Estudo esotérico.

Estudo esotérico.

Por Lúcio José Patrocínio Filho:.


Um sol[1] amarelo e perdido numa galáxia qualquer. Um Oriente[2], que se permite iluminar com a chegada dos primeiros raios solares, a empurrar a escuridão do mundo com seus esplêndidos e fugazes lampejos dourados[3], atravessando a atmosfera, projetando labaredas ao colidir com as nuvens, fundindo seus tons dourados com o azul celestial; era uma manhã qualquer, na ilha grega de Samos[4] – uma cena épica –, refletida nos olhos dos amantes da sabedoria. Estes, vestidos com batas brancas, contemplavam o arrebol, tocando suaves liras de harmoniosas melodias. Tudo no Universo vibra[5]; razão pela qual estamos todos conectados. ¡A música é vibração! E essa é a razão que nos faz vibrar a alma. Os pitagóricos sabiam disso; e com suas liras ampliavam o estado vibracional do corpo e da alma, para alcançar um dado estado de redenção espiritual.
Tudo no Universo vibra; 
razão pela qual estamos todos conectados.
Tudo isso somente foi possível, graças àquele o qual fora conhecido por “filósofo”; e viajou o Mundo Antigo em busca do Conhecimento. Não deixou coisa alguma escrita, porém seus discípulos contribuíram para a perpetuação de seu legado. E se hoje temos acesso a tais ensinamentos, por bem ou por mal, a estes devemos tal possibilidade. Não pretendo contar a história do Mestre, porque ninguém a conhece ao certo, e não pretendo comprovar que tais conhecimentos sejam de sua autoria. Darei por certo, que são informações provenientes dos pitagóricos, que em maior ou menor medida, fundamentaram seus estudos nos ensinamentos de um tal Pitágoras  ou sabe-se lá, quantos sábios brotaram no mesmo período. Ao mesmo tempo, colocar-me-ei na pele de um pitagórico e – como se fosse um filósofo – vou orientar minha mente para que busque a verdade no Conhecimento Antigo, porque sua filosofia – termo inventado por ele – tem suas origens no conhecimento egípcio, um conhecimento que deu a volta ao mundo no advento do êxodo dos sacerdotes monoteístas de Akhenaton, evento que provocou um semear de sabedoria, que fez brotar novos mundos pensantes como o babilônico, grego, oriental, Maya, Asteca e Inca; e quem saberá qual foi a fonte onde os egípcios beberam de tal conhecimento, ¿Atlântida, Lemúria?
Busque a verdade no Conhecimento Antigo.
Talvez o mais sensato seria criar um personagem egípcio, um iniciado dos Sacerdotes da Escola de Mistérios do Olho de Hórus, e conduzir o leitor dentre os Templos dedicados à elevação do espírito do homem. Há quem diga que Pitágoras percorrera tais caminhos escabrosos para alcançar a iluminação. ¿Você não?
Percorra os caminhos escabrosos e alcance a iluminação.
É fácil e provável, imaginar tais pitagóricos, filosofando no hemiciclo, afirmando que a Sabedoria é fruto do conhecimento vivido e praticado com a arte do discernimento e parte do conhecimento de “si mesmo”[6], com a capacidade da autocrítica e a percepção deste mundo que conforma o entorno do homem e seu interior. A humildade deve estar presente em todos os aspectos da vida, e deve-se estar atento a tudo o que nos diz respeito, cuidando e aproveitando ao máximo, o tempo que nos resta, antes de nossa desaparição física.
A Sabedoria é fruto do conhecimento vivido.
O homem contemporâneo tem uma equivocada percepção da vida humana na Idade Antiga. É comum visualizar uma humanidade ignorante e barbárica, mas isso é um equívoco, pois nesses tempos, o mundo viu surgir os maiores sábios de todas as eras. Homens que afirmavam que não se deve confundir conhecimento com sabedoria, assim como não se deve confundir ambos aspectos com o que se conhece hoje no meio esotérico como o “Conhecimento”, pois este último está carregado com a vontade humana pela descoberta da verdade do mundo e está presente dentro do homem, desde o início dos tempos, em sua busca eterna por encontrar-se a si mesmo.
Não se deve confundir conhecimento com sabedoria.
Os pitagóricos flertaram com as chaves que estão ocultas no “eu interior”, no Logos grego, e como se estivessem observando a si mesmos no espelho, tentaram internalizar, para alcançar o que talvez seja inalcançável, devido às limitações da própria liberdade divina, pois sempre seremos escravos do Criador. Encontre seu maior inimigo, olhe-se no espelho.
Encontre seu maior inimigo, olhe-se no espelho. 
O mundo fenomênico[7], foi pelos sábios de todos os tempos estudado. Desde o mais distante que nos permite a luz aliada ao tempo, alcançar no cosmos, aos aglomerados de galáxias e seus aglomerados de estrelas, onde orbitam incontáveis corpos celestes, o planeta Terra, e sua complexa natureza, o homem e seu interior físico, mental e espiritual, explorado até a saciedade por eles mesmos, gerando uma infinidade de conhecimentos. Cosmogonias, mitos, crenças, filosofias, teologias, teogonias, ciências físicas e metafísicas, culturas, comportamentos, humanidade, tudo pela busca da Causa ou Princípio Criador do mundo. Mergulharam no Universo de si mesmos, para deixar-nos as chaves, os códigos e os caminhos que dão acesso ao conhecimento de uma verdade que o tempo não pôde apagar.
Mergulhe no Universo de si mesmo.
Há uma verdade oculta, trás o véu da existência eterna, pois se D’us é o Tudo, não havia espaço para mais nada, porque se houvesse espaço além Dele, Ele não seria o Tudo. Sendo Ele o Tudo, então Ele também era o Nada antes da criação do mundo dos fenômenos ou seja lá o que existisse antes, caso o mundo não seja eterno, senão Ele não seria D’us. Se D’us é o Tudo, então Ele teve que restringir seu poder para abrir espaço para sua criação, sem que esse espaço deixasse de ser Ele, senão Ele não seria D’us, pois haveria algo além Dele – esse espaço criado –, com o qual, o mundo fenomênico Nele está contido ou seja, o Universo é parte de D’us e em consequência somos partícipes em sua obra divina, ao mesmo tempo em que somos parte desse Todo que é D’us. Ora, se D’us é o Tudo, Absoluto e Divino – divinamente perfeito –, então Tudo o que Ele cria é infinitamente perfeito, com o qual Ele não criaria um mundo defeituoso, de tal forma que precisasse estar intercedendo em sua criação para ajustar os defeitos de sua obra, o que leva ao entendimento de que se perderia todo sentido rogar por Ele ou pedir por sua intercessão, porque sua obra – infinitamente perfeita – carece de sua intervenção, senão Ele não seria D’us. Contudo, a razão e a experimentação, conduz meus pensamentos para a possibilidade de que sua criação possua mecanismos próprios, para atender aos anseios das ideias volitivas. O mundo só é fenomênico porque vibra. Tudo está em movimento e por isso tudo vibra. Quando penso, minha mente física, vibra, e esta vibração é percebida por Tudo o que há no mundo, porque se tudo vibra, tudo está interconectado, com o qual, há uma omnisciência. Quando penso, todos percebem a minha vontade e respondem à ela de alguma forma, produzindo, cada um na sua maneira, suas próprias vibrações. Quando rogo, vibro, quando rogamos, juntos vibramos, logo, falar com D’us é conectar-se com a omnisciência; e o Universo, que é Ele e somos nós com Ele, vibrará para que a vontade seja satisfeita.

Tal e como discorreu sobre esse tema o Rabino Akiva Tatz em seu livro “A Máscara do Mundo“, esse é um grau elevado de entendimento dos mecanismos do Universo, que é D’us. Ao compreender que o mundo físico, nossa natureza, não é mais que uma máscara criada para permitir o usufruto do livre arbítrio, essa máscara cai para o adepto, e este passa a ver o que há por detrás dessa máscara, e alcança um estado de redenção por poucos alcançado e por muitos desejado.

Não seria uma heresia afirmar que a metamatemática de Pitágoras pudesse ser comparada com a guematria dos hebreus ou com a numerologia do esoterismo. De fato, os antigos sábios tinham especial apreço pelo emprego das letras e dos números, chegando a dominar técnicas de codificação de textos, e esse processo acabou sendo associado a temas espirituais e teológicos, resultando na criação de uma infinidade de conhecimentos esotéricos, baseados no simbolismo, na matemática e na lógica. Basta conhecer o pardês dos hebreus e a gematria de sua Torá; maravilhar-se dessa verdade.

A Transmissão do Conhecimento ou Tradição por meio do Conhecimento Transcendente ou Oculto ou o Logos, está presente no sendeiro esotérico dos hebreus, a Cabalá, que surge de um povo oriundo das areias do Egito, um dos berços do Conhecimento. Esta metafísica, integra a Arte Real, a qual abarca o conhecimento das antigas civilizações, em especial da egípcia, sendo que esta, por sua vez, tem suas raízes no conhecimento perdido, anterior às pirâmides, dos tempos da Esfinge e além. Falar abertamente sobre o Conhecimento não é tarefa fácil, ousado o escriba que se atreva com sua pena, elevado será o sábio que não estremeça suas mãos sobre o pergaminho, ao discorrer sobre a verdade, gerando palavras a temblar pela eternidade. ¿Que causalidade abarcará? ¿Será verdade a sua verdade encontrada?

A Cabalá permite interpretar o significado oculto da Criação e das Potências da Natureza, fazendo uso de todo o arcabuz do Conhecimento Antigo, sem que se converta de maneira alguma em sincretismo ou seja, preserva a antiga tradição, com um certo grau de pureza, e suas ferramentas facilitam a compreensão do Conhecimento. Há quem diga que seu caminho é um retrocesso, um mundo de magias e superstições, mas estão equivocados, pois o Conhecimento está muito distante da fé nos milagres e da idolatria, nele o homem depende somente de si mesmo e de sua vontade para conhecer-se e aperfeiçoar-se, desvelando a máscara de Akiva, a seu ritmo e com a graça e a glória de D’us.

O Conhecimento é síntese das mais antigas cosmogonias, sua metodologia foi estruturada pelos hebreus em um diagrama simbólico, a tão considerada Árvore da Vida, que expressa as forças, fatores, potências e poderes do Universo Manifestado, desde o mais interno do homem, ao mais externo e infinito do Universo. Tal diagrama é uma ferramenta criada depois da Cabalá, e não o contrário, e seu advento ocorreu pela necessidade de visualização dos ensinamentos, com o objetivo de facilitar a compreensão do Conhecimento. O mais provável terá sido que sua invenção provenha do advento do Zohar, na Espanha esotérica do Medievo, que veio a reforçar o alto teor esotérico do conhecimento judaico, este, como já afirmado, profundamente enraizado no conhecimento egípcio, doa a quem doer.

Ali pelo século VI a.C., viveram os Sete Grandes Sábios Gregos, os quais se sabe que em verdade eram pelo menos 22, que em maior ou menor medida foram, alguns discípulos e outros mestres de Pitágoras. Filosofavam para precisar certas verdades que permitissem ao homem desenvolver suas virtudes, a justiça, a moral e a ética, a honestidade, a conduta familiar, social, comercial e política, e concluíram que existe certa conexão entre o Saber e o Viver; e que também existem Ideias-Força ou Ideias Volitivas – tal e como prefiro chamá-las – que impulsam e canalizam a ação do homem. Fouillé afirmava que “há Ideias-Força que emergem de um transfundo volitivo que se converte em impulso para a Grande Obra e as tarefas da vida”, o que significa que a vontade é um poder divino, a nós confiado, para que possamos experimentar o processo de criação.

Hoje a humanidade recuperou a verdade do conhecimento egípcio e sabemos que não eram politeístas. Consideravam cada aspecto do D’us único separadamente e estudavam cada um desses aspectos, para alcançar a evolução espiritual. Esses aspectos são os mesmos que hoje conhecemos por virtudes; e construíram Templos para trabalhar essas virtudes dentro de cada indivíduo. Esse conhecimento foi transmitido aos hebreus – os quais, segundo Roger Sabbah são os verdadeiros herdeiros do Antigo Egito – e está contido nos ensinamentos cabalísticos. De fato, a Cabalá trata exatamente desses mesmos aspectos, mas utiliza outras ferramentas, simbolismos e arquétipos para alcançar o mesmo fim – a elevação da alma. É uma verdade tão considerada e perpetuada ao longo da história humana, que sobreviveu à uma infinidade de barreiras, como guerras, limpezas étnicas e culturais, religiões, tragédias naturais e provocadas pelo homem, governos tiranos e fanatismos; ao tempo.

As Ideias Volitivas estão identificadas por 33 elementos na Árvore da Vida; são suas dez Luzes, seus 22 Sendeiros e o Conhecimento[8] como o elemento oculto. Estes 33 Poderes correspondem fielmente com o conhecimento de outros povos e culturas como o Panteão dos Deuses da Mitologia Grega, os mesmos elementos que foram tomados pelos romanos, quase textualmente em seu conteúdo, limitando-se a alterar o nome de cada deus ou o que é o mesmo, cada virtude. Outros Panteões de Deuses Mitológicos, como o Egípcio e o Persa estão fundamentados nos mesmos princípios, assim como a religião hebraica, que por um lado afirma-se em seu monoteísmo e por outro denomina às mesmas luzes da Árvore da Vida a Elohim ou Achad (o que significa “um D’us[9] em muitos”). Não foge à essa regra o Cristianismo, que por um lado enfatiza seu monoteísmo e por outro adjudica o nome dos Nove Coros Angélicos à essas mesmas virtudes, luzes da Árvore da Vida, que tem suas raízes no Jardim do Éden, o lugar físico na Terra onde nenhum homem pode colocar os pés e cujos frutos conferem a imortalidade. Também cultuam um politeísmo ternário, adorando um D’us universal, um físico e outro espiritual, que nada mais é do que uma adaptação da numerologia do três, um conhecimento antigo dos egípcios, profundamente estudado por Pitágoras e que resultou na elaboração de sua mais famosa fórmula, seu Teorema, o qual nunca saberemos se é de sua autoria ou copiada da sabedoria egípcia – basta observar a geometria das pirâmides –, pois estes, provavelmente já lidavam com tais cálculos para a construção de suas obras faraônicas, ou se melhorou a trigonometria dos babilônicos – inventada mil anos antes da época de Pitágoras – com sua tábua Plimpton 322, a qual hoje já se sabe que era mais fácil e precisa, contudo mais arcaica e carente de fórmulas complexas como o Teorema de Pitágoras, o qual possibilita ao homem contemporâneo calcular a posição das estrelas e resolver os complexos cálculos da astronomia.

teorema de Pitágoras

O Zohar alerta: “¡Ai do homem que somente vê na Torá ou seja, na Lei, simples recitados e palavras vulgares, pois se em verdade continham unicamente isso, seríamos nós, hoje mesmo, capazes de compreender uma Torá muito mais digna de admiração! ¡É que seus versos são o vestido da Torá e os tolos não percebem o que está encoberto por sua roupagem!” (Zohar)

É o desejo de saber e de conhecer, o que nos arrasta às profundidades do abismo, assim pois, baixamos pela árvore do conhecimento do bem e do mal, e em prol da Sabedoria e uma vez que a obtemos, começamos a ascender da matéria ao espírito, pela Árvore da Vida, a árvore da Cabalá.

(O Antigo Comentário) 

E disse o Eterno Deus: “Eis que o homem se tem tornado como um de Nós, para saber o bem e o mal. E agora quiçá ele estenda a sua mão e tome também da árvore da vida e coma, e viva para sempre.” (Bereshit 3:22)

O Conhecimento não deve e não pode ser assimilado de súbito. Essa é a principal razão dos textos ocultistas serem rebuscados, pois o iniciado deve tomar seu tempo para estudar e meditar, então nada melhor que um texto a decifrar, com diferentes níveis de compreensão, para transmitir o Conhecimento na velocidade do entendimento de cada iniciado, até que se converta em adepto[10]. Um exemplo disso é a tipologia Pardês[11], que aponta quatro níveis de interpretação no estudo da Torá. O primeiro nível, Pshat, é o significado literal do Texto Sagrado. O segundo nível, Remez, é o significado figurativo, o ensinamento insinuado, contido em cada uma das palavras e dos versos dos Cinco Livros de Moisés. O terceiro nível, Drush, é o significado interpretativo e homilético - o ensinamento moral e filosófico. O quarto nível e o mais profundo é chamado de Sod, segredo, e é o significado esotérico e místico das palavras da Torá, popularmente chamado de Cabalá. Pshat, Remez, Drush e Sod, formam um acróstico em hebraico, a palavra Pardês, que significa “Pomar”. Pois estudar a Torá em seus quatro níveis significa adentrar-se pelo “Pomar de D’us” ou seja, no Paraíso. Há um ditado iídiche que diz:

“Quatro rabinos entraram no pardês:
 Ben Azai, Ben Zomá,
 Acher e Rabi Akiva.
 Ben Azai olhou de relance e morreu;
 Ben Zomá olhou de relance e enlouqueceu.
 Acher tornou-se herege.
 Rabi Akiva entrou e saiu em paz.”
 (Adágio Idiche)

Há um véu para ocultar cada verdade deste mundo. Os adeptos do Conhecimento sabem disto e por esta razão avançam, pouco a pouco, desvelando os véus para que a Luz possa iluminar sua face. Os adeptos do “ir além”, devem conhecer todos os caminhos desvelados por outros sábios, mas ao final deverá desenvolver seu próprio caminho, seus métodos, sua maneira de alcançar a Grande Obra[12], porque ¿quem tem a verdade?

Ao aproximar-se da compreensão da Criação, o homem aprende a ascender pela Árvore da Vida, em busca do mais excelso de si mesmo e do Universo. Suas Luzes são como Templos às virtudes, mas como toda luz gera sombras, também são recônditos dos vícios. Há esquemas, como as Qliphoth[13], que figuram a Árvore da Vida com raízes, para visualizar as sefiró de abaixo, que nada mais são que os aspectos antagônicos das virtudes. Eu prefiro manter todos os aspectos juntos para melhor visualizar minhas investigações. Cada Sefirá simboliza a Luz e a Sombra de um aspecto do Universo, que está dentro e fora de nós mesmos. Assim, Malcut representa ao mesmo tempo a Ira e a Diligência. Yesod, a Luxúria e a Temperança. Tiferet a Preguiça e a Humildade. Hod, a Inveja e a Paciência. Netzac, o Orgulho e a Magnanimidade. Geburá, a Cobiça e a Pureza. Chesed, a Gula e a Caridade.

Qliphoth

Todo iniciado no Conhecimento quer dar o salto diretamente às esferas superiores, sem sequer entender o que passa no Ocidente da alma. Aqui há um mecanismo, um segredo, como se de um cofre se tratara. Sete são as esferas que protegem o tesouro do Conhecimento. Mas há um charada oculta em tudo isso: para quebrar o segredo há de ir provando do conteúdo do cofre. É como uma armadilha de pegar macacos, se tentamos pegar todo o conteúdo, acabaremos prisioneiros das esferas. Elas trabalham juntas, embaralhadas e conectadas entre si. Quando tentamos desvelar o segredo, elas ocultam-se uma detrás da outra, mudam de posição e visibilidade, para que não aprendamos o segredo que abre o cofre, e o que é pior, podemos acabar prisioneiros dessas esferas, escravos de suas sombras[14].

Um aprendiz desavisado pode cair na armadilha[15] de pensar que a Grande Obra pareça tão pouco, tão fácil de ser alcançada e inclusive ultrapassada, mas essa sensação é só um aspecto da preguiça, um aviso de que mesmo alcançando a esfera dourada de Tiferet, e de alguma forma conseguindo manter-se nela, sucumbiu à própria armadilha que ela contém, a maior de todas as armadilhas, porque nela encontram-se enfocados todos os outros egos, como se soubessem que ali estão os que tentam desvendar os segredos que abrem a porta que dá acesso às outras dimensões mais elevadas e não podem permitir que isso ocorra, com o qual trabalharão juntos para lograr seu fracasso. Por isso é tão importante o trabalho contínuo e persistente de expansão da alma e manutenção contínua de sua conexão com o Todo, uma meditação que nunca deve cessar.

O Universo e tudo o que nele ocorre, não é nem bom, nem hostil. O fim de uma galáxia, de uma estrela ou de um mundo está dentro do marco de duração das coisas. Algo similar ocorre nos planetas, onde um continente inteiro pode afundar, uma ilha desaparecer, uma grande extensão de terras férteis converter-se em deserto, e tudo é indiferente para a realidade universal em contínuo processo de criação, duração e destruição para que emerjam novas criações. E nós estamos aqui, participando deste processo que é divinamente infinito, como se fôssemos um número irracional, cuja precisão conduz à uma aproximação infinita, uma busca que nunca se acaba.

Em bom romance, todos os corpos do Universo viajam em linha reta, mas pelo espaço-tempo curvo, movendo-se para que se cumpra a lei ocultista de periodicidade, de ciclo que se reitera, a Ouroboros dos alquimistas. A Terra e a Lua são um caso particular, pois nosso satélite é grande e interfere ao mesmo tempo em que é interferido pela Terra e assim, ambos geram geodésicas compostas, fruto de sua mútua interatividade. Assim também as galáxias deformam o espaço-tempo e suas estrelas viajam em grupo, formando gigantescas curvas; e assim as ondas de galáxias curvam ainda mais o espaço-tempo nas colossais viagens de aglomerados de galáxias e estas ondas são por sua vez influenciadas pelo Universo em sua omnipotência, que é o próprio Grande Arquiteto do Universo manifestado, no qual estamos, e isto quiçá continue ainda em escala maior em termos similares em outros Universos ou na eternidade do mesmo. No extremo oposto, as partículas atômicas realizam um processo equivalente e assim também viaja o homem sobre a Terra. Então expanda sua energia vital, seu Eu, permita-se viajar pela criação divina.

Mercúrio gira ao redor do Sol em três meses, portanto sua velocidade angular é altíssima. A Terra faz o mesmo em 12 meses e Plutão leva 250 anos nesta tarefa. É a gravidade solar, cujo efeito é reduzido com o quadrado da distância. Recordando o adágio fundamental de Hermes Trismegistus: “O que está abaixo é como o que está acima e o que está acima é como o que está abaixo.” Então, nas galáxias, deveríamos observar o mesmo e em escala muito maior, entretanto, as estrelas da periferia galáctica giram com velocidade angular parecida às mais próximas do centro e giram como um todo, como um disco. A energia requerida para unificar a velocidade de giro de todas as estrelas de uma galáxia é extraordinária; uma gravidade gigantesca realiza esse trabalho, mas sua massa não é detectada por emissão de ondas ou partículas e esse disco gravitacional imperceptível ainda estende-se entre 20 a 60 vezes mais que a parte visível de uma galáxia.

Todos os modelos do Big Bang simulados por computador geram um Universo distinto ao atual, onde as galáxias não chegam a formar-se, mas quando agregamos a massa escura e quente, feita com as mesmas partículas da massa visível, então sim formam-se galáxias, mas não se formam os acúmulos galácticos. Em câmbio, quando manejamos essa mesma massa escura, mas fria, então formam-se acúmulos, mas as galáxias não são formadas. Ambos processos são incompletos, mas complementares e essa ainda é uma incógnita a resolver.

Se houve um Big Bang, antes dele, todas as partículas do universo estavam unidas e indiferenciadas; e de pronto houve a Criação do mundo. E mesmo que se comprove que não houve início ou seja, que o Universo é eterno, tal e como afirmado por Stephen Hawking ao dizer que o centro do universo está na ponta do seu nariz[16], seja lá onde estejam ou estiveram essas partículas, cada partícula de um corpo celeste é consciente da existência das demais e um vínculo sutil une todas elas de alguma forma física e não física.

Eu, como ser humano, estou feito de partículas criadas há tempos em alguma bola de fogo cósmica de alguma estrela distante que, ao estalar como gigante vermelha, logo formaram parte de algum satélite ou planeta em outro confim do Universo onde em ocasiões estas partículas participaram de alguma forma de vida, para logo, ao desaparecer esse planeta, algumas partículas vagarem sem destino pelo espaço-tempo, até reunirem-se com as que hoje dão forma à nossa Terra, e com algumas destas partículas estou feito. Desta poeira cósmica está constituído o meu corpo e a ela regressará, e tudo acabará um dia reunido no Big Crunch final.

A conclusão mais sábia de tudo isso é que há uma conexão a nível quântico, através de ondas invisíveis entre todas as partículas do Universo, e esta conexão também ocorre entre os seres, entre os Logos Solares, entre as Consciências Galácticas e os bilhões de galáxias com bilhões de estrelas cada uma, agrupadas em forma de longas ondas do extraordinário e colossal oceano espaço-temporal, cada onda alcançando milhões de anos luz, tudo, absolutamente tudo está interconectado, desde a maior estrela, jamais vista, à menor partícula subatômica de um átomo. Em síntese, existe uma consciência única.

Se o Universo inteiro, Nele está contido, e em sua origem, tudo estava unido, não só tudo está interconectado, senão que uma só consciência opera desde o Big Bang ou desde o infinito e expande-se ao expandir-se e evolucionar a Criação.

O Tempo é outra unidade de medida relativa que requer duas condições para manifestar-se; uma é que hajam duas chispas de consciência que gerem dois processos mentais diferentes. A outra é que exista um aspecto de consciência-memória que permita registrar e recordar a ambos eventos e ao espaço silencioso e sem alterações, existente entre ambos processos pensantes. À este espaço silente damos o nome de tempo ou duração.

 (O Antigo Comentário)

Nosso sistema solar está situado a ~30.000 anos luz do núcleo da Via Láctea e está movendo-se em duas direções, uma ao centro da galáxia pelo braço menor de Orion e outra acompanhando o movimento circular de ~225 milhões de anos que nossa galáxia leva para girar sobre si. Para nosso Sol isso significa viajar em órbita em torno do centro da Galáxia a uma velocidade de ~2*104 m/s. O diâmetro total de nossa galáxia é de ~100.000 anos luz e ela está composta por um núcleo central de quatro braços em espiral: o de Perseus, Scutum-Centaurus, Cygnus e Sagitário; albergando uma população entre 100 e 400 bilhões de estrelas. Este é nosso lar no Universo[17]. ∆

Notas:

1 Nefejeperura Amenhotep (convenção acadêmica), também conhecido como Arrenatón, Akhenatón ou Akenatón, Aquenáton, Amenhotep IV ou Amenófis IV, foi o décimo faraó da dinastia XVIII do Egito e reinou por dezessete anos. Seu reinado está datado em torno a 1353-1336 a.C. e pertence ao período denominado Império Novo do Egito. Lá pelo quarto ano de seu reinado, mudou seu nome para Nefejeperura Aquenáton. Dentro da história do Antigo Egito, seu reinado inicia o denominado Período de Amarna, devido ao nome árabe atual do lugar escolhido para fundar a nova capital: a cidade de Aquetaton ou seja, «Horizonte de Áton». É célebre por ter impulsado transformações radicais na sociedade egípcia, ao converter o deus Áton na única deidade do culto oficial do Estado, em prejuízo do, até o momento, predominante culto a Amon. É o primeiro reformador religioso do qual se tem registro histórico. Seu reinado implicou reformas no âmbito religioso, político e artístico. Ainda que tardiamente descoberto e pouco conhecido, está considerado por muitos historiadores, arqueólogos e escritores como um dos faraós mais interessantes. É lembrado por abandonar o tradicional politeísmo egípcio e introduzir uma adoração centrada em um deus único, Áton, adoração descrita como monoteísta ou henoteísta. Inscrições antigas ligam Áton ao Sol comparado às estrelas, com a linguagem oficial posterior evitando chamá-lo de deus, dando a deidade solar um status acima dos meros deuses. Os súditos de Aquenáton somente podiam adorar ao deus Áton por intermédio de seu faraó, e este era o único que podia adorar diretamente o deus único. Esse detalhe do monoteísmo de Aquenáton pode ter sido o que provocou o surgimento das religiões monoteístas posteriores, como o Judaísmo e o Cristianismo, sendo este último nitidamente um deus solar. Há estudos que revelam conexões diretas entre a história desse faraó e a história do pentateuco, um exemplo disso está nos estudos científicos dos irmãos Messod e Roger Sabbah no livro: Les Secrets de l’Exode: l’origine égyptienne des Hébreux, 2000.

2 Adoum, Jorge, As Chaves do Reino: “Assim como o sol é símbolo da vida e do nascimento, do crescimento e do contínuo esforço, assim deve o homem imitar o sol em todos os seus movimentos. Pelo sol conheceu o homem as leis de Deus e, no Oriente, viu os agentes dessas leis. A nascença diurna do sol, após seu descanso, ensina ao homem a continuidade da vida, esforço e evolução. O Oriente é o princípio da vida. Sul. - Designa a iluminação e espiritualidade porque o sol brilha em todo o seu esplendor. O sul é o ponto onde a mente Divina se manifesta em toda sua plenitude. Norte. - É o lugar das trevas onde o sol não derrama sua luz. É o mal, o abismo, vale de lágrimas, ignorância, lugar dos desejos inferiores. A Pirâmide tinha, ao Norte, a porta de entrada, o que mostra dever o neófito, cego, ignorante, entrar pelo norte, lugar das trevas, na loja, em busca de luz.”

3 Boucher, Jules, A Simbólica Macônica: “O Retângulo 1 x 1,618 não é medido em números inteiros, mas suas proporções incitam-nos a considerá-lo atentamente. Matila C. Ghika disse: “Notemos que o retângulo que tem como proporção, como razão característica a da secção dourada, goza de propriedades geométricas notáveis, o que muitas vezes fez com que o escolhessem, conscientemente ou não, quer como retângulo de cercadura, quer como elemento de superfície, em arquitetura, em pintura, nas artes aplicadas ou seja, nos objetos usuais.” Podemos pensar que a secção dourada era um dos “segredos” dos Franco-Maçons construtores; a maioria das catedrais inscrevem-se num esquema de proporção dourada. A esse respeito, lemos em Matila C. Ghika o seguinte: com razão que é permitido afirmar que a geometria esotérica pitagórica foi transmitida, desde a antiguidade até o século XVIII, de um lado pelas confrarias de construtores (que transmitiram, de geração em geração, um ritual iniciático em que a geometria desempenhava um papel preponderante) e de outro lado pela Magia, pelas rosáceas das catedrais e pelos pentáculos dos magos”. O traçado desse retângulo é de uma extrema simplicidade para quem o conhece; mas é provável que os primeiros Maçons especulativos não o conhecessem, traçando, por isso, um “duplo quadrado” no lugar de um “quadrado oblongo”. Infelizmente, não podemos fornecer nenhuma prova decisiva, nenhum documento de apoio para corroborar nossa suposição; ficamos reduzidos a conjecturas. O nome esotérico desse “quadrado” é quadrado-sol.”

4 Krishnamacharia, E., Introdução a Pitágoras: “...nasceu em uma família de considerável nobreza na ilha de Samos (Grécia) em torno do ano 580 a.C., e desde estudante era considerado um gênio. Aprendeu as bases da Sabedoria Antiga em seu país, e na medida em que crescia, sua sede de sabedoria também, até que chegou a ter o desejo de viajar pelo mundo.”

5 Caibalion.

6 Burton, Robert Earl - Self Remembering, 1991.

7 Adoum, Jorge Enrique, Cosmogenesis – Según la memória de la naturaleza, 1993.

8 Stelardo, Julio, Qabbalah sin velos: “¿Por que? Porque o homem deve chegar à borda do abismo e pode cruzá-lo com os próprios elementos do abismo, ou se com a conjunção de Rormá e Biná, amor e sabedoria, chamada DAAT (Conhecimento) e frequentemente tomada por outra sefirá.”

9 ¿Quem saberá como escrevê-lo corretamente? ¿Quem se atreverá?

10 Adoum, Jorge, O Mestre Perfeito e Seus Mistérios: “Quando o átomo do Espírito Santo se converte em Mestre do homem, envia sobre ele a Iluminação ou como diz a religião, desce sobre o Iniciado, e este torna-se Adepto, torna-se Luz do Mundo; mas deve estar preparado para a crucificação.”

11 Campani, Carlos, Fundamentos da Cabala: Sêfer Yetsirá, 2011: “Segundo os cabalistas, as escrituras sagradas possuem quatro significados ou interpretações diferentes, usualmente identificados pelo acrônimo “pardes”, formado pelas quatro letras iniciais de pashut, remez, derush e sod, e significando “pomar”. Esses quatro significados são comparados com as três cascas da noz e seu cerne, sendo o significado sod o mais profundo e místico, associado ao cerne da noz e identificado com a cabala.”

12 Crowley, Aleister: “A Grande Obra é a elevação do homem inteiro em perfeito equilíbrio de poder ao Infinito.”

Builders of the Adytum, Sete Passos no Ocultismo Prático: “Nos escritos alquímicos, lemos que a Grande obra é a Operação do Sol. O sol é também o símbolo do ouro alquímico, do qual Eliphas Levi escreveu: “O ouro dos filósofos é em religião, a razão absoluta e suprema da Filosofia, é a verdade, assim como é também a sombra da causa primeira de onde emana todo esplendor; no mundo subterrâneo, é o ouro mais puro e perfeito. Por esta razão, a busca da “Magnus Opus” é também denominada a busca do Absoluto, e a Grande Obra é denominada a Obra do Sol”.

13 Qliphoth é o plural de Qliphah, cujo significado dado pelos cabalistas judeus é a “Mulher Indecente”. Cada sefirá possui um fator de equilíbrio dinâmico cujos aspectos são desagradáveis ao ser humano. Representam os conteúdos indesejáveis da nossa personalidade constantemente renegados pelo ego. Também possui o significado de desorientação espiritual e são chamadas de “conchas” ou “Cascas Vazias”.

14 Platão, A República (livro VII), Alegoria da Caverna.

15 Schopenhauer, Arthur “A metafísica do belo”.

16 Documentário, Gênios de Stephen Hawking.

17 Liberte-se do mental.

Outras bibliografias:

Astrum Argentum, Instruções do Pilar do Meio
 Bar Joyai, Simeon, Zohar.
 Kaplan, Aryeh, Sefer Yetzirah O livro da criação.
 Tatz, Akiva, A Máscara do Mundo.

Ilustração: 
Pitagóricos celebrando o amanhecer. Óleo de Fyodor Bronnikov (1827-1902).


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© Lúcio José Patrocínio Filho.

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