Ensaios Herméticos.

Ensaios Herméticos.

Por Lúcio José Patrocínio Filho:.

Traduzido ao latim por Ficino, seu conteúdo entrelaça concepções platônicas e estoicas, nas quais o mundo é amiúde considerado o “vivo imortal”. Exerceu forte influência nos princípios da alquimia e seus modelos conceituais continham elementos ocultos que superaram a filosofia natural cristã escolástica, contribuindo a conformar o racionalismo e o experimentalismo. Faz parte de um conjunto de três textos herméticos, a saber: Corpus Hermeticum, Diálogo de Asclépio e Tabula Smaradigna. As culturas egípcia e grega estão presentes, mas a origem persa-babilônica de seus fundamentos e alguns elementos judaicos é inegável. Consta de 18 textos e o mais expressivo e antigo é o Poimander, o qual abarca assuntos sobre teologia, teosofia, a alma desde um enfoque platônico e neoplatônico e a gnose do gnosticismo. Nele a astrologia e a magia determinam sua cosmologia e sua conexão moral com os elementos e elementais da Natureza, e relata a criação do mundo pelo filho de D’us, um ser iluminado.

Hermes Trismegistos

Corpus Hermeticum foi recompilado inúmeras vezes no período entre 100 a.C. – 300 d.C., período no qual este documento hermético passou a ser referenciado como obra de Hermes Trismegisto, personagem que se encaixa melhor nas histórias de fantasia, contudo sua imagem transcendental e seus significados iniciáticos são muito úteis na construção de qualquer ensaio esotérico. Segundo Carl Gustav Jung, em seu livro: “O Livro Vermelho”, tal personagem é oriundo da fusão do deus grego Hermes com o deus egípcio Thoth, caracterizado como Thoth três vezes grande, que em latim é conhecido como “Mercurius ter Maximus”, o escriba e intérprete dos deuses.
Do século VII ao XV seus escritos foram transmitidos e ampliados pelo Islamismo árabe, mantendo-se desconhecido pela Europa, até que o humanista florentino, um dos pais do pensamento Renascentista, Marsílio Ficino (1433-1499), a pedido do diretor da Academia de Florença, Cosme de Médici, traduziu os textos ao latim, passando a exercer grande influência no surgimento da Ciência Natural, na alquimia e nas concepções religiosas. Foi nessa época de desbravamento filosófico que os textos foram entregues ao círculo de Médici, do qual era membro, ninguém menos que Leonardo da Vinci, quando um de seus membros mais ilustres, Pico della Mirandola, filósofo e escritor, escreveu sua obra intitulada “Conclusões”, onde combina hermetismo, zoroastrismo e cabala das escolas judaicas espanholas. Corpus Hermeticum é um corpo de textos Greco-egípcio-persa, rico em ensinamentos esotéricos como a reencarnação, as esferas, os sete corpos e a imortalidade da mente superior (a inteligência), e foi de grande importância na alquimia e doutrinas secretas do Renascimento, graças à crença na real existência do sábio egípcio Hermes Trismegisto e na verdade de seus textos antigos, até que no final do século XVI, o protestante e humanista, estudioso e helenista, Isaac Casaubon (1559-1614), demonstrou que Corpus Hermeticum era na realidade uma obra da era cristã. Assim mesmo seus conceitos são como chaves que ainda nos dias de hoje abrem os segredos das escolas esotéricas.
O Renascentista italiano, Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494), filósofo neoplatônico, teólogo e cabalista, fundiu os conceitos do Corpus Hermeticum com os da Cabala hebraica e, mais tarde, o frade dominicano, o italiano Giordano Bruno (1548-1600), elaborou uma técnica que utilizava imagens mnemotécnicas para levar a estados alterados de consciência, e defendia conceitos teológicos que lhe custaram a condenação à morte na fogueira pelo Santo Ofício que, com sua Inquisição, deteve o progresso com suas famosas e tão relatadas queimas de bruxas. Dessas perseguições brotaram as sociedades ocultas, pois de alguma forma teriam que transmitir seus conhecimentos, até que em 1850, a França tornou-se um abrigo para os ocultistas, ao anularem as leis que proibiam a magia. Foi quando triunfou o mago e ocultista francês, Eliphas Levi (1810-1875), conformando o ocultismo moderno e abrindo as portas para grandes esotéricos como a Madame Blavatsky (1831-1891).
Corpus Hermeticum é o entrelaçar de tradições que transcende aos conceitos platônicos e está carregado de conhecimento empírico dos processos alquímicos remanescentes do antigo conhecimento egípcio, uma civilização que desde tempos remotos já lidava com metais, cerâmica, vidro, vernizes, cores, cervejas, óleos corporais e cosméticos. Mas é sabido que esses conhecimentos foram mantidos em segredo por sacerdotes, e desse secretismo gerou-se a ética do silêncio. Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (1486-1535), Nicolaus von Kues (1401-1464), Paracelso (1493-1541), Andreas Libavius (1555-1616) e outros intelectuais reformistas do Renascimento, embasaram suas obras nos escritos herméticos, consolidando o legado hermético como um dos pilares do pensamento mágico ocultista.
É fácil comprovar suas conexões com as sabedorias egípcia e grega: “Pois tu és tudo quanto eu sou; és tudo quanto faço; és tudo quanto digo. Tu és tudo, e não existe nada mais; o que não é, tu és. Tu és tudo quanto chegou a ser; tu és o que não chegou a ser” (CH V.11). Algo semelhante pode ser encontrado nos textos egípcios do Livro dos Mortos: “tal é ele... tal sou eu” (cap.64). Assim como nos Papiros Mágicos Gregos: “Tu és eu e eu sou tu, teu nome é meu nome e o meu é o teu” (PGM VIII. 38-40; também em XIII 793, V 145 e XII 227). ¿Mas como entrar em um estado tal em que já não há sensação alguma do “eu”? E se anulamos o “eu”, então o “tu” e o “ele” perdem o sentido existencial, pois somente existiria o inefável, “aquele que é Único” (CH X.14). Todas essas afirmações corroboram em que o conhecimento hermético exerce sim influência nas Ordens Iniciáticas contemporâneas, pois o “tu és eu e eu sou tu” está presente quando nos vemos no espelho.

Demiurgos
Demiurgos, (em grego: δημιουργός (Criador)), “Aurora do Mundo” de William Blake,1794.


O Evangelho de João é claramente uma mistura de textos cristão-gnósticos que, por sua vez, eram nada mais nada menos que plágio do Corpus Hermeticum. Nele temos o seguinte versículo: “No princípio era o Verbo, e o verbo estava com D’us, e o Verbo era D’us” (João 1, 1). Agora vejamos o texto mais próximo das versões mais antigas em grego koiné: “Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεός ἦν ὁ λόγος.” Perceba que em grego original há uma diferença nas duas vezes em que aparece o nome “D’us” (o Pai) e “deus” (o filho), pois o primeiro é Theon (Pai) e o segundo Theos (filho). Nas traduções pobres a outros idiomas esse detalhe foi perdido. A frase correta deveria ser: “No princípio era o Verbo, e o verbo estava com D’us, e o Verbo era deus” (João 1, 1). Esse deus filho somos todos nós. Trata-se de um pensamento hermético, o mesmo que diz: “tu és eu e eu sou tu”, certamente plagiado e modificado no Concílio de Niceia em 325 d.C., para confundir os fieis numa época em que o imperador Constantino aceitou o Cristianismo para utilizá-lo como instrumento de domínio sobre a população romana que a cada dia fazia-se mais cristã.
Em um curto tratado intitulado Koré kósmou (pupila do cosmos), constata-se a influência estoica, quando se fala da criação das almas e do mundo pelas mãos de um criador divino que realiza combinações químicas, detalhando a formação de uma matéria sutil a partir de um alento (pneuma) e do fogo. O que se conecta também com o gnosticismo, pois o termo Demiurgo (artesão) ou demiurgos (Criador) no gnosticismo, faz referência ao arconte ou chefe da ordem dos espíritos inferiores ou éons. De acordo com os gnósticos, o Demiurgo era capaz de dotar o homem apenas de psique (alma sensível), pois o pneuma (termo que entre os antigos pensadores gregos, sobretudo entre os estoicos, designava o espírito, sopro animador ou força criadora, pela razão divina para vivificar e dirigir todas as coisas) seria dado por D’us, e os gnósticos identificam o Demiurgo com o Jeová dos hebreus.
Alquimistas de todo mundo antigo encontraram em Alexandria um lugar onde poder realizar com liberdade seus assuntos herméticos e cultos misteriosos. Com a clausura da biblioteca, esses adeptos da prisca sapientia buscaram refúgio entre os cabalistas e os movimentos monásticos, muitos deles portando o tratado hermético que resume o saber da arte da transmutação. A alquimia encontrou refúgio entre os muçulmanos, e a prova disso está em que o Sufismo ainda hoje trabalha com os conhecimentos herdados da escola de Alexandria, conservando o caráter sagrado da ciência oculta.
Em Anatólia, Konya converteu-se na segunda cidade mágica pós Alexandria, e as bibliotecas do mundo islâmico transformaram-se no lar do conhecimento alquímico. As invasões islâmicas na Espanha fizeram de Toledo a cidade mágica da Europa, a nova Alexandria ou nova Konya, gerando cabalistas hebreus, cristãos e sufis. Surge a grande alquimia medieval após a reconquista dos cristãos no século XI, consolidando a alquimia em toda Europa.
O racionalismo do século XVII faz desaparecer a alquimia, que regressou no período entre guerras mundiais, em parte pelo desapontamento com o pensamento científico e em parte pelo retorno da espiritualidade.
No caminho mágico da Escola de Florença o neoplatonismo era como um caldeirão no qual borbulhava o ensopado Renascentista que tinha como principais condimentos o aristotelismo e o platonismo. Os textos herméticos, ainda que sendo obras de escritores cristãos que flertavam com as seitas gnósticas, deixaram um conceito central: “a Unidade é a causa do ser”, conceito presente no discurso cabalístico, desde o Sefer Yetsirah do século VI, passando pelo Sefer Zohar do século XIII, até chegar no mito neoplatônico da Cabala Luriana do século XVIII.
Finalmente, nos textos do Corpus Hermeticum encontramos as doutrinas de Pitágoras de Samos, e a fórmula da relatividade de Einstein é nitidamente inspirada no pensamento filosófico pitagórico. É possível que haja muito mais conhecimento em textos similares ou partes desse corpo que possam ter-nos sido ocultadas ao longo da história humana. Gosto de pensar que eles realmente existam em alguma biblioteca de alguma ordem secreta ou mesmo na biblioteca secreta do Vaticano, a tão corretamente intitulada Sanctus Infernum, pois o conhecimento pode ao mesmo tempo iluminar e enlouquecer a mente humana. ∆


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Referencia Bibliográfica:
Ambelain, Robert, Jesús ou o segredo mortal dos templários, 1970.
André-Jean Festugière, Corpus Hermeticum, 4 tomos, Paris: les Belles Lettres, 1946-1954.
Autor desconhecido, Alquimia, A alquimia medieval rumo à pedra filosofal.
Claus Priesner e Karin Figala, Alquimia, Enciclopédia de uma Ciência Hermética, 1998.
Czajkowski, Hania, A Conspiração dos Alquimistas, 1999.
Doravâl, Charlas para masones: Los métodos de meditación. Volume I, 2012.
Eliphas Levi, Dogma e Ritual da Alta Magia (Dogme et Rituel de la Haute Magie),1854.
Enciclopédia Ibero-americana de Filosofia, 1994.
Jung, Carl Gustav, O Livro Vermelho, 2009.
Lewis Garilic, Josef, Enigmas das sociedades secretas.
Pérez Ruiz, Mario, Pitágoras, o mistério da voz interior, 2000.
Picknett, Lynn e Prince, Clive, A Revelação dos Templários, 1997.
Plotino, Enéadas IV.
Textos antigos de Platão.

Imagens:
Edição holandesa da obra hermética Corpus Hermeticum, impressa em 1643.
Demiurgos, (em grego: δημιουργός (Criador)), “Aurora do Mundo” de William Blake,1794.


© Lúcio José Patrocínio Filho.

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