Filosofando com Federico Climent Ferrer.

Filosofando com Federico Climent Ferrer.

Por Lúcio José Patrocínio Filho:.


"Eram quatro nobres cavaleiros, 
cavalgando em busca de uma terra,
a qual afirmavam ser a santa.
Seguiam por um sendeiro estreito,
esotérico e sinuoso,
como uma espada em flama.
O primeiro era um gladiador.
O segundo era belo e traiçoeiro
como um príncipe encantado.
O terceiro; um velho e sábio,
como se fosse um mago branco.
E o quarto...
...parecia não estar mais ali.
Cavalgavam rumo oriente,
tendo à frente o sol nascente,
cascalhos duros, dilapidados,
fazendo ranger as ferraduras,
deixando atrás uma escuridão,
que tão bem ocultava a morte
e suas olvidadas lápides,
alastradas naquele caminho."

Seria somente mais um conto extravagante de cavalaria andante, daqueles que, como em Dom Quixote, embrulham o juízo e transtornam a mente e a imaginação do leitor, não fosse por seu prazer pela genialidade ingênua, por seu apelo esotérico e teológico, por seu enredo controverso e por sua verossimilitude encontrada somente no além físico. Um conto meta-poético, repleto de encantamentos metafísicos, fundindo-se entre névoas brancas e negras, que se misturavam ao longo do obscuro caminho, assustando e fazendo voar os corvos, que do lado esquerdo buscavam alimento na relva molhada que ladeava as lápides; fazendo voar também as pombas, que do lado direito bebiam da fonte da vida. Névoas negras e brancas, meneando as ervas curativas e as folhas das acácias que ladeavam e ornamentavam o sendeiro, permitindo-lhes sentir o aroma da mãe natureza.

O gladiador era forte e graúdo como um touro de arena, porém desprovido da leitura e do conhecimento das coisas reservadas aos filósofos. De pele sovada, marcada pelas batalhas da vida, olhos de poucas luzes, isso sim, doutor na ciência do sentido comum. Não se deve apostar todos os miúdos naqueles estudiosos, senhores do conhecimento, quando a vontade deles não esteja orientada para a realização da Grande Obra. Tal e como agiu Sancho Pança – homem de educação parca, contudo rico em sabedoria popular –, que não estava louco como seu amo, mas ainda assim, movido por sua cobiça, caiu, deixando-se levar pelas palavras loucas de um desvairado, aquele Dom Quixote cheio de contos alucinados de cavalaria andante, arquétipo da humanidade, aquela que tudo aposta nas falsas esperanças e na fé cega, em detrimento da realidade. Aquele sol ofuscante do meio-dia, um vento quente açoitando o sovado; cela e armadura, couro e metal. Cavalgando cegos, rumo Oriente, ¿quem vos conduz pela escuridão?, cavaleiro andante, ¿quem vos conduz e por que nele confiais?, pois si caminhais sem fazer sombra, ¿não seríeis já perfeito? e, desnudo, não só do lado direito, ¿a soga não deveria estar jogada ao chão?. E responde:
– Aquele que me conduz é terrível, assim mesmo confio em sua palavra.

Belo traiçoeiro, o príncipe; ilusório brilho emanava; ofuscadas mentes, fracas e de pouco juízo ludibriava, e como se de uma hipnose se tratara, fazia-lhes torcer a vontade, impulsionando-os em busca desenfreada, desencadeada pela inveja. Busca de tolos por uma fortuna fácil, por caminhos difusos, apostando no imaginário. Tal e como Sancho Pança, ao entregar sua alma às promessas absurdas de seu amo insano, a tal ponto de abandonar sua família por completo, sem olhar atrás. Imparável cinética do desejo, tal e como o sino da capela ao meio-dia baterá doze vezes, cegamente imparável até a última badalada a ser saciada. Quão ilusória é a metafísica do belo, tal e como um ardil, a agarrar o mais torpe e despistado.

O velho era realmente um sábio, ¿mas em que homem não será possível encontrar algo de sabedoria, poesia e loucura?, pois até mesmo os mais presumidos de juízo são portadores de uma pitada de desequilíbrio em suas faculdades anímicas, que afetam a vontade, o conhecimento e o amor. Um velho de barba longa e branca, visto de perfil. Chapéu preto, de abas caídas; só por esse ornamento já estaríamos descrevendo um mago, mas não o era. E era. Deixava-se ver somente a face direita, como se isso fosse possível, quase mágico ou ilusionista; afirmava ser sua face esquerda, orientada ao Imanifestado, e por essa “meta-razão” – palavra por ele inventada –, aparecia sempre oculta.

Quão grandes podem chegar a ser os obstáculos em nossas vidas terrenas, como ogros fazendo girar os braços em movimento circular, como ponteiros de um relógio ou como as pás de um moinho, deixando-se levar pelo vento cálido; oh egrégora, oh colunas que se equilibram entre magias. Sancho nunca foi capaz de ver o além físico. ¿Mas quem neste mundo será capaz de alcançar a metafísica do rito, sem flertar com a loucura e com o desvario do saber das coisas divinas?. Quiçá Sancho já soubesse que se entendesse do metafísico, a física perderia total importância, e tal ato fatalmente provocar-lhe-ia um inferno interior, pois seus gigantes internos não quererão dar a batalha por perdida, não quererão libertar seu escravo que tanto os alimenta, pois querem governar e não serem governados.

Assim como Dom Quixote, os quatro cavaleiros juntos simbolizam o macrocosmos, a natureza superior do homem. Sancho, tal e como os ogros do imaginário, simboliza o inferior, os egos que residem no microcosmos. Ambos, cavaleiro nos céus e escudeiro na terra, fundem-se e confundem-se para formar um único cavaleiro montado em seu corcel, ansioso por encontrar a verdade, a beleza divina e o amor incondicional. Tenha força de vontade, cavaleiro andante, transcenda às armadilhas do belo, alcance a sabedoria divina e não tenha medo da morte, a única verdade imutável.

Eram quatro nobres cavaleiros
em um sendeiro estreito e sinuoso.
Eram quatro,
mas eram somente um. ∆


Quixote



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Referência Bibliográfica:
CLIMENT FERRER, FEDERICO, Enseñanzas del Quijote, 1916.

© Lúcio José Patrocínio Filho.

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