Filosofando com... Johan Huizinga.
Filosofando com... Johan Huizinga.
Por Lúcio José Patrocínio Filho:.
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A civilização humana não acrescentou característica essencial alguma à ideia geral de jogo, porque o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico, ultrapassa os limites da atividade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa "em jogo", algo que transcende às necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação. Todo jogo significa alguma coisa. O simples fato do jogo encerrar um sentido, implica a presença de um elemento não material em sua própria essência. O jogo constitui uma preparação do jovem para as tarefas sérias que mais tarde sua vida exigirá, pois trata-se de um exercício de autocontrole indispensável ao indivíduo. É uma "ab-reação” [do alemão: Abreagieren] ou uma “Catarse” de Aristóteles, um escape para os impulsos prejudiciais ou uma purificação, um restauro da energia dispendida por uma atividade unilateral ou "realização do desejo", uma ficção destinada a preservar o sentimento do valor pessoal. O jogo encontra-se ligado a algo que transcende ao próprio jogo. ¿Por que razão um bebê grita de prazer? ¿Por que motivo o jogador deixa-se absorver inteiramente por sua paixão? ¿Por que uma multidão pode ser levada ao delírio por uma partida de futebol?" A intensidade do jogo e seu poder de fascinação não podem ser explicados por analises biológicas. É nessa intensidade, nessa fascinação, nessa capacidade de excitar, que reside a própria essência e a característica primordial do jogo. O mais simples raciocínio nos indica que a natureza poderia igualmente ter oferecido à suas criaturas, todas essas úteis funções de descarga de energia excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as exigências da vida, de compensação de desejos insatisfeitos etc., sob a forma de exercícios e reações puramente mecânicos. Contudo, a natureza brinda a tensão, a alegria e o divertimento, e é esse divertimento do jogo, o que resiste à toda análise e interpretação lógica. A palavra holandesa aardigheid é extremamente significativa a esse respeito. Sua derivação de aard [natureza, essência] mostra bem que a ideia não pode ser submetida à uma explicação mais prolongada. Essa irredutibilidade tem sua manifestação mais notável, para o moderno sentido da linguagem, na palavra inglesa fun, cujo significado mais corrente é ainda bastante recente. É curioso que o francês não possua uma palavra que lhe corresponda exatamente, sendo que tanto em holandês (grap e aardigheid) como em alemão [Spass e Witz] sejam necessários dois termos para exprimir esse conceito. E é ele precisamente que define a essência do jogo. Encontramo-nos aqui perante uma categoria absolutamente primária da vida, que qualquer um é capaz de identificar desde o próprio nível animal. É legitimo considerar o jogo uma "totalidade", no moderno sentido da palavra, e é como totalidade que devemos procurar avaliá-lo e compreendê-lo. Como a realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana, é impossível que tenha seu fundamento em qualquer elemento racional, pois nesse caso, limitar-se-ia à humanidade. A existência do jogo não está ligada a qualquer grau determinado de civilização, ou a qualquer concepção do universo, até os animais jogam entre eles. Reconhecer o jogo é, forçosamente, reconhecer o espírito, pois o jogo, seja qual for sua essência, não é material. Do ponto de vista da concepção determinista de um mundo regido pela ação de forças cegas, o jogo seria inteiramente supérfluo. Só se toma possível, pensável e compreensível, quando a presença do espírito destrói o determinismo absoluto do cosmos. A própria existência do jogo é uma confirmação permanente da natureza supra lógica da situação humana. Se os animais são capazes de brincar é porque são alguma coisa mais do que simples seres mecânicos. Se brincamos e jogamos, logo temos consciência disso ou seja, somos mais do que simples seres racionais, pois o jogo é irracional. As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde sempre, inteiramente marcadas pelo jogo. É o caso da linguagem, esse primeiro e supremo instrumento que o homem forjou a fim de poder comunicar, ensinar e comandar. É a linguagem que lhe permite distinguir as coisas, defini-las e constatá-las, em resumo, designá-las e com essa designação elevá-las ao domínio do espírito. Detrás de toda expressão abstrata oculta-se uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. A vivacidade e a graça estão originalmente ligadas às formas mais primitivas do jogo. É neste que a beleza do corpo humano em movimento atinge seu apogeu. Em suas formas mais complexas o jogo está saturado de ritmo e de harmonia, que são os mais nobres dons de percepção estética que o homem dispõe. São muitos, e bem íntimos, os laços que unem o jogo e a beleza. Não podemos afirmar que a beleza seja inerente ao jogo enquanto tal, pois o jogo é uma função da vida, mas não é passível de definição exata em termos lógicos, biológicos ou estéticos. O conceito de jogo deve permanecer distinto de todas as outras formas de pensamento, através das quais exprimimos a estrutura da vida espiritual e social. Teremos, portanto, que limitar-nos a descrever suas principais características. Antes de mais nada o jogo é uma atividade voluntária. Quando sujeito a ordens, deixa de ser jogo, podendo ser, como muito, uma imitação forçada. Basta perder esta característica de liberdade, para afastá-lo definitivamente do curso da evolução natural. É evidente que aqui entende-se “liberdade” em seu sentido mais lato, sem referência ao problema filosófico do determinismo. As crianças e os animais não só brincam porque gostam de brincar, mas porque há algo em seu interior, algo como uma bússola indicando um caminho, algo que a impele, que a coloca em movimento para realizar uma ação que a fortalecerá para as tarefas da vida, e é precisamente em tal fato, que reside sua liberdade. O jogo não é vida "cotidiana" nem vida "real". Pelo contrário, trata-se de uma evasão da vida "real" para alcançar uma esfera temporária de atividade com orientação própria. Toda criança sabe perfeitamente quando está "só fazendo de conta" ou quando está "só brincando", e todo jogo é capaz de, a qualquer momento, absorver inteiramente o jogador. O jogo é uma explosão da gestalt. Tensão, equilíbrio, compensação, contraste, variação, continuidade, solução, fechamento, união e desunião. O jogo lança sobre nós um feitiço: é "fascinante", "cativante". Está cheio das duas qualidades mais nobres, que somos capazes de ver nas coisas: o ritmo e a harmonia. Tensão significa incerteza, acaso. Há um esforço para levar o jogo ao desenlace, o jogador quer que alguma coisa "vá" ou "saia", pretende "ganhar" à custa de seu próprio esforço. O jogo é "tenso", como se costuma dizer. É este elemento de tensão e solução, que domina em todos os jogos solitários de destreza e aplicação, como os quebra-cabeças, as charadas, os jogos de armar, as paciências, o tiro ao alvo, e quanto mais estiver presente o elemento competitivo, mais apaixonante torna-se o jogo. O elemento de tensão, confere ao jogo um certo valor ético, na medida em que são postas à prova as qualidades do jogador: sua força e tenacidade, sua habilidade e coragem e, igualmente, suas capacidades espirituais, sua "lealdade". Porque, apesar de seu ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo. Por sua vez, estas regras são um fator importante para o conceito de jogo. Todo jogo tem suas regras. São elas que determinam aquilo que "vale", dentro do mundo temporário, por ele circunscrito. As regras de todos os jogos são absolutas e não permitem discussão. O jogador que desrespeita ou ignora as regras é um "desmancha-prazeres". Este, porém, difere do jogador desonesto, do batoteiro, já que este finge jogar seriamente o jogo e aparenta reconhecer o círculo mágico. É curioso notar como os jogadores são muito mais indulgentes para com o batoteiro do que para com o desmancha-prazeres; o que se deve ao fato deste último abalar o próprio mundo do jogo. Priva o jogo da ilusão; palavra cheia de sentido e que significa literalmente "em jogo". A função do jogo nas formas mais elevadas, pode ser definida de maneira geral pelos dois aspectos fundamentais que nele encontramos: uma luta por alguma coisa ou a representação de alguma coisa. Estas duas funções podem também, por vezes confundir-se, de tal modo que o jogo passe a "representar" uma luta, ou, então, torne-se uma luta para melhor representação de alguma coisa. Se passarmos agora das brincadeiras infantis para as representações sagradas das civilizações primitivas, veremos que nestas encontra-se "em jogo" um elemento espiritual diferente, que é muito difícil de definir. A representação sagrada é mais do que a simples realização de uma aparência e é até mais do que uma realização simbólica: é uma realização mística, como algo que alcançou o belo, em referência à Metafísica do Belo de Schopenhauer. Algo de invisível e inefável adquire nela uma forma bela, real e sagrada. Os participantes do ritual estão certos de que o ato concretiza e efetua uma certa beatificação, faz surgir uma ordem de coisas mais elevada do que aquela em que habitualmente vivem. Mas tudo isto não impede que essa "realização pela representação" conserve, sob todos os aspectos, as características formais do jogo. É executada no interior de um espaço circunscrito sob a forma de festa, isto é, dentro de um espírito de alegria e liberdade. Em sua intenção é delimitado um universo próprio de valor temporário. Mas seus efeitos não cessam depois de acabado o jogo; seu esplendor continua sendo projetado sobre o mundo de todos os dias, influência benéfica que garante a segurança, a ordem e a prosperidade de todo o grupo até a próxima época dos rituais sagrados. O rito, ou "ato ritual", representa um acontecimento cósmico, um evento dentro do processo natural. Contudo, a palavra "representa" não exprime o sentido exato da ação, pelo menos na conotação mais vaga que atualmente predomina; porque aqui "representação" é realmente identificação, é a repetição mística ou a representação do acontecimento. O ritual produz um efeito que, mais do que figurativamente mostrado, é realmente reproduzido na ação. Portanto, a função do rito está longe de ser simplesmente imitativa, leva à uma verdadeira participação no próprio ato sagrado. É um fator helping the action out. O culto é, portanto, um espetáculo, uma representação dramática, uma figuração imaginária de uma realidade desejada. ¿Que devemos pensar desta projeção concreta da primitiva consciência da natureza? ¿Como devemos encarar um processo espiritual que se inicia com uma experiência inexpressa dos fenômenos cósmicos e conduz à sua representação imaginária no jogo? Frobenius tem razão ao rejeitar a fácil explicação que se contenta com a noção de um "instinto de jogo" inato. Alega ele que o termo "instinto" é "uma invenção, uma confissão de impotência perante o problema da realidade". Com idêntica clareza, e com mais razão ainda, rejeita, como vestígio de uma maneira ultrapassada de pensar, a tendência para explicar todo progresso cultural em termos de uma “finalidade especial", de um "porquê" ou um "por que razão", como critério para julgar a capacidade criadora de cultura de uma comunidade. Ponto de vista este que qualifica como "a pior forma de tirania da causalidade" e como "utilitarismo antiquado". A concepção deste processo espiritual defendida por Frobenius é mais ou menos a seguinte: a experiência, ainda inexpressa da natureza e da vida, manifesta-se no homem primitivo sob a forma de "arrebatamento". "A capacidade criadora, tanto nos povos quanto nas crianças ou em qualquer indivíduo criador, deriva desse estado de arrebatamento. "Os homens são arrebatados pela revelação do destino". "A realidade do ritmo natural da gênese e da extinção, arrebata sua consciência e este fato leva-o a representar sua emoção em um ato, inevitável e como que reflexo". Assim, segundo ele, trata-se aqui de um processo espiritual de transformação que é absolutamente necessário. A emoção, o arrebatamento perante os fenômenos da vida e da natureza é condensado pela ação reflexa e elevado à expressão poética e à arte. É esta a maneira mais aproximada para dar conta do processo de imaginação criadora, mas está longe de poder ser considerada uma verdadeira explicação. Continua tão obscuro como antes, o caminho que leva da percepção estética ou mística, ou pelo menos metalógica, da ordem cósmica até aos rituais sagrados. |
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Donation please to: paypal.me/luciopatrocinio Referências Bibliográficas: 1 Huizinga, Johan, Homo Ludens. [design de jogos] [semi-ótica] [misticismo] [esoterismo] [UX] |
| © Lúcio José Patrocínio Filho. |

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