Filosofando com James Low. O Nada é o Tudo e o Tudo é o Nada.

Filosofando com James Low. O Nada é o Tudo e o Tudo é o Nada.

Por Lúcio José Patrocínio Filho:.

A "Canção do Cuco da Presença Total" pertence à tradição da escola Nyingma (os antigos). Esta escola é a primeira a ser organizada no Tibete, desde a fundação do mosteiro de Samye.
Este texto foi apanhado por um monge tibetano chamado Bagor Vairochana e enviado à Oddiyana, lugar mítico situado no centro da Índia, pelo rei Trisong Detsen para obter os textos dos ensinamentos Dzogchen e traduzi-los ao Tibetano. Em Oddiyana, Vairochana conheceu o professor Shri Singha, o qual lhe ensinou tanto os sutras como os ensinamentos Dzogchen, estes últimos durante a noite, por causa da proibição imposta pelo rei de Oddiyana de transmitir essas práticas aos tibetanos, por serem consideradas secretas. De regresso ao Tibete, escreve e traduz os ensinamentos Dzogchen ao idioma tibetano e os transmite ao rei e a uns quantos outros escolhidos.
O texto dos Seis Versos Vajra foi de fato uma das primeiras práticas ensinadas no Tibete. A transmissão Dzogchen, que Bagor Vairochana recebeu de seu mestre Shri Singha, consistia em ensinamentos que foram comunicados oralmente por várias gerações anteriores, sem interrupção, desde Garab Dorje. Este mestre, de acordo com a tradição Nyingma, nasceu trezentos e sessenta e seis anos após a morte do Buda (483 a. C.) ou seja, no ano de 117 a. C., e manifestou surpreendentes qualidades desde a infância.
Bagor Vairochana 191, diferentes linhagens são estabelecidas no Dzogchen, mas todos começam com Garab Dorje e chegam a Shri Singha, o qual fora o mestre de Bagor Vairochana. As linhagens no budismo são primordiais porque manifestam a pureza e a autenticidade dos ensinamentos, dado que estes foram ensinados oralmente, por muito tempo, e mesmo depois de gravar os textos em escritura. Por sua vez Garab Dorje, de acordo com a árvore da linhagem Nyingma, descende do Buda primordial Samantabhadra, em sânscrito (Kuntu Zangpo, em tibetano), o qual é a representação da "natureza não dual" da "mente primordial" e por essa razão é personificado nu.
"Representa a Consciência do Conhecimento que é o universo, seu nome significa "O Tudo Bom", porque sua bondade é transcendental e vai além da moral. Representa em si mesmo o Dzogchen em sua fase de resultado". (Dowman 1994, 143). 
Depois é seguido por Garab Dorje e os seguintes mestres, até chegar a Vairochana.
Namkhai Norbu, ao definir etimologicamente o título de Kunjed Gyalpo, documento no qual estão os seis versos, detalha o simbolismo da Samantabhadra: "Literalmente (Kunjed Gyalpo) é a tradução de "o Rei de todo o criado", em realidade Kunjed Gyalpo é sinônimo de Samantabhadra. Em um grau de entendimento mais elevado, o verdadeiro significado do termo kun é "tudo", que é o vazio, quando se considera que a natureza última de todos os fenômenos é a condição original de pureza (ka dag) ou vazio. Jed é um verbo que significa ''fazer" ou "atuar", e refere-se à energia natural do vazio que, ao ser dotada de movimento e atividade, manifesta-se como claridade (gsal ba), visão (snag ba) e uma pura e instantânea presença (rig pa). O termo gyalpo ou "rei", significa o princípio do conhecimento que corresponde à perfeição total do estado primordial do estado do Ati Dzogpa Chenpo: nossa autêntica condição original". (Norbu e Clement 1999, 14).
Assim, os principais estudos concordam que a transmissão oral dos versos foi concedida a Vairochana por Shri Singha em Oddiyana e que os escreveu em tibetano no século VIII. Mas a antiguidade oral não pode ser definida com precisão, porque a existência de Garab Dorje está perdida entre a história e a lenda desse mestre.  
(Aceves, Berta, SEIS VERSOS VAJRA, 2004)
Se houve um princípio,
Então antes havia um Nada.
Se houve um Nada,
Esse Nada era Ele,
Senão Ele não seria o Tudo
E hoje não existiria nada.
O Nada é o Tudo e o Tudo é o Nada, 
Porque tudo é ilusão criada, 
Do Nada e pelo Nada. 
A compreensão ou não desse axioma, vai definir quão livre e quão escravo sou da dualidade, porque o Vazio está na casa da sabedoria e o Tudo está na casa da emoção. 
O número fatídico é o menos estudado e sabidamente o menos indicado para que seja desvelado. Todo adepto o deixa meio de lado, mas sua compreensão é base para avançar na construção de qualquer Templo bem fundamentado.
Segundo James Low, o Carma tem quatro passos:
“O primeiro passo é a Dualidade, onde eu sou real e você é real, onde há luz e sombra, preto e branco, certo e errado, objeto e sujeito, sabedoria e ignorância. O segundo passo é a intencionalidade, onde se quero roubar seu relógio, eu sou o sujeito e o objeto é o relógio. O terceiro passo é a ação na qual roubo seu relógio, onde utilizo a minha vontade para executar uma ação, tendo já reflexionado sobre meus atos. O quarto é a emoção, quando me satisfaço ao ter seu relógio, sem importar o dano que a ti tenha causado. Quando os quatro passos estão presentes, o ciclo desta energia do Carma está completo. Contudo, quando reflexiono sobre o porquê tenho que roubar o seu relógio, a energia do meu Carma já diminui. Quando estou prestes a roubar o relógio, penso e não o faço, isso reduz ainda mais a energia do meu Carma. E se quando tenho o pensamento de roubar o seu relógio, raciocino sobre o que estou fazendo e não roubo o seu relógio, reduzo mais ainda o Carma, pois estou anulando a energia da intencionalidade. Cada passo é um processo como o podar das folhas de uma árvore. A raiz é a primeira, a dualidade, eu sou real e você é real. O objeto e a pessoa são a mesma coisa, como um par de magnetos ou uma bobina eletroestática com uma carga elétrica entre ambos. Despertar o Vazio é dissolver a dualidade e isso corta a raiz do Carma, onde o sujeito sequer entra na roda do Carma, que está no conflito entre Luz e Sombra. Ele não está mais sujeito à lei da dualidade, à lei do Carma, porque tudo nele é Vazio, para ele, o Tudo e o Nada conformam o Vazio.”
(James Low, youtube)
O ensinamento diz que a sua mente ou seja, a sabedoria, deveria ser como o céu, e seu comportamento deveria ser tão fino como a ponta de uma agulha. Não é que você tenha permissão para sair por aí causando o caos, porque em realidade, causar problemas é um esforço. Um exemplo desse monte de esforço é ter que mentir, enganar e roubar. Observe quanto dinheiro os políticos precisam gastar para manter as mentiras, isso é gerar Carma, querer ser importante, ter êxito sobre o mundo material, enganar e mentir para que tudo aconteça. Assim que, seja agradável, seja bom com os demais, porque isto necessita muito menor esforço. Não tem porque ter nenhuma intenção. Simplesmente está aí e algo acontece. Assim é bastante possível viver na naturalidade. Porque o que assegura o suporte ético disto tudo é que ao ser parte do mundo, funciona como parte do mundo. A não dualidade significa que já não está dentro, não sai de ti para ajudar o mundo e as outras pessoas, pois já somos o mundo. Tudo o que há no mundo, desde os minerais aos seres vivos é parte do mundo. Somos parte deste mundo precioso, o mundo das experiências, o mundo dos fenômenos. Quando temos que parar para pensar algo que tem que ser realizado, acabamos preocupados demais, aumentando a possibilidade de erro, mas quando estamos integrados com o mundo, deixamos fluir e temos a certeza de que tudo vai dar certo, e agimos integrados com o Tudo e tudo ocorre bem. Quando você vê além da máscara que é o mundo da forma, isto muda tudo, mas quando você está desconectado é o perigo, pois estar conectado é a ética. O Vazio é ético. O contato real é a ética e, quando mantemos contato profundo com os demais, isto autorregula. Tal e como afirma Low: 
“se há uma conexão virtual, forçada, como as tentativas de unir países em comunidades comerciais como a União Europeia ou o Mercosul, não se forma uma verdadeira conexão e começa a ser necessário criar regulações, porque esta relação não é fruto do amor, não surgiu por uma necessidade de conexão natural entre povos. E a cada dia teremos mais comitês e organismos reguladores, pois uma verdadeira comunidade somente surge das conexões do amor.” 
O contato visual é muito importante e isto está se perdendo. Não olhamos mais nos olhos das pessoas, olhamos suas fotos nas redes sociais. Não compartilhamos vivências e por isto nossos relacionamentos são voláteis, frios, restritos a pequenos grupos ou a nenhum grupo. Estamos escravizados neste novo mundo virtual, tão aprisionados que não estamos conseguindo viver na conectividade real, preferimos o virtual porque a escravidão é cômoda e isto está sendo ofertado de graça ao mundo e todos estão comprando este novo mundo de solidão e ilusão, porque o ego não gosta de ser apontado e neste novo normal, irreal, o ego sente-se protegido e fortalecido. Este tudo em uma caixinha, em verdade não é nada se abdicamos da liberdade que é poder olhar-nos nos olhos e realizar esta conexão real, este intercâmbio de energias. Isto é a liberdade. O virtual não revela ao mundo nossa verdadeira Luz interior, muito pelo contrário, ele a oculta ao mundo, ele distorce nossa Luz, tal e como o faz a Lua, que recebe a luz do Sol e sua superfície transforma essa luz, e o que vemos não passa de uma distorção da verdadeira luz do Sol. 
O ego é o reflexo de nossa verdadeira luz. ∆


Universo



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