estar a Destruição; e na longínqua, mas poderosa luz, temos sempre a certeza de que ali estão os Celestinos.
— Onde diabos você está levando agente, velhinho? —Mordida de Sangue não expressa a mesma paciência que tinha no início da caminhada—. Você não nos estaria enganando, estaria?
— Seja paciente! Sábio é o Lobo que ouve, sente, enxerga o perigo eminente e, calado, arma o bote certeiro!
Distante, próximo a um lugar que poderíamos denominar de périplo extrafísico, surge lentamente um portal para o mundo físico. Algumas vezes parecem estar caminhando por uma emaranhada floresta de folhas fluorescentes, que aparecem e desaparecem como por encanto. O ancião aponta o lugar e diz em voz rouca:
— Lá está Greg Raio de Fogo, entrando por aquele portal!
— Como pode saber, está tão distante e nebuloso? —Garra de Vento não acredita.
— Algum dia chegará ao nível que estou; então neste dia saberá o porque da minha certeza.
— Então sejamos rápidos porque quero arrancar-lhe o coração! —vociferou em tom cruel o vingativo Sangue.
Os dois iniciam uma corrida frenética em direção ao azimute indicado pelo velho. Em movimento acelerado, anéis de luz púrpura começam a formar um gigantesco portal. Ocultam uma verdade monstruosa e querem acabar com essa história mais rapidamente do que qualquer outra coisa nesse mundo.
— Esperem! Ainda tenho algo a dizer, antes que cometam suas loucuras —Sombra de Sepultura quer apenas livrar-se dos dois—. Façam o que quiserem, mas saibam que já cumpri com minha missão! Partirei agora e não tenho mais nenhuma obrigação com vocês —e completa, caminhando em direção às profundezas do mundo espiritual—. Que a Terra não permita que sejam capturados pelas garras da Destruição!
— O que disse? —Garra de Vento não presta a devida atenção.
Sombra de Sepultura perde densidade e desaparece na escuridão. Os dois lobos solitários seguem caminho em direção ao portal e Raio de Fogo penetra no mundo físico. Leona percebe o que já era evidente:
— Greg Raio de Fogo é o destino! Ele é o rei! —Leona começa a pensar como uma arqueóloga, investigadora de verdade—. Mas rei de onde?
Um grande uivo, um cântico de desafio; Lorde Greg Raio de Fogo aparece como por encanto, bem ao lado da irmã única de Richard Brid. Monstruoso, ameaçador, tenta levar sua inimiga ao delírio por meio de sua temível aparência. Leona levanta-se, tentando sacar sua espada; fracasso! Greg segura seus pulsos encostando-a na parede; conseguiu surpreendê-la.
— É corajosa, Leona! —sua voz é rouca e seguida de rosnados patéticos—. Mas sua coragem não vai servir de nada agora. Morra, infame!
Leona não consegue ao menos gritar perante a cena de horror em que é protagonista. Os longos pêlos de lobo reluzem em vermelho vivo e os relógios antigos da loja começam todos a tocar; sinistro som que se dilui entre finos sibilos da ventania que começa a soprar. Onde estará Richard? O lorde agarra Leona pelo pescoço e a sufoca; palidez. Definitivamente sem fôlego ela tenta sua última e inteligente cartada:
— Você é o rei! —e com o último resquício de ar que restava-lhe nos pulmões—. No outro lado, vejo você como um rei!
Greg relaxou seus músculos e ficou sem entender.
— O que você disse?
Na calçada o velho chora a perda de sua companheira. Suspiros! Em um espelho com moldura talhada em bronze, surgem os Lobos com corpos humanos e cabeças de lobos que tentarão aplicar um golpe mortal à sua caça. Novas sinfonias clamando por duelo; ou massacre. Raio de Fogo sente que ali não conseguirá defender-se. Olha para um lado e lá estão Garra de Vento e Mordida de Sangue, correndo em seu encalço. Do outro lado percebe o caminho da fuga, decidindo pular na direção de um espelho. Greg libera Leona e corre em disparada.
— Greg, não me deixe aqui! —gritando, segurou em seus ombros e implorou nervosa, revelando seu verdadeiro sentimento ao lançar-lhe um olhar apaixonado.
— Nunca deixaria você aqui!
— Eu sei! —meigo suspiro.
Greg não possui a vida toda para ensinar-lhe como fazer para entrar no mundo dos espíritos. Encontrava-se com sua cabeça em forma de lobo e precisou rapidamente realizar uma metamorfose, enquanto assistia a aproximação do inimigo. Seu corpo quase chega na forma humana. Ainda deformado, mas agora podendo falar como um humano, começou a conversar com sua pseudoinimiga:
— Imagine-se mergulhando em uma grande piscina —ele penetra o espelho, arrastando-a consigo; Leona grita muito ao atravessar o espelho, agarrada no braço do Lobo. Caindo em um abismo não físico, Raio de Fogo ainda tenta ajudá-la—. Não se solte de mim... —não deu tempo para avisá-la e Leona liberava gritos de pavor.
Leona acorda meio congelada; seu corpo coberto por uma espessa neve. Levanta-se e anda por alguns minutos, finalmente avistando uma cabana aparentemente abandonada. A nevasca é forte; bate na janela e ninguém abre. Grita por socorro, e nada. Sobe as escadas de madeira e tenta abrir a velha porta. Está escuro e encontra-se exausta. Senta-se em uma esquecida cadeira na varanda. Foi quando visualizou um castiçal caído ao solo, prontamente pondo-se a acendê-lo com seu isqueiro. Eram três velas, mas uma delas não se permitia acender. O vento tentava apagá-las, mas Leona protegia com sua mão. Força mais uma vez a porta e esta cede. Com receio, adentra na sala fria. A cabana está totalmente abandonada.
Móveis de madeira, poeira, muita teia; lareira! Trata logo de acendê-la, enquanto questiona a si mesma:
— Como pude vir parar aqui?
Caminhando pela floresta gelada, Greg sabe que está nos Alpes Suíços, na região de Jungfrau, mais precisamente próximo a uma pequena cidade chamada Jungfraujoch.
Greg Raio de Fogo cansou de tanto fugir. Em uma clareira próxima a uma cabana, repleta de toras de madeira e alguns machados de cortar lenha, olha para trás e percebe a aproximação do inimigo. Forma humana deformada, ele inicia sua transformação; sua espada refletindo o ódio da expressão de seus olhos. Ele grita, intimando a quem está em seu encalço:
— Tu, animal rastejante, cuspido das profundezas de grandes lábios de alguma genitália insana. Saia da escuridão que a ti oculta, saia das trevas e não te escondas! Aproxima-te, covarde! Quero ver minha adaga atravessando tua bizarra boca, senão minhas garras, que furiosas partirão teu ventre! —agora Garra de Vento já não consegue mais suportar tantas pilhérias. Imbuído de uma necessidade frenética de ver sangue, ele ataca—. Saia neste exato instante, pois quero ver teu sangue, logo mórbido, abandonar teu corpo! —a nevasca afasta-se e as nuvens abrem-se, dando passagem aos olhos da lua para que ela também possa presenciar o momento histórico.
Garra de Vento ataca, vendado por seu ódio fulminante. Em um golpe certeiro, Greg esquiva-se, e com a ajuda de sua espada, abre um ferimento agravado no pescoço do oponente. Com corpo musculoso e cabeça de um feroz lobo, Raio de Fogo lança suas garras nas costas de Garra de Vento que pela primeira vez, cai. Face deformada, Garra de Vento reage buscando forças das profundezas de sua alma.
Adaga beijando adaga. Lua cheia; face que brilha branda na neve. Golpes lacerantes valorizando a prata. Raio de Fogo sangra muito, mas Garra de Vento já não suporta mais o vigor de seu oponente. Em um cruzar de espadas, Raio de Fogo abre ferimentos agravados no ventre do desafiante, que pela segunda vez, cai. Arrastando suas patas na neve, desesperado, desnorteado tropeça; sua espada escapando de suas garras deformadas. De joelhos, sem reflexos, resta-lhe apenas jogar-se ao chão, rastejando em sentido contrário ao seu destino. Furioso, assassino, crava suas corrompidas garras na lenha seca. Gira seu corpo expressando profunda dor e, fora de si, desmaia. Vertigens! Ruidosamente, Greg segura com mãos de aço, o machado dilacerante. Sem piedade, certeiro, divide o crânio do oponente, que morre. O machado de cortar lenha, ainda preso ao cepo co-partícipe, sua em vermelho quente, cor da vida e morte!
Luvas negras, espoliadas, expõem suas garras impregnadas de farpas e ódio. Greg Raio de Fogo gira em torno de si e tudo o que vê são florestas de pinheiros, um riacho de pedras gélidas com água das montanhas e uma pacata cabana com sua chaminé liberando tímidas cinzas. Abandona então o machado, pegando sua adaga que, fincada no tronco morto, assistia ao trágico fim de um maldito corrompido pela Destruição.
Raio de Fogo sabe que Mordida de Sangue está em seu encalço. Gravemente ferido ele sabe que não sobreviverá por muito tempo, mesmo sendo um Lobo poderoso. Respiração ofegante, mancando, para poder caminhar com mais velocidade transforma-se em um lobo selvagem, seguindo rumo a uma cabana que no momento aparenta ser sua melhor opção de abrigo. A nevasca reinicia-se com ferocidade.
Leona consegue acender a lareira e agora tenta esquentar-se com o calor que se propaga de tímidas chamas. Com uma velha panela de ferro, tenta descongelar um pouco de neve. Raio de Fogo usa sua metamorfose. Anômalo, como um monstro desmedido, arromba a porta e defronta-se com sua derradeira ajuda:
— Por favor, ajude-me! —há mais rosnados que palavras.
Sangrando, babando, com seus pêlos retendo a neve, Greg cai no piso de madeira. Na queda sua espada perde a ligação espiritual com seu corpo, vindo parar aos pés de Leona. Ela corre em direção ao Lobo, inutilmente tentando virá-lo.
— Mas como é pesado, este infeliz! —segura então a adaga, colocando-a com dificuldade em cima da mesa e deslumbrada pela sublime beleza de uma verdadeira espada real.
Greg começa uma lenta metamorfose. Desmaiado, vai transformando-se de um monstruoso ser para homem com cabeça de lobo, depois para humano deformado, para finalmente atingir a forma humana. Leona parece conseguir transportá-lo para uma velha cama de madeira e colchão de linhagem.
Sua água descongelou e agora ferve. Com alguns trapos ela limpa os ferimentos, tirando o sangue e lavando. A noite cai! Greg acorda e a primeira coisa que vê é Leona sentada no canto da cama, parecendo dormir.
— Obrigado —ele senta-se ao seu lado.
— Que susto! —assusta-se ao vê-lo despertar tão repentinamente—. Incrível! —observa seu corpo com admiração—. Como pode curar-se tão rapidamente? Havia cortes profundos, agora só há cicatrizes superficiais.
— Não se espante! Nos cicatrizamos em um piscar de olhos! Só não estou completamente curado porque a adaga do maldito era de prata, além de conter um espírito psicótico em sua essência.
Os Lobos podem aprisionar em qualquer objeto, espíritos de diversos tipos. Isso possibilita que utilizem a energia espiritual destes espíritos para seu usufruto. Neste caso havia um espírito que em sua última encarnação foi assassinado de uma forma hedionda, com muita dor. Agora ele está morto e sua consciência ainda pensa que está sofrendo como em seus últimos momentos de vida. Garra de Vento aprisionou este espírito doente em sua espada, o que faz com que um ferimento feito com esta espada cause uma dor insuportável, algo como se estivesse revivendo o que passou com esse espírito no momento em que foi assassinado.
— Eu sei!
— Parece que você já sabe muito sobre Lobos, não é isso certo? —uma pausa.
— Você está bem? —Greg levanta-se, indo à lareira.
— Já estive melhor! —fitando-a—. Ou pior!
— Aquela senhora da casa de espelhos, quem era ela? Parecia uma vidente, profetizando sem parar, falando-me coisas estranhas. Eu fiquei bastante assustada. Suas palavras salvaram minha vida... Ela também é uma Loba?
— Não, Leona, ela não é uma Loba. Possui poderes especiais e a esse tipo de humanos denominamos Magos.
— Você sempre tem respostas para todas as minhas perguntas. Não é assim?
— Digamos que procuro manter-me informado de tudo o que acontece ao meu redor.
Sentei ao seu lado na lareira, obstinada a saber de tudo. E se ele era realmente uma vítima, ou o vilão da história, eu descobriria neste exato instante.
— Por que você não me conta tudo o que sabe? Talvez eu possa ajudá-lo; ou no mínimo entenderei melhor o que está acontecendo e procurarei não atrapalhar!
Esta parenta de Lobo não é como outra qualquer. Há algo especial nela! Não sei se estou errado ou se meu instinto é quem me trai, mas ela é realmente especial.
— Meu nome, como você já deve saber é Greg Raio de Fogo. A diferença é que há um título antes do nome, o de Lorde!
— Você é Lorde Greg Raio de Fogo?
— Sim! Mas na verdade sou um príncipe, filho do Rei Átila da Bavária. Não é nenhum rei do mundo dos homens, não! É um rei do mundo dos Lobos.
— Mas por que o caçam se você é uma majestade? Por que não procura seu pai, sua família real?
— Não posso! —expressa desolação.
— Mas, por que? —Leona demonstra mais afinidade com ele, achegando-se para conversar.
— Caí numa cilada e agora tenho que provar minha inocência. Minha tribo odeia os humanos! Afirmamos que são eles que destroem nossa mãe, Terra —Leona assusta-se—. Você já sabe da história, mas o que você não sabe é que os humanos não morreram, foi um truque para distorcerem os fatos e poder acusar-me de trair os princípios de minha tribo.
— O que eles querem com isso?
— Meu pai está muito velho.
— Entendi.
— Sem herdeiro, quem assume o trono é o Rei Jukes Montanha de Fogo de Istambul, a quem servem esses malditos que me perseguem.
— Há tantos Lobos assim?
— Somos milhares, mas fomos milhões em um passado distante! E quanto mais vamos aproximado do dia em que a Terra morrerá, menos Lobos existirão!
— Como pretende provar sua inocência?
— Você! Terá que vir comigo e contar a verdadeira história.
— E por que acreditarão em mim? —demonstra preocupação.
— Em você, certamente não! Mas acreditarão em Richard!
— Como sabe sobre Richard?
— Sei mais coisas do que você poderia imaginar.
Leona parece encantada com o outro lado de Greg. Ela aproxima-se e dá um beijo em seu rosto, dizendo:
— Acredito em você e vou ajudar-lhe! —ela muda de assunto com a mesma rapidez de seus pensamentos—. Agora acho que temos que terminar a nossa entrevista, não é?
— Bom, acho que você ainda não me fez a verdadeira pergunta chave!
— E qual seria? —ele sente seu hálito feminino.
— Faça alguma pergunta do tipo... O que você faria se estivesse sozinho com uma linda mulher em uma cabana nos Alpes Suíços?
— Mostre-me!
Um beijo seguido de abraços, dois corpos cercados por espíritos de amor. O tapete da lareira vira um verdadeiro ninho, enquanto a fogueira assiste ao momento lindo. Despidos, provam que não era falso o sentimento vivido por ambos desde o princípio.
Greg gira rapidamente seu corpo e o dela. Agora por cima, Leona movimenta-se com mais liberdade, ajudada por seu companheiro que lhe penetra a alma, proporcionando instantes de prazer. Gemidos e respiração ofegante! Paulatinamente ela vai acelerando suas excitantes posições. Greg parece estar tomado por uma fúria sexual. Sem perder sua sensibilidade, vai agressivamente beijando o perfeito corpo de uma mulher agora apaixonada. O lorde atinge o ápice! Seu corpo transforma-se repentinamente, triplicando a massa muscular e deixando ver sua espantosa cabeça de lobo. Neste exato momento, o corpo de Leona é tomado por um longo e furioso orgasmo animal. Greg a acompanha nesta viagem, liberando um profundo uivo para demonstrar tamanho prazer. Sua energia é latente!
É madrugada e a neve cai. Caminha afoito pela floresta, tentando encontrar seu companheiro, até que finalmente o acha. Sua tocha ilumina um corpo estendido sobre algumas toras encobertas de neve; a cabeça pregada no cepo, o machado confirmando a morte violenta e um sinistro uivo liberado por Mordida de Sangue, lamentando a morte de seu amigo. Expressa um poderoso e evocativo réquiem dos caídos, e o enterrará, mesmo que leve a noite toda para cavar sua tumba.
— Tive um sonho muito profundo, no qual você fazia parte.
— Não foi um sonho. Realmente estávamos ali.
— Eu sei! —Leona expressa seu sentimento com um suspiro.
— Não se preocupe, logo tudo ficará claro.
— Então é verdade que estivemos juntos em outras vidas?
— Sim! E isso é algo lindo!
— Afinal... Você é um Deus ou um demônio? —Leona deita ao seu lado, abraçando-o com amor.
— Sou apenas um Lobo que adorou ser entrevistado por uma maravilhosa mulher!
Nove de fevereiro
Saímos logo pela manhã, ensejando alcançar algum vilarejo ou algo assim. Greg insistia que deveríamos subir as montanhas, e não descê-las, como eu pensava que seria mais fácil:
— Descendo montanha abaixo nós chegaremos a Interlaken, mas é muito longe e certamente não conseguirá chegar viva. Montanha acima nós chegaremos a uma estação de esqui. Ali haverá um trem que nos conduzirá até Interlaken. É uma longa subida, mas sinto que não está distante.
— Espero que você esteja certo!
Caminhamos sobre uma grossa camada de gelo e por sorte não estava nevando. Foram cinco horas de caminhada dura pelas montanhas, até que finalmente encontramos Jungfraujoch. Não chegava a ser uma cidade, na realidade mais se parecia com um centro comercial construído dentro da montanha. Estávamos congelados! Mesmo protegidos com os grossos tapetes que encontramos na cabana. Achamos uma entrada por onde saíam os turistas. Cheguei a ver alguns tirando fotos. Entramos!
Enquanto eu tomava um chocolate quente e comia alguma coisa, Greg procurava saber informações sobre o trem que transportava os turistas àquela estação de esqui; os turistas tirando fotos de mim. Greg se aproximou e sentou-se ao meu lado na mesa da lanchonete.
— O trem parte em dez minutos. Já comprei os tickets!
— Alguma novidade?
— Disseram que ouve um desmoronamento de neve, mas acredito que os trilhos já foram liberados.
— Ouvi você conversando em francês com aquelas recepcionistas. Afinal quantas línguas você fala?
— Inglês, francês, alemão, espanhol, português, Italiano, algumas línguas sírias e alguns dialetos indígenas da Floresta Amazônica.
— Já esteve no Amazonas? —despertou sua curiosidade.
— Sim, estive lá! Foi uma época em que eu precisava estar distante de tudo; você sabe... encontrar o significado das coisas.
— E encontrou? —metáforas.
— A Terra conseguirá resistir à força destruidora e incontrolável da Destruição! Foi a resposta que encontrei naquele lugar mágico! Também descobri que ainda há muito que defender!
— Defender o que? E... —está confusa—. De quem?
O apito do trem avisa que é hora de partir. Aos poucos a pacata cidade dos Alpes Suíços vai ficando para trás.
Através de longos túneis, lentamente o trem foi descendo a montanha. Fizemos algumas baldeações até que finalmente chegamos a Interlaken. A região leva este nome devido à sua localização entre dois lagos.
Após andarmos um pouco encontramos um heliporto. Com sorte, talvez conseguíssemos voar até Genebra, onde poderíamos pegar um avião para Paris.
— Greg, eu estou com meu cartão de crédito. Que tal se nós pegássemos um avião para Paris?
— Vou tentar mais uma vez achar uma vereda extrafísica, se não tiver como, então iremos nestas máquinas voadoras do homem.
Greg e Leona Brid caminharam algumas horas pela cidade, na tentativa de encontrar um portal com estabilidade o suficiente para que conseguisse conduzi-la por uma viagem espiritual.
Interlaken estava simplesmente um luxo! Há neve nos telhados das casas, lojas enfeitadas e turistas nas ruas, preparando para subir a montanha e esquiar. Era hora do almoço quando encontramos um elegante restaurante, bem no centro da cidade. Greg pediu muita carne e eu apenas o ajudei a comer.
— Greg... —ela inicia o diálogo.
— Sim Leona.
— Você está tão diferente. Na floresta eu percebia uma paz em sua face, mas agora, parece nervoso; tenso.
— Cada Lobo tem suas peculiaridades. Depende da tribo em que nasceu, da lua que reluzia no momento do seu nascimento e da região. Minha tribo é selvagem, somos agressivos e violentos —ela arregala os olhos—. Não suportamos viver nas cidades, muito menos em grandes centros urbanos.
O tempo melhora. Após a refeição dirigiram-se ao heliporto. Leona conversa com o piloto; sua cabeça ainda nas palavras de Raio de Fogo:
— Você acha que vai ser possível voar?
— A senhorita tem muita sorte! O tempo está muito bom hoje, em vista do que estava ontem. Não se preocupem, logo estaremos em Genebra.
Movimento normal no aeroporto de Genebra. Greg ainda não desistiu de tentar achar um portal sensível o suficiente para abrir uma vereda à Paris, levando consigo sua amada garota de corpo exuberante. Ele sai apressado pela porta do banheiro dos homens, encontrando Leona e dizendo:
— Acho que achei um portal que podemos confiar!
— Mas Greg... —puxa a Leona rapidamente, não lhe permitindo questionar.
— Sejamos rápidos! —olha para todos os lados—. Não sei por quanto tempo durará!
Banheiro vazio, Greg prontamente encontra-se penetrando o braço e o tórax pelo espelho. Leona quase não demonstra, mas o pavor a domina. Reflexos de luz púrpura invadem o banheiro.
— Não Greg, espere! —sua mão parece atravessar o espelho, sendo puxada pela cintura—. Acho que não vou conseguir alcançar! —ela afirma com veemência, segurando-se na borda da pia.
— Vamos Leona, rápido! —ele grita, sentindo que não há mais tempo—. O portal está fechando cada vez mais a cada segundo que passa.
Leona não vê que seu casaco havia enganchado na torneira da pia. Não há tempo para que Greg retorne.
— Greg! Não!... Estou presa!
O portal finalmente fecha e Leona é expelida por uma forte ventania energética. Na cena Greg ainda consegue gritar:
— Vá para a torre! Vá Leona, rápido! A torre...
Leona é atirada contra a parede, caindo de joelhos. Neste momento entram dois homens de terno e gravata, falando em alemão. Leona desconfiou que pudessem estar comentando sobre drogados, desses que ficam jogados nos cantos dos banheiros públicos. Ela levantou-se com cara de poucos amigos e, desajeitada, abandonou o banheiro.
A noite cai e Leona segue rápida, na tentativa de ainda conseguir pegar um avião. Agora mais calma, aproxima-se do balcão de uma agência de viagens:
— Por favor, qual é o próximo vôo para Paris?
Educada, uma operadora foi logo tratando de informá-la:
— Sinto muito, senhorita, mas acabou de partir!
— Qual é o próximo? —Leona demonstra impaciência.
— O próximo sai às nove horas.
— Então quero uma passagem para este vôo!
— Está sozinha? —falou com uma certa intimidade feminina.
— Sim! Por que?
— A senhorita está com muita sorte, porque só há mais um bilhete para este vôo!
Enquanto Leona preparava seu retorno à Cidade Luz, dois homens bem vestidos entram no quarto de Marcela no Hotel em Paris.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Meu nome é Michael Spencer da Interpol e este é Marc Bujold, chefe do Departamento de Inteligência Sobrenatural da CIA —eles mostram os distintivos—. Sinto muito, mas vamos tirá-la da investigação.
— Você falhou! —afirma Marc, em bom francês.
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