A morte do ego.
A morte do ego.
Por Lúcio José Patrocínio Filho:.
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“O homem busca uma dada elevação espiritual desde quando entendeu que é mortal, mas o temor à morte vem de fora para dentro e é esse exoterismo o que aprisiona a alma, logo, seu contrário libertará.” Detenha-se um minuto à estudar esta afirmação para perceber suas nuances, seus significados mais ocultos. Não é difícil fazer uma retrospectiva das religiões e logo constatar o apelo ao medo da morte. O “elevar-se” para perpetuar-se além da morte, o “cuidar-se” para retardar seu momento de morte, o “destruir seus inimigos” para evitar a sua morte, e não é necessário citar de quais religiões provêm tais desígnios, que não são mais que o alimento do temor à morte. Há religiões que não se alimentam do medo da morte, seus ensinamentos despertam o eu interior, que flui de dentro para fora de cada indivíduo, em um movimento de libertação da alma, que remove a máscara do mundo, para mostrar a Luz da verdade além do visível. Mas não é preciso tornar-se seguidor dessas religiões orientais, fonte de todos os movimentos esotéricos existentes, para garantir um lugar na eternidade, pois o fazê-lo também fará novos escravos, afinal, deles provém a afirmação de que “se você encontrar o Buda pelo caminho, mate-o”. Então ¿quão sutil pode chegar a ser o caminho?, pois ¿quão sutil pode chegar a ser o meu “eu interior”, para perceber o mais sutil dos sutis caminhos? E de igual importância, ¿quão sutis serão os que encontrarei pelo caminho? e ¿quão sutil devo ser para libertar-me de suas sutilezas e seguir adiante no mais sutil dos sutis caminhos? Civilização de profundo esoterismo foi a dos faraós, a qual por milênios aperfeiçoou o caráter iniciático de seu culto às virtudes, oculto aos olhos dos viciosos. Tamanha verdade, reservada aos verdadeiros adeptos, aos seletos sumo sacerdotes, escolhidos por sua linhagem, intelecto e sabedoria, tamanho segredo, preciosas chaves que decifram o “eu interior” para que seja possível alcançar a redenção do espírito. ¿Quem, em seu são juízo, gostaria de passar para a história como um súdito que se dedica meramente a depositar as oferendas às portas dos Templos?, viver profanamente, exotericamente, em um período histórico de sublime beleza iniciática, não poderia ser maior desperdício para uma alma incarnada em pleno apogeu dos mistérios egípcios, arroupado pelos braços de Osíris, o deus das iniciações, com seu cetro e o açoite, presidindo os mais sublimes mistérios do mundo antigo. De igual forma devo lançar a mesma pergunta. ¿Quem, em seu são juízo, gostaria de viver toda sua vida neste mundo contemporâneo, onde todo o conhecimento está na palma da mão, sem aprofundar-se em tudo o que sua mente seja capaz de abarcar, para poder alcançar a redenção espiritual? Limitar-se à uma única perspectiva é como mutilar-se o cérebro, tal e como o Osíris esquartejado, o qual somente renasceu depois que seu corpo foi novamente reconstruído e graças à intervenção de Tot, o guardião de todo o conhecimento iniciático. Osíris foi ressuscitado, comprovando que somente os iniciados podem sobreviver à morte, porque somente eles possuem a vontade que lhes dá o livre acesso a todo o conhecimento, o que lhes converte em senhores da eternidade. Osíris então é a representação daquele que em vida foi iniciado e que vive a vida como um adepto do Conhecimento. “Aquele que em vida morra, não morrerá”. (adágio do autor) O iniciado é purificado para ser capaz de ver a verdade que lhe abrirá as portas para a vida eterna, tornando-se uno com Osíris, em um movimento de reencontro de suas partes para reconstituir a unidade. “O néscio entrou no Templo de Osíris e viu-se no espelho, e ali chorou e suspirou consternado, mas o sábio entrou no Templo de Osíris e desvelou-se no espelho, e ali uniu-se ao manifestado.” (adágio do autor). Ainda caminhando pelas areias do Egito Antigo, os faraós personificavam a figura da encarnação divina, cultuados pelos sumo sacerdotes, devidamente escolhidos entre os sacerdotes iniciados no esoterismo egípcio. Há estudiosos da egiptologia que afirmam que somente o faraó podia aspirar à vida pós-morte, mas quero crer que essa hierarquia iniciática entre seus súditos fosse um processo de aperfeiçoamento que abrisse as portas ao conhecimento necessário para a obtenção da redenção espiritual, pois ¿para quê ser sumo sacerdote do faraó se com isso não se alcançasse elevação alguma? e ¿para quê iniciar-se se não há esperança alguma de uma perpetuidade além da morte? Como descrito no Livro dos Mortos, no “Papiro de Ani”, Ani e sua esposa estão diante das sete portas da casa de Osíris, sendo cada porta uma fase de uma iniciação que dá acesso à uma vida após a morte. Cada porta tem seus guardiões terríveis e sacrificadores, e passar por cada um desses caminhos escabrosos é como transcender um aspecto do ego, deixando para trás um vício e adquirindo uma virtude, tornando-se mais sutil a cada provação, mais leve; e na pesagem de Anubis, seu coração estará tão leve quanto uma pena de avestruz, quando então o adepto, representado por Ani e sua esposa, que são a representação do Adão primordial, o andrógino divino, alcançará a redenção espiritual. Observe bem a cena da pesagem do coração no Papiro de Ani e perceba que primeiro aparece Ani e sua esposa superpostos, em seguida, depois do coração sendo pesado na balança de Anubis, somente há uma pessoa, o que comprova que desde pelo menos 1300 a. C., na dinastia XVIII, ápice do esplendor da civilização faraônica, já havia o conceito cabalístico do Adão Kadmón, do homem primordial ou andrógino divino. Perceba também, que se trata do mesmo período dos eventos do pentateuco e seu êxodo, assim como o mesmo período do êxodo dos seguidores de Aquenáton à cidade de Canaã, sendo que ambas histórias acabaram sendo cientificamente provadas na egiptologia pelos pesquisadores e judeus ortodoxos, os irmãos Sabbah, como sendo a mesma história, e a verdadeira é a de Aquenáton e a outra é somente uma história de ficção, inventada por seus seguidores para escaparem dos seus perseguidores, os seguidores do seu neto Tutancaton, o qual trocou de nome para Tutancâmon, pois cultuava o deus Amón. Mas e depois da morte, ¿que tipo de mistérios foram buscar Pitágoras e Orfeu nas entranhas iniciáticas do Egito Antigo? e ¿por quê os mistérios de Ísis e Osíris perduraram por tanto tempo? pois também transmitiam esperança além morte. Muitos atravessaram os portais de Alexandria para apaixonar-se pelo hermetismo de Tot, em uma época mágica, esotérica e iniciática, origem do conhecimento, da sabedoria escrita e cantada, terra da Alexandria helenística, fonte de todos os metais herméticos, utilizados na forja do conhecimento tradicional. Muitos tentaram apropriar-se dessa tradição, alegando conexões históricas com os construtores da época, o que não passa de licença poética, pois a glória e o esplendor deve ser reservada aos egípcios e somente a estes. Permitam ao babuíno, descansar em Khemenou, a Hermópolis Magna dos gregos. Em outras palavras – por dizer de alguma forma mais singela –, deixem Trismegisto em paz. A verdade está do outro lado da vida e todos acabarão por encontrá-la. Notas: "Os muitos caminhos de Rostau" ("The many paths of Rostau"). “Rostau” é um círculo de quatro mil côvados de diâmetro e quadrado centrado na Grande Pirâmide. “Sokar” (os nomes que damos a essas construções) é outro círculo interligado de 4000 côvados de diâmetro e quadrado que cria um "Vesica Piscis" ou o "Olho de Horus". Juntos compõem o Duat (Submundo). O centro deste segundo círculo é uma localização muito precisa, exatamente 800 côvados reais ao sul do canto nordeste do templo Sphinx. Está na base da face norte vertical de uma colina chamada Gebel Gibli, esta colina que acreditamos ser o "mundo da criação" original. O "Muro do Corvo" ou "Causa Meridional", leva a este lugar. As medidas deste ponto oferecem uma prova conclusiva absoluta de que há algo a ser encontrado sob a areia e os detritos que se acumularam na base da colina ao longo de vários milênios. As pirâmides de Gizé formam um computador mnemônico, onde a colocação de cada estrutura indica o próximo passo a ser tomado em uma sequência que harmoniza e integra as diferentes geometrias. “O Livro dos Dois Caminhos” (ou Livro dos Caminhos de Rostau). Data pelo menos do princípio do Primeiro Reino Médio e provavelmente anterior. Ele deriva de inscrições descobertas em Barsha (Bersheh, Egito Médio) em 22 caixões não-reais provavelmente preparados para altos funcionários e suas esposas. Mas essas distinções são problemáticas, já que alguns textos originalmente utilizados pela realeza tinham uso mais geral em períodos posteriores. Embora o Livro dos Dois Caminhos não descreva o inferno especificamente, descreve os sete demônios que são os portadores do mundo inferior: aquele que estica a corda da proa; aquele que os corta; aquele que come o excremento de sua retaguarda; o rosto oposto, ruidoso; o rosto de cabeça para baixo, numerosas formas; aquele que vive em vermes; e Ikenty (Guarda do Templo do 7º pilone da Casa de Osíris , segundo uma das múltiplas versões. Em outra das versões é Saktif quem ocupa seu lugar). Os nomes deles e a breve descrição de sua missão revelam os perigos da face da morte, quando viajam através desses portões. ∆ |
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Referências bibliográficas:
Sociedades Secretas, Jean-François Lignier e Renaud Thomazo, Ed. Larousse, 2007.
Bauval & Gilbert, 1994, The Orion Mystery , London, William Heinemann Ltd.
Zivie, C.M., 1976, Giza au deuxieme millenaire , Cairo.
Fraser, The Golden Bough
Petrie, W.M.F, 1900, Royal Tombs I, London
Petrie, W.M.F, 1907, Gizeh and Rifeh, London
Mariette, 1857, Le Serapeum de Memphis, Paris
Gaballa, G.A., and Kitchen, K.A. 1969, The Festival of Sokar, Orientalia 38
Pyr. 138c
Cox, Pegg, Ritchie, The Makers of Time, unpublished manuscript
© Lúcio José Patrocínio Filho.

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