Segredos do Êxodo [15]. O Êxodo.
Segredos do Êxodo [15].
O Êxodo.
Por Sabbah, Roger.
Tradução: Lúcio José Patrocínio Filho:.
Publicação autorizada pelo escritor.
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No Livro do Êxodo, Javé infligiu praga após praga sobre o Egito porque o coração do Faraó endureceu contra a libertação dos hebreus do país. Pouco antes da última e mais terrível praga, o Faraó ficou furioso com Moisés. E disse-lhe o Faraó [a Moisés]: Retira-te de mim; guarda-te, não continues a ver o meu rosto [panai em hebraico], pois no dia em que vires o meu rosto, morrerás. E disse Moisés: Falaste bem; não voltarei mais a ver o teu rosto. (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer, Êxodo 10:28-29) Vinte e três capítulos depois, na versão aramaica do Êxodo, lemos sobre Adon-Ai, o qual diz algo extraordinariamente semelhante: "Ele [Adon-Ai] disse:" Você não verá meu rosto. Porque ninguém pode ver o meu rosto e viver. "A semelhança desses versículos é reveladora. Demonstra um dos atributos fundamentais do faraó. O rosto do rei, protegido pelo Uraeus (e pelo abutre), não podia ser visto pelas pessoas. A palavra hebraica "panAi", "meu rosto", é um homônimo de medo (dor). O rosto de uma pessoa poderosa inspira respeito e, acima de tudo, medo. Olhar para o Faraó sem sua permissão, constituiu uma ofensa grave. Esta tradição é encontrada novamente no clero e nobreza do Antigo Egito, seguindo o ensino de Ptahhotep: Se você for chamado a sentar-se à mesa de um grande, tome [somente] o que lhe é oferecido [e] quando é colocado debaixo do seu nariz. Você vai olhar o que está na frente de você. Não observe todo o lugar. Porque esse tipo de ofensa é uma abominação para o anfitrião. Deixe o rosto ficar abaixado até que se dirija a você. Só então você falará. Rir depois que ele, ele mesmo, deve ter rido. E o que você pode fazer será agradável ao seu coração. O coração do Faraó havia endurecido depois que cada uma das nove terríveis pragas foram impostas ao Egito. Moisés e Arão foram enviados para longe do rosto de Faraó. Após a morte de todos os primogênitos dos egípcios, o faraó permitiu que Moisés e Arão vissem novamente o rosto. Ele os chamou no meio da noite e exortou-os a levar seus povos para fora do Egito. [...] Levantai-vos, sai dentre meu povo, também vós, também os filhos de Israel, e ide, servi ao Eterno, como falastes. [...] e abençoai-me, também a mim. (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer, Êxodo 12:31-32) Então, os hebreus escaparam no meio da noite. Havia um caos total. ☥ ☥ ☥ O Êxodo bíblico é uma narrativa mascarada do êxodo real dos monoteístas. Na capital do império egípcio, no meio da noite reinou o caos. Toda a população, instada pelo exército egípcio sob as ordens dos generais Horemheb e Ramsés, preparada para evacuar a cidade sagrada, a cidade eterna. Nas inúmeras padarias comuns que serviram ao Grande Templo de Áton, os padeiros apressaram a preparação de pães. A urgência prevaleceu. O exército estava pressionando-os para que começassem. O pão sagrado destinado ao templo não teria tempo de fermentar. Era necessário assar a massa e juntar-se ao resto da multidão: E cozeram com a massa que tiraram do Egito, tortas e pães de ázimos [pão sem fermento ou levedura] que não fermentaram, porque foram desterrados do Egito e não puderam demorar-se, [...] (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer, Êxodo 12:39) Os gritos das mulheres, dos filhos aturdidos e da perplexidade dos idosos mergulharam a população em um pesadelo. ¿Como se resigna a deixar o Egito dos antepassados, a abandonar a cidade sagrada, as casas, o caminho da vida, o passado? O Divino Pai havia amaldiçoado esta terra que já havia sido sagrada. Os exilados teriam que deixar o paraíso terrestre para sempre. Eles estavam cientes da presença do exército, um exército expulsando-os. Os escribas bíblicos afirmam em Êxodo 12:39, "[...] porque foram desterrados do Egito[...]". Na viagem de Aquetaton, as pessoas seguiram para o norte, ao longo do Nilo, na direção de Ramsés, uma cidade para restabelecer as provisões, citada na Bíblia. A logística egípcia exigia que o itinerário começasse de forma a garantir a sobrevivência de um grupo tão grande de civis e soldados. Era necessário providenciar mantimentos a todos. O êxodo dos monoteístas em direção às províncias do norte fazia parte da estratégia política e militar de Ai. Sua ambição política era repovoar a nova terra sagrada de Canaã com um tipo de povo, assegurando uma zona de segurança entre o Egito e o inimigo ao norte. Seu objetivo militar era uma campanha punitiva contra os hititas e filisteus que estavam ocupando a província de Canaã. O itinerário feito pelos monoteístas egípcios era idêntico à descrição bíblica do caminho do Êxodo. Os seguintes versículos da Bíblia descrevem a rota: E viajaram os filhos de Israel de Ramsés a Sucot[...] (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer, Êxodo 12:37) Adon-Ai falou com Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, dizendo que regressem e acampem diante de Pi-hairote, entre Migdol e o mar - em frente a Baal-Zefom [um fortalecimento egípcio], no lado oposto, faça o seu acampamento. (Bíblia Aramaica, Êxodo 14:1)
O exército do faraó não estava perseguindo o povo, como nos relatos da Bíblia. Acompanhou os exilados. Durante o reinado de Tutancâmon, Ai, generalíssimo e mestre incontestável do Egito, ordenou que seu exército acompanhasse os deportados, conforme detalhado na Bíblia aramaica. A rota levou o grande grupo migratório para além de vários fortes, de onde podiam adquirir novas provisões e, assim, evitar certas mortes no árido deserto do Sinai. A história da Bíblia tem os exilados vagando no deserto do Sinai por quarenta anos. E cresceu a ira do Eterno contra Israel, e os fez andar errantes pelo deserto quarenta anos [...] (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer, Números 32:13) Historicamente, os exilados de Aquetaton não conseguiram colonizar Canaã imediatamente. Uma carta de Rib-Hadda, implorando ajuda de Aquenáton, mostra a seriedade da situação. O exército egípcio teve que abrir o caminho. Eis que sou servo leal do rei, e o rei não tem servo igual a mim. Anteriormente, à vista de um egípcio, os reis cananeus fugiram antes dele. Mas agora, os filhos de Abdi-Ashirta [rei de Amuru, cujo filho, Aziru, tinha vínculos com os Apiru] fazem os egípcios andarem em círculos. O exército teve que travar batalha contra os nômades Apiru. A campanha foi um sucesso e para os exércitos de Ai, citados várias vezes na Bíblia, foi fácil recuperarem as cidades dos cananeus ocupadas pelos Apiru. As cartas de Amarna enviadas a Aquenáton indicam que uma centena de soldados egípcios e cinquenta carros eram suficientes para que o inimigo Apiru fugisse aterrorizado. Qualquer um de vocês homens pode derrotar mil, porque é Adon-Ai, seu deus, que luta por você, como ele prometeu. (Bíblia aramaica, Josué 23:10) Atrás dos Apiru derrotados estavam duas poderosas forças militares, os hititas e os filisteus. A presença hitita reteve o exército egípcio, embora tenha subido até Kadesh. Ai era suficientemente esperto para evitar uma guerra aberta com os hititas naquele momento. A Bíblia (Êxodo 13:17) indica que os filisteus também estavam próximos, e que a guerra contra eles não seria bem-sucedida. Os contratempos de Moisés no início do êxodo correspondem aos reversos históricos do exército egípcio comandados pelos generais Horemheb e Ramsés durante o primeiro ano do reinado de Tutancâmon. Cyril Aldred explica que as expedições militares estrangeiras haviam falhado. Quanto às orações e súplicas, eles permaneceram sem qualquer resposta. Na Estela da Restauração está escrito: Se um exército é enviado para a Fenícia para ampliar as fronteiras do Egito, isso não traz nenhum sucesso. Se rezamos para que um deus obtenha qualquer coisa, ele não responde. Uma vez que a campanha militar falhou, os exilados tiveram que esperar na Terra de Moabe, até que um exército egípcio viesse forte o suficiente para conquistar a Terra Prometida. ☥ ☥ ☥ Uma história intrigante é contada na Bíblia sobre a Divisão das Águas do Mar Vermelho: Moisés estendeu a mão sobre o mar, e Adon-Ai forçou o mar para trás. Os filhos de Israel entraram no meio do mar, secos, e as águas eram para eles um muro à sua direita e à esquerda deles. (Bíblia Aramaica, Êxodo 14:21-22) O Mar Vermelho é um nome dado pelos helenistas em sua tradução da Bíblia hebraica. Na Bíblia, o corpo de água é chamado de "Mar de Juncos" (yam suf). A história do cruzamento é uma mensagem dos escribas para recuperar um dos ensinamentos básicos do Antigo Egito. Os textos das Pirâmides relatam que o Faraó tinha o poder de separar as águas, formando um espaço entre elas, para permitir que a luz ilumine a terra. O Mar dos Juncos na mitologia egípcia era o oceano dos faraós, o Nun. Foram as águas primordiais da Criação. Assim como o deus Amon separou as águas daquele Mar de Juncos, o Divino Pai Ai triunfou sobre Aquenáton e Semencaré, os faraós monoteístas. A separação das águas representou a ruptura entre Amon e Áton, entre o Egito e seus sacerdotes. A Bíblia, de acordo com os textos das Pirâmides, diz que o evento acontecia durante a noite. Várias expressões que estão presentes na Criação do Mundo (Gênesis 1) são encontradas no episódio do Mar Vermelho: [...] e foi a nuvem e a escuridão (para os egípcios) [os hebreus e o exército egípcio perseguindo-os], e iluminou (a coluna de fogo a Israel) à noite; e não se aproximaram um do outro toda a noite. E estendeu Moisés sua mão sobre o mar e levou o Eterno o mar, com um forte vento oriental, toda a noite, e fez do mar terra seca, e foram divididas as águas. (Bíblia hebraica, A Lei de Moisés-Torá, Ed. Sêfer, Êxodo 14:20-21) A separação das águas do Mar Vermelho ou do Mar dos Juncos, acrescentado aos diferentes símbolos (guerra, escuridão, mar, tempestade, noite, luz), lembra a história da Criação, onde encontra-se tohu-bohu, a Respiração Divina, a luz, a separação das águas (Gênesis 1). O milagre do Mar de Juncos simboliza uma nova criação do mundo, um novo susto, o início em direção à outra vida, a passagem de um mundo antigo para um novo. Uma segunda mensagem contida no episódio bíblico diz respeito à discussão sobre se a rivalidade noturna permitiu que Deus fosse o conquistador em plena luz do dia. Os egípcios acreditavam que, durante a escuridão da noite, depois que o deus Re morreu (como fez no pôr-do-sol todos os dias), o Faraó percorreu a escuridão, lutando contra as forças malignas das trevas. No conflito entre as duas divindades da escuridão e da luz, os egípcios sabiam que o faraó navegava sobre as águas celestiais, combatendo as forças do mal para eles, durante toda a noite. Esta imagem pode ser vista no túmulo de Ramsés I. O nascer do sol foi interpretado como um renascimento do faraó vitorioso. A luz havia triunfado sobre as trevas, como a vida triunfa sobre a morte. O significado mitológico do Êxodo foi que a morte do Deus da Luz foi seguida pelo renascimento. E, no plano terrestre, a morte do antigo faraó foi seguida pela entronização de um novo rei do Egito, Tutancâmon, o filho simbólico de Ai, como confirma o túmulo do jovem rei. Ai coroou o novo rei e tornou-se a primeira divindade do Egito, repetindo o milagre de Amon, separando as águas e criando os céus e a terra. ☥ ☥ ☥ Essas são as interpretações simbólicas ou mitológicas da história do Êxodo. Mas por trás delas estava a lembrança de um êxodo histórico, que se desenvolveu em duas fases. Na primeira fase houve a reconquista de parte dos territórios cananeus e moabitas situados longe da influência fenícia, a três dias de marcha da cidade bíblica de Pi-Ramsés. Uma vitória limitada sobre os Apiru permitiu evitar um confronto com a hititas. O Egito, num período de completa reorganização política e religiosa, não poderia arriscar um conflito com as poderosas forças dos hititas apoiados pelos filisteus. No final do período amarniano, no início do reinado de Tutancâmon, a fraqueza do exército egípcio foi confirmada historicamente. Uma vitória hitita provavelmente significaria um eventual retorno dos monoteístas. Ai era estrategista o suficiente para saber que o melhor caminho seria evitar as hostilidades e manter os exilados na Terra de Moabe, até que o Egito pudesse lançar uma campanha de sucesso em Canaã. Demorou quarenta anos antes que uma campanha desse tipo pudesse ser travada com sucesso. Na segunda fase do êxodo, quarenta anos depois, o período em que os escribas projetavam nas escrituras a longa espera no deserto, Seti assume a segunda campanha em Canaã no início de seu reinado. Suas vitórias permitiram a repovoamento do norte do país e a recaptura da cidadela de Kadesh dos hititas. O Êxodo bíblico ocorreu durante os quarenta anos errantes dos filhos de Israel no deserto entre o Egito e Canaã. Os quarenta anos realmente representam o tempo entre as campanhas militares realizadas pelo Egito para recuperar o controle de sua província de Canaã. Com as vitórias de Seti I, o Êxodo acabou, e os Yahuds monoteístas entraram triunfantes em sua Terra Prometida. |
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| © Lúcio José Patrocínio Filho. |



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