|
A Simbologia
Os significados dos símbolos permanecem ocultos aos olhos daqueles
que não conhecem a semiótica divina.
No sentido estritamente etimológico, o termo “teologia”, tem uma
relação estreita com o simbolismo, pois θεo [theo] é utilizado para
construir as palavras θεóv e θεòς [theon e theos] “D’us pai e deus
filho” ou “D’us e deus”; e λογος [logos] significa “estudo”.
Portanto, “teologia” significa: “estudo de tudo o que nos conduz a
D’us, nos aspectos macrocósmico e microcósmico”, por isso o
simbolismo não convém ao racionalismo e os racionalistas não toleram
o simbolismo. René Guénon questionou exaustivamente o assunto,
afirmando que os racionalistas entenderão os símbolos como algo
orientado à intuição da fé, pois contém uma realidade que unicamente
pode ser observada por quem experimentou essa realidade, o que gera
uma espécie de armadilha, onde um símbolo leva a outro e a outro
infinitamente. Logo, por intermédio da razão, não se pode regressar
ao Criador. É necessário algo mais; e é justamente esse “algo” o que
escapa da razão.
Sobre o poder da simbologia, René Guénon escreveu que “a filosofia
é essencialmente analítica, como tudo o que é expressado com as
formas ordinárias da linguagem, diferentemente do simbolismo, que é
essencialmente sintético. Por definição, o formato da linguagem é
“discursivo”; pelo contrário, o simbolismo é verdadeiramente
“intuitivo”, o que, naturalmente, o faz incomparavelmente mais apto
que a linguagem, para servir de ponto de apoio à intuição
intelectual, e esta é, precisamente, a razão de que constitua o modo
de expressão, por excelência, de todo ensinamento iniciático. A
filosofia representa, em todo caso, o tipo de pensamento discursivo
– sem querer afirmar que todo pensamento discursivo tenha um caráter
especificamente filosófico –, e isto é o que impõe essas limitações
irresolúveis; já o simbolismo, enquanto suporte da intuição
transcendente ou metafísica, abre possibilidades verdadeiramente
ilimitadas.”
René Guénon foi contundente ao afirmar que “devido a seu caráter
discursivo, a filosofia é exclusivamente racional e por sua vez
intrínseca à razão; logo, o domínio da filosofia e de suas
possibilidades não pode estender-se em nenhum caso além do que a
razão é capaz de alcançar”.
Disse ainda que “mesmo admitindo que a filosofia possa ir tão longe
como lhe é teoricamente possível, sua transcendência será sempre
insuficiente, pois servindo-se da expressão evangélica: “só uma
coisa é necessária”... será precisamente esta “coisa” o que
permanecerá sempre proibida, porque está por encima e além de todo
conhecimento racional”.
|
|
Ouroboros, do grego οὐρά “cauda” e βόρος “devora”,
símbolo alquímico da eternidade, evolução, coagulação e
eterno retorno a si mesmo. “Perguntou o Senhor Deus à
mulher: Que é isto que fizeste? Respondeu a mulher: A
Serpente enganou-me, e eu comi.” Gênesis 3:13.
|
O termo “símbolo”, do grego σύμβολοv “symbolon”, do verbo
“symbalho” que significa “reunir”, “juntar”, e “symbolé” que
significa “ajuste”, pode ser explicado como o Adão Primordial – o
Adão Kadmon –, aquele que era a imagem e semelhança de D’us, porém,
quando Ele criou a mulher, ao fazê-la com as costelas de Adão,
dividiu sua imagem ao meio, em lado feminino e lado masculino e,
portanto, a imagem e semelhança de D’us passou a ser a união entre
um homem e uma mulher – é a união de duas metades opostas, para
formar o Adão Primordial –. No Zohar – o livro do esplendor – está
dito que “as palavras “et haschamaim” indicam que as últimas duas
não devem ser separadas e que devem estar juntos, varão e fêmea”.
Ainda no Zohar, no capítulo Bereshit está dito que “a palavra
“Haschamaim” é YHVH em sua significação mais elevada, e que a
palavra siguiente, ve-et, indica a união firme entre masculino e
feminino; também alude à denominação ve-YHVH (e o Senhor), e as duas
explicações levam à mesma conclusão”.
Sobre isso há infinidades de estudiosos que, como Carlos del Tilo,
explicam muito bem a questão das metades que se unem para formar um
objeto primitivo e assim constituir um signo de reconhecimento.
Logo, não há magia se a união não ocorre entre pares de opostos; ou
o que é o mesmo: a chispa divina somente ocorrerá na união entre um
homem e uma mulher. Essa questão foi exaustivamente debatida pela
Madame Blavatsky e por Alice Bailey. De fato, qualquer Ordem
esotérica que se preze, terá como sendeiro o caminho do meio, aquele
pelo qual o iniciado caminha entre pares de opostos, entre a luz e a
escuridão, tal e como afirmava Blavatsky: “Não pode haver
manifestação se não há diferenciação entre Pares de Opostos”.
Finalmente, a união entre homem e mulher designa um signo e seu
significante representa D’us.
Essa é a “razão” pela qual, sempre que se estuda simbologia,
termina-se alcançando o símbolo primeiro, o mistério interior, o
Adão Primordial, além do qual não se consegue avançar; a filosofia
não alcança e a razão não é suficiente para abarcar esse “algo”
que falta para fechar o círculo sagrado. É como estar em um
caminho eterno, como se de uma circunferência tratasse, que à
diferença de uma reta, não tem começo nem fim. Essa é a razão do
compasso ser tão utilizado como símbolo do Divino, porque se D’us
fosse uma esfera, sua circunferência seria uma reta.
|
|
1 A figura mostra o Rei e a Rainha apontando a um frasco no
qual o processo alquímico será realizado. Sobre os
filactérios um fragmento do Rosarium Philosophorum que vem
da Turba Philosophorum. O Rei Sol diz à esposa: “Venha
abraçar-me, amada minha, e geraremos um novo filho, que não
se assemelhará aos seus pais.” e as respostas da Rainha Lua:
“Eis que virei a ti, e estou preparada para conceber tal
filho, cujo nome não há no mundo.” 2 Ao centro da
figura o frasco representa Mercúrio e dentro dele há uma
mulher com uma cabeça solar segurando um homem aparentemente
abatido. Juntos representam o espírito brilhante e o sal
inferior. O processo pelo qual eles estão unidos é o da
morte e renascimento. 3 Na gravura os consortes estão
em pé sobre duas montanhas distintas e o abismo entre eles é
mostrado como um lugar apropriado para sua união pela qual
uma criança incomparável será engendrada. 4 Nas fendas
das montanhas há garras de duas águias referindo-se a uma
terra condenada que surge através da arte da alquimia e que
também não sabe da dor e da decrepitude ou da morte. 5
Segundo está escrito na Tábua de Esmeralda, o sol é o pai e
a lua é a mãe da Pedra filosofal (Johann Daniel Mylius,
Anatomia Auri, Lucas Jennis, Frankfurt, 1628).
|
A ciência comprovou que a segunda lei de Newton funciona
perfeitamente para baixas velocidades, mas essa equação torna-se
falsa, a medida em que uma dada massa alcança velocidades próximas à
da luz. É um gráfico exponencial, no qual a massa permanecerá
inalterada, até que repentinamente aumentará exponencialmente,
quando a quantidade de movimento atinja valores próximos ao
movimento da luz. Os mais modernos aceleradores podem levar um
elétron à uma velocidade apenas ~35m/s menor que a velocidade da
luz, e a massa desse elétron aumentará ~2000 vezes nessas condições,
tornando-se maior que um próton. Não há a necessidade de expor aqui
as equações que demonstram a matemática de toda essa descoberta,
cada qual que busque esse conhecimento na física e na matemática,
pois o que se pretende é demonstrar que para alcançar o Criador é
necessário retirar da equação as variáveis: tempo e massa – o que
provocaria uma velocidade infinita, instantânea como a velocidade do
pensamento.
Se D’us é o tudo, sua velocidade é infinita, e em seu reino não há
massa e não há o tempo. Portanto, tentar alcançar a velocidade da
luz é como tentar alcançá-Lo. Logo, não é possível alcançá-Lo
fisicamente.
D’us é considerado o Eterno e o Tudo, portanto tudo é eterno e é
Ele mesmo. Eis o limite que a razão alcança. Se D’us é perfeito,
como poderia criar algo imperfeito? Portanto o Universo é D’us,
eterno e perfeito. A ciência começa a aceitar a hipótese de que o
universo é eterno e que simplesmente a humanidade ainda não é capaz
de compreender tal conceito. Se D’us é o Tudo, não houve princípio e
Ele não criou o universo do nada, pois o próprio Nada, caso
existisse, seria Ele mesmo, senão Ele não seria D’us. Logo, tudo é
eterno. Os panteístas estavam certos quando afirmaram que “o mundo
tem a mesma essência de D’us“.
Esse conceito de eternidade leva à dedução de que “não houve um
princípio” – o que iria em contra dos textos sagrados do Gênesis
–, mas aplicando a guematria judaica no primeiro versículo em
hebraico, já é possível entender que D’us é o Tudo e que por esse
motivo precisou restringir seu poder para criar o universo. Logo,
o universo está em D’us. No mesmo versículo, ao estudar onde
aparecem juntas as letras תא (alef e taw, “et” – primeira e última
letra do alfabeto hebraico –), conclui-se que o Verbo já existia
antes da criação, portanto o universo já existia de alguma outra
forma antes da criação. Há teorias científicas que sugerem a
existência de outros universos e que seus movimentos podem ser de
expansão e retração, portanto sugere que um universo pode
contrair-se até causar um novo Big Bang, criando um novo universo,
o que leva diretamente à teoria do eterno. Tudo existe
eternamente, com o qual, a primeira palavra do Gênesis, ב
“Bereshit”, significa um recomeço; é o nosso Bereshit, mas não é o
primeiro e muito menos será o último. Tal e como afirmou Stephen
Hawking, “o universo começou na ponta do seu nariz“, o que reforça
o conceito de eternidade, pois seja onde estiver o observador, o
universo estaria sempre em expansão.
|
|
6 Seleção de miniaturas que descrevem o nascimento do
filho filosófico depois das distintas operações que
acontecem no vaso alquímico (Anônimo, Donum Dei, final do
século XV).
|
 | | 6 Seleção de miniaturas que descrevem o nascimento do filho filosófico depois das distintas operações que acontecem no vaso alquímico (Anônimo, Donum Dei, final do século XV). |
Um utensílio de cerâmica quebrado ao meio, duas partes de um todo,
encontradas por arqueólogos em algum sítio arqueológico do Egito, um
objeto dividido ao meio pelas areias do tempo, signos fragmentados
que voltam a ser uno pelas mãos do homem, e a partir desse símbolo
encontrado poderão resgatar infinitos significados que servirão para
decifrar os desejos e conflitos das tradições do Antigo Egito, sua
sociedade, pensamentos, palavras e como tudo relaciona-se
simbolicamente.
Se eu fosse Carl Gustav Jung, talvez inovasse seu pensamento
afirmando que “os símbolos revelam as verdades do espírito”[1] e por
esta razão o faz infinitamente mais apto a servir de ferramenta para
alcançar aquele “algo” a mais que a razão não alcança, ainda que
soubesse que o alcançá-lo causaria a morte do símbolo.
É madrugada e já deveria estar dormindo, entretanto aqui estou eu,
como uma aura, diante de algum altar egípcio, arroupado por
espíritos que, a julgar por suas vestimentas antigas, possivelmente
sejam oriundos de algum passado distante.
O espelho da vida descansa sobre o chão branco e negro, refletindo
um arco-íris de possibilidades a quem saiba dar e receber com o amor
verdadeiro por diante. Mesmo encontrando-me na mais densa escuridão
da pirâmide, mesmo sabendo que tal momento é simplesmente um sonhar
acordado e que o templo encontra-se fechado aos trabalhos, não posso
deixar de surpreender-me ao ver os espíritos destes antigos obreiros
que me rodeiam nesta profunda projeção espiritual.
O mais velho dentre eles aproxima-se do altar e ajoelha-se,
colocando-se a observar-se no espelho, como se tratasse de um
“recordo de si”. Por um momento medita em silêncio e como se eu não
estivesse ali, começa a recitar:
– No espelho vejo o Sol, a Lua e as Estrelas, mas não me vejo. Vejo
o mar embravecido pela tormenta da vida e um barco atracado no
porto, pronto para zarpar com todas as ferramentas necessárias para
a travessia pelo grande oceano do meu destino, mas não sou eu ali na
proa. Não fui capaz de enxergar as cores do arco-celestial e
tampouco tive a vontade necessária para navegar rumo ao grande farol
universal. Reconheço os signos intrínsecos em cada um desses
símbolos, contudo não fui capaz de alcançar transcendência alguma. –
o ancião gira-se para fixar seus olhos nos meus e diz – O senhor
sabe ver além do espelho?
O espírito desaparece na escuridão do templo, tragado pelas ondas
do mar. Outro obreiro ancião acerca-se e ajoelha-se; e repetindo o
que parecia ser uma espécie de Ritual do Arrependimento,
recita:
– No espelho vejo um portal, vejo oferendas de romãs e colunas
fundidas em bronze, mas não me vejo. Vejo os degraus da grande
pirâmide, dourada pelo reflexo do sol na areia dos caídos. Vejo o
Grande Olho, que como um arquiteto do universo, desde o alto orienta
os obreiros na edificação da sua obra. Vejo a luz abrasadora do sol
açoitando a pirâmide, a areia do deserto e a pele daqueles obreiros
que caminham sobre enormes pedras. Subi sim estes degraus outrora,
mas ainda que eu tenha sabido manejar as ferramentas necessárias
para polir tão pesadas pedras, em algum momento da minha arrogância,
lapidando caí. – este ancião também fixa seu olhar nos meus olhos e
diz – O senhor sabe lapidar?
O ancião desaparece entre a areia do deserto. Caminho ao altar dos
símbolos e recito:
– Vejo a alvorada e a mim mesmo no espelho. Vejo símbolos talhados
nas pedras e contemplo os demais degraus desde longe, consciente de
estar seguindo o caminho entre o sol e a lua. Percebo então algo
além, algo que permanecerá oculto aos olhos daqueles que não
conhecem a semiótica divina. Algo que não posso expressar com
palavras.
O símbolo é como um fetiche; captura a alma do observador,
devolvendo-a com algo a mais, mas esse “algo” já estava lá, oculto
no consciente e no inconsciente, porque o símbolo não oculta nada em
si mesmo. Ele é como um buraco negro, o qual sabemos que existe e
até podemos explicá-lo, mas sua verdade inefável está oculta na mais
profunda escuridão, além da razão e do belo.
Um presságio de algo bom, que está por ser conhecido, uma chispa
divina, que provoca o movimento do ser que o contempla e coloca-o em
estado de meditação efetiva, porque com vontade e conhecimento
edifica-se o templo; com amor e o coração puro expande-se a alma e
flerta-se com a gnose divina.
O símbolo deve ser transportado a um lugar oculto, algo como um
lugar no imaginário, onde seja possível alcançar um estado elevado
de consciência tal que permita à mente ir além da razão, algo como o
que o neognóstico Samael Aun Weor definia como o “mental superior” e
“emocional superior”, que de forma simples pode ser explicado como
um estado mental e emocional de profundo equilíbrio de forças, que
somente pode ser alcançado por aqueles que transcenderam aos egos,
transcendência que, por sua vez, pode ser conseguida por meio do
equilíbrio daquilo que foi chamado por Samael, de os cinco centros
da máquina, a saber: intelectual, emocional, instintivo, motor e
sexual.
É equilibrar-se em todos estes centros e conhecer os mecanismos dos
egos, para tornar-se verdadeiramente livre de todos eles, ainda que
se continue portando-os dentro; ainda que no final de uma vida,
tenham-se tornado do tamanho de uma montanha. É tomar as rédeas de
si mesmo, fazer-se consciente de seu lugar no universo, consciente
de suas possibilidades além físico, para assim liderar-se em direção
aos estados transcendentes da mente e da alma, em um lugar onde a
razão não alcança, pois vai além do físico, portanto um lugar
metafísico onde o símbolo ser-lhe-á revelado, tanto à sua
inteligência, quanto à sua alma.
Tal e como afirmou o filósofo Mircea Eliade, “O simbolismo é uma
informação imediata da consciência total.” Em outras palavras seria
o mesmo afirmar que a percepção desse “algo” não pode ser alcançada
se o observador não se faz ator do processo perceptivo, algo como
querer que se acendam as lâmpadas de um templo escuro, mas que para
isso será necessário um ato de vontade, um ato participativo de
apertar fisicamente o botão, para que haja luz. Esta experiência
sensível é subjetiva, pois o símbolo será sempre um objeto
subjetivo, com o qual a percepção da intensidade dessas luzes será
diferente para cada sujeito, e aquele que consiga perceber sua
máxima intensidade, também conseguirá perceber melhor todas essas
coisas que estavam invisíveis em seu templo interior. Logo, o
símbolo revelar-lhe-á coisas que estavam ocultas dentro dele mesmo,
e assim descobrirá que ele não era quem ele pensava ser, e a partir
de então passará a entender-se por meio desse novo “algo” que a ele
estava invisível. Para entender melhor este conceito, pode-se
mergulhar na obra de Jean Servier, “L'homme et l’invisible” (O homem
é o invisível). Indo além, cada lâmpada iluminará um lado do templo,
com o qual os símbolos estarão interligados, pois cada símbolo trará
certa luz ao que lhe está oculto e gerará sombras entre eles. Uma
lâmpada iluminará melhor aquilo que esteja próximo a ela, assim como
um símbolo, que representa melhor aquilo que lhe tenha melhor
relação. Mas a luz de cada lâmpada alcançará todo o templo, ainda
que a intensidade de cada uma delas irá suavizando-se pela
distância, e ainda que a isso deva-se acrescentar o fato de que cada
sujeito logrará dar uma intensidade particular a cada luz.
Assim, em todas as dimensões do universo físico e metafísico,
tudo está interligado; e cada símbolo revelado será como uma
epifania, que trará luz e sombra a esse “algo” que é você. ∆
|
Comentários
Postar um comentário