Sonho de um Cachaceiro na Europa.
Sonho de um Cachaceiro na Europa.
Por Lúcio José Patrocínio Filho:.
|
Sabemos todos os brasileiros, que o Brasil é um país de imensurável
riqueza cultural. São cinco séculos de história, um período de tempo
que parece pouco aos olhos da velha Europa, mas suficiente para
criar uma sociedade de importância mundial. Vale lembrar, que este é
um período relativo à sua colonização, porque a América sempre
esteve ali e, há muito, outras civilizações construíram sua
história sobre aquele solo fértil, como os Mayas, Incas e Aztecas.
Então, tentar condensar toda essa trajetória em um único produto,
pode converter-se em uma missão complexa, algo que pode gerar
admiradores e detratores, e não há algo pior nesses tempos de
conectividade total, que ter os haters perseguindo você pela
internet.
Nessa busca pelo produto com mais brasilidade, torna-se
impossível esquivar a história da América e, consequentemente, a
história do Brasil, nas quais a aguardente é facilmente
identificada como um dos produtos mais antigos, que nos conduz aos
tempos de Colombo e Pedro Álvares Cabral.
Foram os árabes, em sua conquista da península ibérica, os que
inventaram a destilação. Eles são os criadores do "alambique" e
aperfeiçoaram a arte da destilação no famoso período "Al-Ándalus".
Quando foram expulsos da península, deixaram para trás esta arte,
dando origem ao bagaceira, conhaque, grapas, whisky etc...
Ademais, o processo é pura elevação espiritual. O resultado final
é como um elixir, um licor extraído dos vapores da natureza, por
meio da destilação. É tão divino que a palavra "Alambique" provém
do árabe "al-inbīq", onde "al" significa "Deus". Por isso as
bebidas destiladas são denominadas "spirits" ou bebidas
espirituosas.
Dito isto, deixo claro o meu entendimento de que a arte de
destilar é um invento milenar, provavelmente pertencente aos povos
do Antigo Egito e aprimorado pelos povos persas e posteriores
civilizações, até chegar no último recôndito do mundo, a América.
Nossas versões americanas do al-inbīq estão hoje representadas
pelos Aguardentes dos países hispânicos da América do Sul, a
Cachaça do Brasil, o Ron Espanhol e do Caribe, o Rhum Agrícola das
ilhas e Guiana Francesas, o Pisco do Perú, a Tequila e o Mezcal do
México, o Whiskey Bourbon dos Estados Unidos etc. Portanto, afirmar
que a cachaça foi o primeiro destilado das Américas é um tanto
pretensioso por parte dos brasileiros, pois todos esses destilados
são oriundos do período inicial da colonização e são apenas
técnicas de produção adaptadas à realidades distintas e em função
dos recursos dos lugares onde há milênios ocorre a arte da
destilação.
Se mergulho nas profundezas da história da destilação, acabarei
por identificar um produto produzido pelos índios americanos no
período pré-colombiano, o Cauim, o qual era produzido de forma
similar ao saquê japonês, o que me leva ao entendimento de que
houve uma migração do processo de fermentação egípcio ao longo dos
séculos e este foi mutando, adaptando-se aos lugares por onde era
implantado, até chegar na América pelo estreito de Behring,
trazido por povos nômades em tempos imemoriais. Mas isso é tema
para outro estudo.
Uma vez que escolhi a cachaça para representar o conceito de
brasilidade, por sua importância histórica e conexão com a
história mundial da fermentação e destilação, coloquei em
movimento a ideia de levar a cachaça para a Europa. Depois de um
tempo escolhendo uma marca, acabei decantando por um alambique do
meu próprio estado, Goiás, por entender que já haviam realizado um
trabalho de base para alcançar um produto de qualidade de
exportação, uma questão latente entre os produtores. A marca
escolhida foi a Cambéba, uma empresa familiar, carregada de
história e cultura brasileira, uma história que vem sendo contada
desde 1808, por nove gerações da família Cambéba, desde
José Félix de Azevedo e Sá, até Thiago Furtado, filho do atual proprietário, Galeno
Cambéba. [2]
Aqui começa a minha história como importador de cachaça em
Barcelona. Foi em 2018, depois de haver vivido 12 anos na Espanha
(2000-2011), quando regressei a esse país para iniciar um novo
empreendimento, com algo de dinheiro no bolso e muita
ilusão.
O primeiro passo foi pesquisar sobre o consumo de cachaça na
Espanha, foi quando dei de cara com um muro, pois o consumo do
nosso néctar brasileiro é quase nulo no país do Don Quijote de la
Mancha. É tão desprezível que a cachaça sequer tem uma categoria
somente sua nas prateleiras dos mercados, tanto físicos como
online e quando há, encontramos apenas os produtos dos grandes
produtores como a ypióca (Diageo), 51 (Pirassununga), Velho
Barreiro (Tatuzinho) e Leblon (Bacardi). As demais marcas tentam
de todos os modos ganhar algum espaço, ainda que seja apenas para
aparecer nas fotos das redes sociais, para assim vangloriar de sua
presença no exterior, mesmo que essa presença seja somente ilusão,
porque no fundo só traz prejuízos para suas marcas.
Mesmo desiludido, decidi seguir adiante e iniciei os
procedimentos para abertura de empresa. Consegui uma sala
completamente grátis em um escritório de um amigo, o que resultou
em uma enorme economia em euros, pois uma sala em Barcelona não me
sairia por menos de 600€ mensais a mais simples que pudesse
encontrar. Um amigo contador também colaborou na redução dos
custos de abertura, fazendo um preço realmente baixo e uma
mensalidade de contador bastante abaixo do mercado. Contudo,
sempre há algo que se poderia fazer melhor e nesse caso, depois de
meses da abertura da empresa, descobri que há um serviço público
de atendimento para empresas chamado Barcelona Activa, o qual
faria esse procedimento completamente grátis. No processo de
abertura da empresa é fundamental acertar o CNAE de importador e
habilitar a empresa para importar, conseguindo uma sigla EORI que
acompanha o NIF da empresa, no caso da Espanha a sigla é ES.
Tive então que descobrir alguns caminhos por conta própria. A abertura da empresa possui seus gastos, tais como cartório
e registro sanitário no Ministério da Saúde para estar
habilitado a importar alimentos. Esse último foi fácil, mas outro
registro foi um pesadelo e comentarei adiante.
Encontrar um depósito para guardar os pallets de cachaça era
fundamental e estava na minha lista de afazeres. A cachaça Cambéba é
um produto com certificação de orgânico e isso significa que não
pode estar armazenada em qualquer lugar, o depósito deve estar
habilitado para armazenar esse tipo de produto. Neste caso somente
consegui encontrar um único depósito habilitado, há muitos, mas são
de empresas particulares, com o qual, tive que aceitar o que havia e
aceitar suas condições, nada de outro mundo, mas que no final das
contas também teve seu peso. Uma vez contatado esse depósito, eles
mesmos se prontificaram a funcionar como agentes despachantes para
cuidar dos procedimentos de importação, por meio de uma de suas
empresas especializadas no assunto. O preço era realmente
convidativo e aceitei, mas como sempre, tudo têm entrelinhas, não
deixaram claro quanto poderia custar todo o processo e no final da
primeira importação eu tive que desembolsar uma elevada quantidade
de euros para cobrir todas as despesas que brotaram do nada como
pipocas em uma chapa quente. Basicamente eram gastos provenientes do
depósito fiscal, pois a carga ficou mais de um mês retida no porto e
foi inspecionada até pela polícia civil, provocando pânico no
escritório do despachante, que afirmava nunca ter vivido essa
situação. Então fique sabendo que o desembaraço da carga portuária
gera muitos gastos e por isso um importador deve contabilizar uma
estimativa de gastos nesse sentido.
Uma vez iniciados os procedimentos de importação, ainda no Brasil e
já havendo acionado despachantes que iniciaram a papelada e a busca
de navio, descobri que como se trata de produto orgânico, minha
empresa precisava estar inscrita em algum órgão europeu de
certificação de orgânicos, no caso de Barcelona deveria ser o CCPAE,
o que provocou o cancelamento da operação, dado que esse
procedimento poderia demorar meses. Iniciei então um calvário que
com muita pressão resultou em uma certificação em dois meses,
tornando-me habilitado para importar orgânicos e perdendo outra soma
de euros que não estavam previstos. Vale recordar que todo esse
investimento eu fiz do meu próprio bolso, sem ajuda alguma do
produtor, algo que resultou ser de enorme imprudência por minha
parte, mas não posso culpar o produtor e nem mesmo meus amigos, os quais alertavam da minha loucura e cegueira momentânea.
Completamente ciente de que não conseguiria obter lucro algum com a
venda dessas garrafas de cachaça, e ainda que estivesse avisado de
que as contas não fechavam, decidi seguir adiante, quando o produtor
decidiu reduzir substancialmente o valor da importação, ainda que eu
já sabia que mesmo que a cachaça fosse enviada completamente grátis,
nunca conseguiria o retorno do meu investimento. Era pura ilusão e
sentimento de patriotismo ou simplesmente insanidade.
Uma vez que a carga estava embarcada no navio, tive que efetuar o
pago dos gastos no Brasil, tais como despachantes e transporte,
outro susto, pois o que era um valor de despachante, dobrou o valor,
porque afirmavam que houve a participação de duas pessoas, uma para
papelada e outra para o navio.
Pois bem, a carga ficou retida por 40 dias, provocando um gasto de
aduanas insano e um elevado stress pessoal. Uma vez que finalmente
vi a carga no depósito, e havendo efetuado gastos em todas as etapas
do processo, entendi que havia cometido uma loucura, meu capital
nunca seria recuperado e uma longa jornada de vendas provocaria um
stress terrível que resultaria na minha quebra financeira.
O mercado de bebidas alcoólicas na Europa é uma guerra de mercado.
Há alguns grupos de enorme presença mundial, como a Diageo e a
Bacardi, e esses conseguem formar uma espécie de monopólio do
álcool por meio de um sistema de contratos acordados entre
distribuidores e estabelecimentos comerciais e pelo elevado poder de
barganha que possuem por deter o controle das marcas mais icônicas.
Tudo dentro da legalidade, com o qual é impossível afirmar que se
trata de dumping. Esses contratos inviabilizam a penetração no
mercado por parte de pequenos importadores ou distribuidores. Não
posso dizer que é impossível, mas se você está decidido a entrar
nesse mercado, saiba que precisará de muito capital e diversificação
de produtos para tentar penetrar no setor, porque se você chegar
somente com a cachaça, sequer consegue entrar no jogo dos contratos,
porque os comerciantes querem fazer contrato com quem vai fornecer
todo tipo de produtos, para que ele não tenha que fazer papelada
para várias empresas. Outro agravante está no fato de que todas as empresas de bebidas alcohólicas da América querem vender na Europa para fazer nome, o que provoca uma avalanche de novos produtos no mercado europeu, em geral com promoções de lançamento muito ousadas, do tipo 2x1 e até mesmo grátis, pois o objetivo final não é vender na Europa, mas sim fazer nome para vender melhor em seus países. O que sobra são pequenas vendas de produtos,
vendas que você pode conseguir fazer a bares e estabelecimentos
brasileiros como lojas de produtos latinos e essa briga é feroz pelo
simples fato de que há uma infinidade de produtos tentando
permanecer ali, o que provoca uma baixada de preços surreal. O
resultado é a venda abaixo do preço de compra e ainda um tempo e
dinheiro gastos a cada mês de custos fixos e operacionais que se
tornam insuportáveis a cada dia que passa. Como não há giro para
esse tipo de produto e como você não tem a possibilidade de
conseguir contratos, as vendas soltas não vão conseguir salvar a
empresa. Soluções? Como dizia minha esposa: busque um emprego. Para
os ousados admiradores da cachaça, se você decidir por importar,
antes de qualquer movimento, garanta estar empregado para cobrir
seus gastos fixos e que a cachaça seja seu hobby. Assim você vai ter
tempo para vender sem pressa e sem baixar insanamente seus preços e
não vai adoecer.
Os custos de despacho de uma importação são devoradores do capital.
Importar 1 pallet ou importar um container de 40 pés, não vai
alterar significativamente esse valor, então a quantidade importada,
sim que importa para baixar custos. Por outro lado os gastos em
aquisição do produto e transporte, assim como os impostos especiais
sobre bebidas alcoólicas, que são pesados na Europa, vão afetar
significativamente seu bolso, no caso de você importar em grande
quantidade. Portanto, a cada importador cabe decidir quanto
importar, em função de sua capacidade de investimento. Eu entendo
que importar em pequenas quantidades não tem sentido econômico
algum. Posso afirmar categoricamente que não dá lucro, trata-se de
um hobby que só deve ser assumido por alguém que vive de outra
coisa. Se for uma atividade promocional, onde os produtores pagam
tudo e ainda pagam um salário para você publicitar a marca na
Europa, então talvez você possa viver disso, mas há exemplos de
empresários que tentaram esse modelo de negócios e o resultado é a
desistência por parte dos produtores, porque no fundo a realidade é
que não há alambiques preparados financeiramente para suportar esse
modelo a médio prazo. Você vai acabar abandonado pelas marcas e
ainda com um problema de custos fixos de armazenagem de produtos,
entre outros. Há pouquíssimos exemplos de profissionais que vivem
disso, em geral funcionários que trabalham para alguma grande marca
e representam essa marca na Europa inteira.
Quanto às questões bancárias, no começo evite pedir empréstimos ou
créditos, porque sempre vão tentar introduzir alguma obrigação de
compra de algum produto, que pode vir na forma de um seguro ou outra coisa e
isso vai dinamitar seu capital. Abra a conta da empresa e não peça
nada, evite cair nos contos dos diretores do banco. Perdi muito
dinheiro ao solicitar créditos de importação e leasing de carro.
Alugue uma van para suas necessidades pontuais de transporte de
cargas do depósito para sua casa e faça você mesmo a entrega das
caixas, pois o normal será realizar vendas de 2 garrafas a 2 caixas,
o que pode ser entregue com um carrinho de compras e em transporte
público. É inviável terceirizar as entregas, o que chamamos de
picking. Para envios aos outros países dentro da comunidade europeia, as transportadoras se juntaram em um grupo de empresas, com o qual, seja por onde seja, acabamos por estar contratando as mesmas empresas. Espere pelo menos 10% de perdas, pois eles sempre perdem carga ou alegam que rompeu ou outra desculpa esfarrapada, e como não pagam seguro em envios de alcohol, você fica com o prejuízo. Empresas como SEUR, grupo Eurosender, DPD, DHL etc. tudo farinha do mesmo saco.
Quanto aos métodos de vendas, fique sabendo que e-mails não
são o método mais eficaz, o certo é que menos de 1% dos e-mails
enviados acabam em algum retorno e a conversão em compras é quase
nula. Além disso o mundo está muito extremista, com o qual,
dependendo do que você publicitar nos seus e-mails, além de não
vender, você ainda consegue uma legião de haters. O contato
direto, corpo a corpo nos bares, foi e está sendo a medida mais
efetiva, você mostra seu produto no ato e ali mesmo fica decidida
a compra. Para isso é necessário ter os seguintes
requisitos:
Uma nota sobre a garrafa, algo que poderia ressaltar para
iluminar a mente dos potenciais importadores, pelo menos
dentro da minha experiência de venda na Europa, é fundamental
aportar uma garrafa potente, com personalidade e estética, mas
saiba que há dois tipos de garrafas. O primeiro tipo está ligado
aos produtos premium, aqueles que você vê decorando a prateleira
de bebidas que fica atrás dos barmen. Essas são as garrafas de
vitrine e não podem colocar garrafas feias ali, pelo que se seu
produto é uma cachaça envelhecida, saiba que não conseguirá
colocá-la na vitrine dos bares se a garrafa é standard. O segundo
tipo está nas garrafas de giro, elas são utilizadas para criar a
maioria dos cocktails dos bares e por isso ficam embaixo da barra,
bem na frente dos que preparam os cocktails, inclusive ficam
abertas, com uma biqueira que serve para controlar o fluxo do
produto na hora do preparo e essas garrafas precisam ter uma forma
que possibilite ao barman praticar alguns malabarismos, sendo que
os mais fáceis são os de girar a garrafa na mão e isso não é
possível com garrafas sem pescoço alto e garrafas gordas. Essa é
uma tarefa pendente no setor da cachaça, porque nessa categoria
estão presentes somente a vodka, o whisky, o gin e o rum, a
cachaça não tem espaço, justamente porque não há um repertório de
cocktails famosos que utilizem cachaça e menos ainda as
envelhecidas.
A presença nas redes sociais e web são tarefas de casa
obrigatórias, ainda que não são garantia de venda. Ter uma web, um
e-mail de empresa, instagram, face page etc. pode sair caro se for
terceirizado, principalmente porque são ferramentas de mídia que
requerem atualizações permanentes de fotos e material publicitário
e isso tem um preço. No meu caso, como tenho formação superior
design, eu mesmo cuidei disso tudo, com o qual o gasto foi mínimo,
o que me leva a pensar nos demais, que ainda precisam investir
nesse ponto também.
A conclusão é a de que o mercado Europeu não está acostumado com
a cachaça e isso leva ao entendimento de que há um custo elevado
de introdução no mercado e esse custo não pode ser suportado pelo
importador. É um investimento das marcas e estas devem ter em
mente esse custo. Então, cachaceiros, estejam preparados, com
produtos interessantes em todos os aspectos citados, papelada
organizada e dinheiro no bolso para investir a longo
prazo.
Bons negócios!
|
|
Donation please to: paypal.me/luciopatrocinio Referências Bibliográficas: 1 Cachaça 2 José Félix de Azevedo e Sá |
|
© Lúcio José Patrocínio Filho - CEO Spirits do Brasil S. L. [Braspirits.co] |

Comentários
Postar um comentário